Se for depender da mata, vou morrer de fome
Foi a partir desse momento que o casal indígena Jôsy e Fábio precisou recalcular toda a vida.
Uma das histórias que venho contar hoje fica localizada na Aldeia Areal, em Aracruz. É nesta localidade, próxima da sede do município, que um casal de origem tupiniquim precisou adaptar seus costumes para sobreviver. E não estou falando sobre mudança cultural. Longe disso, o papo é sobre etnoempreendedorismo.
Em comunidades onde o turismo ainda chega de forma tímida e a sobrevivência da caça e da pesca já não sustenta as famílias como no passado, o comércio (presencial ou digital) passou a representar uma nova possibilidade de renda, valorização cultural e conexão com o mundo.
Mas vamos do começo. Não é novidade que o artesanato indígena é uma fonte de renda importante para as aldeias do Espírito Santo. Sob esse contexto, Jôsy Pereira Ferreira, de 45 anos, e marido, o artesão autodidata Fábio Rocha de Jesus, de 52, transformaram a sua arte tradicional em fonte principal de sustento da família.
Empreendedorismo por necessidade
Na verdade, o que hoje é comum, antes começou por uma necessidade. Jôsy afirma que o empreendedorismo surgiu também como resposta às mudanças ambientais e sociais vividas pelos povos indígenas ao longo das décadas.
“Não tem como viver da caça. Se for depender da mata, de caçar veado e tatu, vou morrer de fome. Os rios estão poluídos, até a pesca está prejudicada”, diz.
Mais do que vender peças, Jôsy afirma que o objetivo do trabalho é aproximar visitantes da cultura indígena. Além do artesanato, a comunidade oferece oficinas culturais, experiências de etnoturismo e vivências na aldeia.
“O etnoturismo vai além da compra. É conversar, aprender sobre a nossa cultura, participar das oficinas. Se a pessoa quiser, pode até dormir aqui”, explica.
E mesmo buscando inovação, ainda existem obstáculos cruéis no caminho. A artesã ressalta que é preciso rebater preconceitos enfrentados diariamente. Segundo Jôsy, há pessoas que diminuem a relação dos povos originários com a tecnologia e enxergam a presença indígena no ambiente digital como uma contradição, ignorando que o acesso à internet hoje também é uma ferramenta de sobrevivência.
“Hoje as pessoas falam que indígena com celular não é indígena. Mas não é possível viver sem internet. Precisamos do SUS, do governo, tudo depende da conexão. Isso sem falar da comunicação para gerar renda”, afirma.
Mesmo diante das transformações, ela reforça o esforço da comunidade para manter viva a identidade cultural. “Estamos sempre lutando para não perder a nossa cultura, quem nós somos”.
Cultura, turismo e experiência
Hoje, as peças produzidas na aldeia chegam a clientes de diferentes estados e até de outros países, principalmente por meio da internet. “Sempre teve o boca a boca, mas foi na internet que tudo mudou. Hoje em dia, tudo que viraliza as pessoas correm atrás”, conta Jôsy.
Segundo ela, o processo de fortalecimento do negócio começou há cerca de 25 anos, quando conheceu o trabalho do Sebrae. Desde então, o casal passou a participar de feiras, rodadas de negócios e exposições fora do Espírito Santo, levando o artesanato indígena capixaba para novos mercados.
“O Sebrae teve um papel muito importante para apresentar o nosso trabalho aos lojistas. No começo, participamos de rodadas de negócios, feiras e eventos fora do Espírito Santo. Foi assim que as pessoas começaram a conhecer mais o nosso artesanato”, relembra.
Hoje, o casal produz colares, cestos, brincos, luminárias de cipó, peças inspiradas na fauna brasileira, casacas e até canoas havaianas artesanais, uma criação que nasceu de um pedido feito por uma pousada da região e acabou se tornando um sucesso comercial.
“A gente vive do artesanato. É assim que vai gerando renda”, afirma Jôsy.
Artesanato indígena ganha o mundo
O trabalho desenvolvido na aldeia passou a alcançar novos públicos após a participação do casal na Rede ArteSol, projeto nacional que divulga artesãos de diferentes regiões do país. Atualmente, Jôsy e Fábio são os únicos representantes do Espírito Santo na iniciativa.
A analista do Sebrae em Aracruz, Roberta Vieira Stoco, afirma que o diferencial do casal está justamente na capacidade de unir tradição cultural e visão empreendedora.
“Hoje, o artesanato da Jôsy e do Fábio é fora da curva. E não só pelo material e pelo talento, mas pela postura de querer que o artesanato deles chegue a outros lugares”, destaca.
Segundo Roberta, o Sebrae atua na capacitação e na abertura de mercados para os empreendedores indígenas, principalmente por meio de consultorias, feiras e experiências voltadas ao turismo e ao comércio digital.
“O que a gente faz é pegar na mão deles e mostrar o que precisa ser feito, apresentar pessoas que podem apoiar, abrir oportunidades de relacionamento e acesso a mercado”, explica.
Ela destaca ainda que existe uma demanda crescente por produtos artesanais com identidade e história. “O artesanato indígena conta histórias. Tem origem, tem valor cultural. E hoje existe uma procura muito grande por produtos originais”, completa.
O indígena no delivery
Outro exemplo de empreendedorismo indígena que cresceu impulsionado pelas plataformas digitais vem da Aldeia Caieiras Velha, em Aracruz. Foi ali que Jozenilton Sezenando Loureiro, de 37 anos, decidiu transformar uma necessidade da própria comunidade em oportunidade de negócio.
Administrador de formação, Jozenilton percebeu que muitos moradores precisavam sair da aldeia para consumir produtos simples do dia a dia. A partir dessa observação, nasceu a ideia de abrir uma açaiteria dentro do território indígena.
“Eu sempre observo as oportunidades. Na aldeia tem bastante gente e eu percebi que faltava um lugar assim. Muitas pessoas precisavam sair daqui para consumir um açaí, por exemplo. Então pensei: por que não empreender dentro da própria aldeia?”, conta.
O negócio começou durante a pandemia e rapidamente encontrou no delivery o principal caminho para crescer. Hoje, cerca de 80% das vendas acontecem pelas plataformas de entrega, permitindo que o empreendimento alcance não apenas moradores da aldeia, mas também bairros vizinhos e turistas que passam pela região.
“Muitos turistas chegam só até Coqueiral e acabam não entrando nas aldeias. O delivery ajuda a levar a nossa identidade para essas pessoas também”, explica.
Batizada de “Castanha Branca”, a lanchonete carrega referências da cultura e do território indígena até no nome, inspirado em uma castanheira localizada sobre o estabelecimento. Além do açaí, o espaço também vende hambúrgueres, porções e outros lanches.
Segundo Jozenilton, a formação em Administração ajuda na organização do negócio, desde o atendimento até a logística das entregas. O empreendedor também participou de capacitações oferecidas pelo Sebrae e acredita que o fortalecimento dos negócios indígenas representa uma forma de ocupar espaços historicamente negados aos povos originários.
“Meu avô sempre falava que a gente precisava ocupar os espaços. Muitas vezes o indígena é excluído de vários lugares. Então, em todo espaço onde parece impossível o indígena se mostrar, é importante ocupar”.
O que os dados sobre população indígena no ES nos revelam
Um estudo publicado pelo Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), divulgado em abril de 2025, ajuda a explicar por que o empreendedorismo indígena tem ganhado força no Espírito Santo. Especialmente em regiões como Aracruz, onde tradição, turismo e comércio digital começam a caminhar lado a lado.
Atualmente, o Espírito Santo possui uma população indígena de 14.410 pessoas, o equivalente a 0,4% da população do estado. O percentual é superior à média da Região Sudeste, que registra 0,1%, embora ainda fique abaixo da média nacional, de 0,8%.
A concentração populacional também revela um cenário estratégico para o fortalecimento de pequenos negócios indígenas. Mais da metade dos indígenas capixabas vive em Aracruz, município que reúne 7.425 pessoas, cerca de 51,5% de toda a população indígena do estado. Outros municípios também aparecem em destaque, como Serra, com 1.326 indígenas, e Vila Velha, com 866.
Ao contrário do imaginário popular que associa os povos originários apenas a áreas isoladas, os dados mostram uma realidade diferente: 60,5% da população indígena capixaba vive em áreas urbanas. Além disso, apenas 32,4% residem em terras oficialmente demarcadas. Na prática, isso significa que grande parte dessas comunidades está inserida em dinâmicas comerciais, turísticas e de serviços, ampliando as possibilidades de empreendedorismo e conexão com o mercado digital.
Protagonismo feminino indígena
Outro ponto que chama atenção é o protagonismo feminino. As mulheres representam 51,1% da população indígena no estado e, historicamente, desempenham papéis ligados à agricultura, ao artesanato, à coleta e à preservação cultural.
Assim como a história da Jôsy, em muitos empreendimentos indígenas, são elas as responsáveis por transformar tradição em fonte de renda, principalmente em iniciativas ligadas ao artesanato, moda étnica e etnoturismo.
Valores e sustentabilidade como diferencial
Em muitos desses negócios, a sustentabilidade aparece não apenas como estratégia comercial, mas como filosofia de vida. Para os povos indígenas, a relação com a natureza vai além da exploração econômica. A floresta, os rios e os recursos naturais são vistos como parte da própria família.
O uso consciente da madeira, das fibras, sementes e matérias-primas segue conhecimentos ancestrais, baseados na ideia de que a natureza precisa de tempo para se renovar. Essa visão tem se tornado, cada vez mais, um diferencial competitivo em um mercado que valoriza produtos com origem, propósito e impacto ambiental reduzido.
Uma nova rota pode melhorar ainda mais esse cenário
Apesar do potencial turístico em Aracruz, Jôsy acredita que muitas aldeias ainda permanecem invisíveis para quem visita Aracruz. “Muitas vezes o turista vai para o litoral de Aracruz e nem sabe que existem aldeias mais para dentro do município. A gente se sente esquecido”, relata.
Para mudar esse cenário, um novo roteiro turístico apoiado pelo Sebrae pretende conectar visitantes que passam por Ibiraçu, incluindo o circuito do Mosteiro Zen Morro da Vargem e do Grande Buda de Ibiraçu, às experiências culturais nas aldeias indígenas do interior de Aracruz antes da chegada ao litoral.
“Esse novo roteiro muda um pouco da rota tradicional. Ele sai de Vitória, passa por Ibiraçu e depois segue para oficinas com a Jôsy e o Fábio”, explica a analista Roberta.
Mais do que solução: existe futuro
Enquanto o artesanato indígena rompe fronteiras pelas redes sociais e plataformas digitais, comunidades do interior de Aracruz seguem tentando equilibrar tradição e modernidade.
Entre cestos, colares e oficinas culturais, a internet deixou de ser apenas ferramenta de comunicação e passou a ser uma ponte entre aldeias historicamente invisibilizadas e consumidores interessados em conhecer histórias, identidades e saberes ancestrais.