Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 10:00
Por Nicoly Reis Sales.>
O desejo de compartilhar leituras, trocar impressões e transformar o livro em ponto de encontro foi o que motivou a criação do Grupo Entrelinhas, um clube do livro capixaba que reúne cerca de 20 a 25 participantes em encontros presenciais voltados à discussão de obras literárias. A experiência local reflete uma tendência mais ampla: a retomada do hábito da leitura no Brasil, que também aparece nos números do mercado editorial. >
Formado majoritariamente por leitoras interessadas em romances — com espaço para outros gêneros, como suspense e fantasia —, o Entrelinhas surgiu da necessidade de criar um ambiente de convivência a partir dos livros. Para dar conta da organização, o grupo conta com uma gestão compartilhada, formada por cinco integrantes, responsável por definir datas, locais, leituras e avisos gerais. A proposta, segundo as participantes, não é hierarquizar decisões, mas garantir que o clube funcione de forma coletiva e organizada.>
Diferentemente de clubes pagos, o Entrelinhas não cobra mensalidade. O compromisso exigido das participantes está relacionado à presença e à participação ativa nos encontros. A ideia é que a leitura seja acompanhada de troca, diálogo e convivência, fortalecendo vínculos entre pessoas que compartilham interesses semelhantes.>
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Na avaliação da participante do Clube do Livro Entrelinhas Evellyn Souza, as redes sociais passaram a desempenhar um papel central no movimento de retomada da leitura nos últimos anos. Para ela, plataformas como Instagram e TikTok contribuíram para tornar o livro mais presente no cotidiano digital, aproximando leitores, estimulando trocas e facilitando o acesso a indicações literárias de forma menos formal e mais espontânea.>
Esse movimento, segundo as integrantes, se intensificou no período pós-pandemia, quando muitas pessoas passaram a buscar formas de retomar o convívio social e reconstruir vínculos interrompidos pelo isolamento. A leitura, que durante a pandemia foi para muitos uma atividade solitária, passou a ser ressignificada como experiência coletiva, abrindo espaço para encontros presenciais, conversas e trocas a partir dos livros.>
Grande parte das novas integrantes chegou ao clube por meio das redes sociais. Ao compartilhar leituras, encontros e impressões literárias no Instagram, as organizadoras passaram a receber mensagens de pessoas interessadas em participar. Segundo o grupo, esse movimento revelou algo curioso: muitas pessoas próximas, das quais elas não sabiam do interesse por livros, passaram a interagir e demonstrar vontade de integrar o clube.>
O TikTok também apareceu como aliado nesse processo. O chamado BookTok, espaço onde vídeos sobre livros se espalham pela plataforma, tem funcionado como porta de entrada para novos leitores. Diferentemente de buscas ativas por resenhas, o conteúdo literário chega mediado pelo algoritmo. Basta demonstrar interesse pela leitura para que recomendações, trechos e indicações passem a aparecer com frequência no feed.>
Para a integrante Júlia Fayon, esse formato não afasta a leitura, como muitas vezes se discute, mas pode atuar como estímulo. Vídeos curtos, frases marcantes e até fanarts ajudam a despertar o interesse por histórias e personagens, influenciando diretamente a escolha das próximas leituras e, em muitos casos, levando o leitor do conteúdo digital ao livro físico.>
Participar do clube modificou a relação das integrantes com os livros. O que antes era uma atividade solitária passou a ser uma experiência coletiva, marcada por debates, divergências e novas interpretações. “Antes eu só amava ou odiava um livro. Hoje eu penso nos comportamentos dos personagens, nas nuances da história”, relata a participante Maria Luiza Martins.>
As discussões também incentivam uma leitura mais atenta. Saber que a obra será debatida faz com que as participantes observem detalhes que poderiam passar despercebidos, como trechos específicos ou decisões narrativas da autora. Essa troca amplia o olhar sobre a obra e enriquece a experiência literária.>
Além do aspecto literário, o clube fortalece relações pessoais. A convivência frequente faz com que as participantes criem amizades, compartilhem vivências e estendam o contato para além dos encontros do clube. Nesse sentido, o Entrelinhas se consolida não apenas como um espaço de leitura, mas também de pertencimento.>
O Entrelinhas também tem sido um espaço de reencontro com a leitura para quem havia abandonado o hábito. Muitas participantes relatam que passaram anos sem concluir um livro e encontraram no clube o estímulo necessário para retomar a prática. A experiência coletiva, o compromisso com os encontros e a identificação com outras leitoras funcionam como incentivo.>
Esse movimento local acompanha os números do mercado editorial. Segundo o 13º Painel do Varejo de Livros no Brasil, divulgado pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) com dados da Nielsen BookScan, o setor encerrou 2025 com crescimento de 7,75% no volume de livros vendidos e faturamento de R$ 3,09 bilhões.>
Mesmo ao desconsiderar o impacto dos livros de colorir, apontados como fenômeno comercial recente, o mercado manteve crescimento, indicando uma expansão mais consistente. Para as integrantes do Entrelinhas, a preferência pelo livro físico segue forte, associada à experiência sensorial da leitura, ao distanciamento das telas e à relação afetiva com o objeto livro.>
Para quem deseja começar — ou recomeçar — a ler, o conselho do grupo é simples: não transformar a leitura em cobrança. “Não precisa começar por clássicos ou livros difíceis. Leia o que você gosta, no seu tempo. Leitura é prazer, não competição”, defende a participante Ana Carolina Dalvi.>
A dica é aproveitar pequenos intervalos do dia, como deslocamentos ou momentos de espera, e permitir-se abandonar um livro que não desperte interesse. Quando a leitura deixa de ser obrigação e passa a ser compartilhada, se torna mais leve e, consequentemente, mais fácil de manter.>
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