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Nostalgia

A volta das câmeras digitais: como a nostalgia reacende a paixão pela fotografia

Símbolo de autenticidade visual, a câmera digital está voltando à moda no ES como uma resposta criativa ao excesso de perfeição nas redes sociais
Felipe Khoury

Publicado em 20 de Junho de 2025 às 07:00

No meio de filtros retrô, estéticas Y2K e vídeos pixelados do TikTok, um acessório inusitado ressurgiu nas mãos da geração Z: as câmeras digitais compactas dos anos 2000. Modelos como a Sony Cybershot, que já foi item obrigatório nas festas de família e viagens escolares, estão de volta - agora como símbolo de autenticidade visual e uma resposta criativa ao excesso de perfeição nas redes sociais.
A estudante Carol Reis, de 23 anos, diz que a simplicidade de uma câmera digital, como a Cybershot, é o que mais chama sua atenção. “Para tirar fotos com uma Cybershot não é necessário fazer muitos ajustes na câmera, normalmente a gente acha a forma que mais gosta logo quando pega e depois só usa sempre o mesmo modo”, diz.
Por muitos anos eu usei uma câmera semiprofissional, mas acabava fotografando pouco no meu dia a dia por não conseguir levar a câmera para todos os lugares ou chamar muita atenção e atrapalhar as fotos. Agora eu ando com a Cybershot na bolsa (risos)
Amanda Bolonha tem uma coleção com mais de 150 câmeras
Amanda Bolonha tem uma coleção com mais de 150 câmeras Crédito: Fernando Madeira
Ainda segundo ela, o retorno desse hábito de fotografar “à moda antiga” é também uma pausa na correria do dia a dia. “É uma forma de desapegar um pouco dos smartphones, já que a gente usa eles para tudo. A fotografia com as câmeras digitais é mais do que uma alternativa, é um respiro”, reflete.
A tendência, que vem crescendo entre influenciadores, fotógrafos e entusiastas da cultura pop, é apenas o capítulo mais recente de uma longa e fascinante história da fotografia.

Colecionadora capixaba

A fotógrafa Amanda Bolonha é uma verdadeira amante de câmeras fotográficas. Da mais antiga à mais nova, a capixaba guarda uma coleção - digna de respeito - em casa. São cerca de 150 máquinas, entre analógicas, digitais e até temáticas - como uma câmera dentro de uma boneca Barbie.
Amanda Bolonha tem uma coleção com mais de 150 câmeras
Amanda Bolonha tem uma coleção com mais de 150 câmeras Crédito: Fernando Madeira
“Com 14 anos eu já tinha decidido que seria fotógrafa. Sabia que era isso que queria para minha vida, nunca pensei em outra coisa. Acho que a fotografia acompanhou todas as fases da minha idade. A primeira câmera da minha coleção é uma que foi dos meus pais. Inclusive fotografei muito eles com essa câmera. Isso se tornou uma memória afetiva”, conta Amanda.
Eu tenho a câmera tic tac, que é uma câmera de espionagem. Tem como usar ela como bolsa ou como se fosse a embalagem da bala. Também tenho uma outra curiosa, que é a câmera da Barbie. Essa foi fabricada em 1999, mas tenho várias outras câmeras com a temática da Barbie
Amanda Bolonha tem uma coleção com mais de 150 câmeras
Amanda Bolonha tem uma coleção com mais de 150 câmeras Crédito: Fernando Madeira

A geração Z quer menos perfeição

Mas por que essas câmeras ganharam status cool novamente? Tudo se resume a uma estética lo-fi, com cores saturadas, leve granulação e sensação de “foto esquecida em um álbum antigo”, que casa perfeitamente com a nostalgia dos anos 2000.
Amanda Bolonha tem uma coleção com mais de 150 câmeras
Amanda Bolonha tem uma coleção com mais de 150 câmeras Crédito: Fernando Madeira
Celebridades como Bella Hadid, Dua Lipa e até fotógrafos renomados como Petra Collins já apareceram usando compactas digitais em ensaios e registros pessoais. Leve, prática e fácil de usar, a Cybershot da Sony, lançada em 1996, se tornou um ícone dessa era, conhecida por sua lente Carl Zeiss, corpo elegante e qualidade acima da média para a época.
Além da estética, o uso das câmeras digitais se tornou também uma expressão cultural. Tirar fotos com uma Cybershot virou uma forma de marcar posição contra a hiperconectividade dos smartphones. Muitos jovens dizem que, ao usar a compacta, se sentem menos tentados a passar horas editando e postando - e mais presentes no momento.
“Acho que a gente não devia ligar tanto para a qualidade. Fotografias são retratos da realidade, né? E a realidade está retratada ali na foto. Essa falta de qualidade técnica inclusive permite que a gente preste atenção no conteúdo. Prestar atenção no que está na foto e não em como a foto foi feita”, disse a jovem Carol.
E esse mercado de segunda mão está em alta: sites como OLX, Enjoei e até antiquários online viram disparar a procura por modelos antigos da Canon, Nikon, Panasonic e, claro, Sony. Em uma rápida procura em junho de 2025, a Cybershot - em modelos de maior resolução - chegam a custar quase R$ 1 mil.

Da prata ao pixel

Tudo começou no século 19, com o daguerreótipo - um processo que utilizava placas de cobre revestidas com prata para fixar imagens por meio da luz. Em 1839, a invenção de Louis Daguerre revolucionou a maneira como o mundo era registrado. De lá para cá, a fotografia passou por saltos gigantescos: câmeras portáteis, filmes coloridos, câmeras instantâneas, até a chegada das DSLRs e, mais tarde, dos smartphones com lentes cada vez mais potentes.
Câmera fotográfica feita com lata de sardinha
Câmera fotográfica feita com lata de sardinha Crédito: Fernando Madeira
Apesar disso, há quem opte pela estética do passado. E quando digo “passado”, estou me referindo a uma estética praticamente primitiva. O fotógrafo de A Gazeta, Fernando Madeira, decidiu construir sua própria câmera analógica. Mas o melhor disso tudo é que ele decidiu fazer utilizando apenas uma lata de sardinha.
“Eu tive a ideia de fazer a minha própria câmera fotográfica. Nada mais é do que uma lata, com seu interior pintado de preto, para entender o processo da câmara escura. Depois eu fecho esse objeto e faço um furo na frente, que é por onde vai entrar a luz. O mesmo princípio lá trás”, conta Madeira, que inclusive fez um perfil na rede social dedicado a fotografia artesanal.
O fotógrafo Fernando Madeira é um amante de câmeras antigas
O fotógrafo Fernando Madeira é um amante de câmeras antigas Crédito: Fernando Madeira

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A fotografia como linguagem viva

O retorno das câmeras digitais compactas é mais do que moda. É uma afirmação: a fotografia continua viva, se reinventa com cada geração e reflete os desejos e angústias do seu tempo.
Em tempos de excesso de imagens e filtros irreais, o clique lo-fi com flash estourado surge como um gesto de rebeldia estética. Ou, como dizia Susan Sontag, uma forma de participar da realidade - mesmo que agora ela venha em 5 megapixels e cartão de memória de 512 MB.

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