No meio de filtros retrô, estéticas Y2K e vídeos pixelados do TikTok, um acessório inusitado ressurgiu nas mãos da geração Z: as câmeras digitais compactas dos anos 2000. Modelos como a Sony Cybershot, que já foi item obrigatório nas festas de família e viagens escolares, estão de volta - agora como símbolo de autenticidade visual e uma resposta criativa ao excesso de perfeição nas redes sociais.
A estudante Carol Reis, de 23 anos, diz que a simplicidade de uma câmera digital, como a Cybershot, é o que mais chama sua atenção. “Para tirar fotos com uma Cybershot não é necessário fazer muitos ajustes na câmera, normalmente a gente acha a forma que mais gosta logo quando pega e depois só usa sempre o mesmo modo”, diz.
Por muitos anos eu usei uma câmera semiprofissional, mas acabava fotografando pouco no meu dia a dia por não conseguir levar a câmera para todos os lugares ou chamar muita atenção e atrapalhar as fotos. Agora eu ando com a Cybershot na bolsa (risos)
Ainda segundo ela, o retorno desse hábito de fotografar “à moda antiga” é também uma pausa na correria do dia a dia. “É uma forma de desapegar um pouco dos smartphones, já que a gente usa eles para tudo. A fotografia com as câmeras digitais é mais do que uma alternativa, é um respiro”, reflete.
A tendência, que vem crescendo entre influenciadores, fotógrafos e entusiastas da cultura pop, é apenas o capítulo mais recente de uma longa e fascinante história da fotografia.
Colecionadora capixaba
A fotógrafa Amanda Bolonha é uma verdadeira amante de câmeras fotográficas. Da mais antiga à mais nova, a capixaba guarda uma coleção - digna de respeito - em casa. São cerca de 150 máquinas, entre analógicas, digitais e até temáticas - como uma câmera dentro de uma boneca Barbie.
“Com 14 anos eu já tinha decidido que seria fotógrafa. Sabia que era isso que queria para minha vida, nunca pensei em outra coisa. Acho que a fotografia acompanhou todas as fases da minha idade. A primeira câmera da minha coleção é uma que foi dos meus pais. Inclusive fotografei muito eles com essa câmera. Isso se tornou uma memória afetiva”, conta Amanda.
Eu tenho a câmera tic tac, que é uma câmera de espionagem. Tem como usar ela como bolsa ou como se fosse a embalagem da bala. Também tenho uma outra curiosa, que é a câmera da Barbie. Essa foi fabricada em 1999, mas tenho várias outras câmeras com a temática da Barbie
A geração Z quer menos perfeição
Mas por que essas câmeras ganharam status cool novamente? Tudo se resume a uma estética lo-fi, com cores saturadas, leve granulação e sensação de “foto esquecida em um álbum antigo”, que casa perfeitamente com a nostalgia dos anos 2000.
Celebridades como Bella Hadid, Dua Lipa e até fotógrafos renomados como Petra Collins já apareceram usando compactas digitais em ensaios e registros pessoais. Leve, prática e fácil de usar, a Cybershot da Sony, lançada em 1996, se tornou um ícone dessa era, conhecida por sua lente Carl Zeiss, corpo elegante e qualidade acima da média para a época.
Além da estética, o uso das câmeras digitais se tornou também uma expressão cultural. Tirar fotos com uma Cybershot virou uma forma de marcar posição contra a hiperconectividade dos smartphones. Muitos jovens dizem que, ao usar a compacta, se sentem menos tentados a passar horas editando e postando - e mais presentes no momento.
“Acho que a gente não devia ligar tanto para a qualidade. Fotografias são retratos da realidade, né? E a realidade está retratada ali na foto. Essa falta de qualidade técnica inclusive permite que a gente preste atenção no conteúdo. Prestar atenção no que está na foto e não em como a foto foi feita”, disse a jovem Carol.
E esse mercado de segunda mão está em alta: sites como OLX, Enjoei e até antiquários online viram disparar a procura por modelos antigos da Canon, Nikon, Panasonic e, claro, Sony. Em uma rápida procura em junho de 2025, a Cybershot - em modelos de maior resolução - chegam a custar quase R$ 1 mil.
Da prata ao pixel
Tudo começou no século 19, com o daguerreótipo - um processo que utilizava placas de cobre revestidas com prata para fixar imagens por meio da luz. Em 1839, a invenção de Louis Daguerre revolucionou a maneira como o mundo era registrado. De lá para cá, a fotografia passou por saltos gigantescos: câmeras portáteis, filmes coloridos, câmeras instantâneas, até a chegada das DSLRs e, mais tarde, dos smartphones com lentes cada vez mais potentes.
Apesar disso, há quem opte pela estética do passado. E quando digo “passado”, estou me referindo a uma estética praticamente primitiva. O fotógrafo de A Gazeta, Fernando Madeira, decidiu construir sua própria câmera analógica. Mas o melhor disso tudo é que ele decidiu fazer utilizando apenas uma lata de sardinha.
“Eu tive a ideia de fazer a minha própria câmera fotográfica. Nada mais é do que uma lata, com seu interior pintado de preto, para entender o processo da câmara escura. Depois eu fecho esse objeto e faço um furo na frente, que é por onde vai entrar a luz. O mesmo princípio lá trás”, conta Madeira, que inclusive fez um perfil na rede social dedicado a fotografia artesanal.
Veja mais fotos
Fotos feitas com a lata de sardinha de Fernando Madeira
A fotografia como linguagem viva
O retorno das câmeras digitais compactas é mais do que moda. É uma afirmação: a fotografia continua viva, se reinventa com cada geração e reflete os desejos e angústias do seu tempo.
Em tempos de excesso de imagens e filtros irreais, o clique lo-fi com flash estourado surge como um gesto de rebeldia estética. Ou, como dizia Susan Sontag, uma forma de participar da realidade - mesmo que agora ela venha em 5 megapixels e cartão de memória de 512 MB.