Alarmantes. Sensacionalistas. Irresponsáveis. Assim são as notícias falsas. A proliferação das mentiras na Internet tem desafiado as autoridades, mas não surpreende aos historiadores. Na prática, parte de nosso Passado sustenta-se em fake news.
É falsa a narrativa do descobrimento do Brasil. Para manter a exclusividade de exploração, Portugal sustentou por séculos a versão de chegada acidental de seus navegadores ao Brasil. O protagonismo de Pedro Álvares Cabral, tanto ensinado, oculta a expedição secreta de 1498, conduzida por Duarte Pacheco em terras brasileiras. Nossa história iniciou com uma farsa.
Fomos assim por meio milênio. Em 1937, o general Góes Monteiro foi à rede nacional de rádio divulgar a descoberta de um plano orquestrado pelo PCB para instaurar o comunismo no Brasil. A invasão previa a agitação de operários, a liberdade de presos políticos, o incêndio de casas e prédios públicos, saques e depredações. Fake news. No dia seguinte ao anúncio, Vargas solicitou a decretação de Estado de Guerra. Iniciou sua ditadura.
A mentira sempre foi uma arma eleitoral. Na disputa presidencial de 1945, os apoiadores de Eurico Dutra divulgaram que seu opositor, o brigadeiro Eduardo Gomes, havia dito que “não precisava do voto dos marmiteiros” para se eleger. A frase nunca foi dita. Já Dutra aproveitou-se dela para firmar-se como liderança popular e vencer o pleito.
Em 1981, outra fake news, mas com efeito contrário. O sargento Guilherme do Rosário e o capitão Wilson Machado orquestraram um ataque ao Centro de Convenções do Riocentro nos festejos pelo Dia do Trabalhador. A intenção era atribuir a culpa à esquerda para frear a abertura política. O atentado seria a justificativa. Uma das bombas, porém, explodiu no colo do sargento Guilherme, revelou a conspiração e acelerou a redemocratização.
Sem quaisquer novidades, as campanhas de Haddad e Bolsonaro recorrem às repercussões de mentiras para desbancar o adversário. Tem-se, hoje, mais uma página das fake news na história do país. Ganhará quem mais mentir? A verdade terá vez? Seja como for, nosso passado é uma verdadeira colcha de retalhos de falsidades, meias verdades e mentiras.