Parem as máquinas: houve debate de verdade na Assembleia Legislativa! Durante a prestação de contas do governador Paulo Hartung (PMDB) aos deputados estaduais, na manhã de ontem, houve momentos de debate autêntico, franco e em bom nível, colocando frente a frente a situação, representada na pessoa do próprio governador, e a oposição, personificada por Sergio Majeski (PSDB), Euclério Sampaio (PDT), Josias da Vitória (PDT) e Freitas (PSB). E o fato de ter havido confronto real de ideias e posições já é, por si mesmo, um destaque.
Mas como? – alguns podem perguntar. Destacar que uma sessão na Assembleia tenha sido palco de debate? O Parlamento não existe precisamente para isso? De fato, leitores, soa como um paradoxo. O debate deveria mesmo ser rotina na Casa de Leis. Mas a prática ali é outra. Ao longo dos últimos 15 anos, a disputa no campo retórico escasseou. Debates de verdade por ali são tão raros que quando enfim acontecem, mesmo que por lampejos, isso acaba sendo digno de nota.
Ultimamente, entre os próprios deputados, os membros da oposição “falam sozinhos”. Criticam, denunciam, e os representantes do governo, deliberadamente, ignoram e não replicam nada.
Já em muitas das prestações de contas desde que Hartung chegou ao poder, as sessões tornaram-se muito mais um “beija-mão” do que uma sabatina. Salvo por um rompante ou outro de Euclério, tudo se resumia a rasgação de seda da base a Hartung e exposição dos feitos do governo. No ano passado, houve um anticlímax. Já havia um bloquinho de oposição consolidado em plenário. Mas Hartung mandou o vice-governador, César Colnago (PSDB), em seu lugar. Além do momento de saúde delicado, o governador estava fragilizado politicamente.
Mas agora o pior ficou para trás, a economia deu sinais de melhora, entramos no ano eleitoral, Hartung enfim fala em investimentos e, com fôlego de quem se prepara para o processo eleitoral, compareceu ontem, de peito aberto, na Assembleia, pronto para enfrentar opositores no duelo de argumentos.
Bom para ele, que aquece as turbinas para as eleições; bom também para a oposição, que assim teve a rara oportunidade de dirigir ao próprio governador os questionamentos que costumam ficar sem resposta em plenário. E de debater com ele, ao vivo, já que houve réplicas e tréplicas. Houve, é claro, o oba-oba de sempre, com vários deputados da base fazendo perguntas a dedo, bem cretinas, como que ditadas por agentes do palácio Anchieta. Mas, nos embates com Majeski, Freitas, Da Vitória e Euclério, Hartung foi exigido como há muito não era. E saiu-se bem dos confrontos, sem avarias.
Treinado por 40 anos de experiência em debates – oito deles, inclusive, na própria Assembleia –, o governador esteve sempre seguro. E em geral foi respeitoso com os oposicionistas – só saiu do tom e pegou pesado ao dizer, sarcasticamente, que Freitas precisa de óculos e está cego pela paixão política.
Outra ponderação que cabe é que, mais de uma vez, para derrubar os argumentos dos oposicionistas, Hartung afirmou que eles representam “facções políticas” e que não estão fazendo nada além de “luta política”. Ora, essa afirmação não vale para todos? Hartung de fato transita acima das agremiações, desimpedido e desembaraçado, alheio a amarras partidárias. Mas é, notoriamente, o centro de um “grupo político”: o seu próprio grupo político, suprapartidário.
Quanto à “luta política”, é o que todos ali estão fazendo o tempo todo. Cada um defende o seu (e os seus) e luta com as armas que possui. No caso, as armas são os argumentos. E o ápice desse luta se dá no período eleitoral. Por isso, tanto para Hartung como para a oposição, a sessão de ontem serviu como um ótimo ensaio.
Hartung x Freitas
O duelo de Hartung com Freitas – quem diria! – foi o momento mais quente da sessão de prestação de contas do governador. O partidário de Casagrande questionou Hartung sobre a descontinuidade do programa Estado Presente, tachado pelo governador de "puro marketing", por sinal declaração controversa, haja vista o declínio do índice de homicídios do Espírito Santo ao longo do governo passado.
Hartung x Da Vitória
Já Da Vitória, muito cordial, bateu na tecla de que falta diálogo por parte do atual governo, acusação que, de acordo com Hartung, não se sustenta de pé.
Hartung x Euclério
Sem citar nomes dessa vez na presença de alguns de seus alvos, Euclério cobrou de Hartung a exoneração de secretários que já têm contra si inquéritos em curso na Justiça. Em resposta cheia de insinuações (e indiretas para o próprio Euclério), Hartung advertiu que esse tipo de expediente pode se voltar com quem hoje faz as denúncias e que essas podem ter motivações eleitoreiras. Antes de demitir quem quer que seja, disse Hartung, é preciso deixar que as investigações cheguem a algum lugar, até para evitar injustiças.
Hartung x Majeski
Sergio Majeski também cobrou Hartung pelo prestígio dado a secretários de Estado contra os quais pairam denúncias. E condenou o fechamento de dezenas de turmas e de escolas inteiras na zona rural pelo interior do Estado - prática adotada pela Secretaria de Estado de Educação desde o início do atual governo e que tem sido alvo de protestos de pais, alunos e professores.
“Se nós tivéssemos dois alunos numa escola, mas que vai haver um prejuízo para esses alunos pegarem uma condução para irem a outra escola, essas escolas deveriam ser mantidas abertas. Nós chegamos a um ponto em que não podemos perder mais ninguém. E o Espírito Santo é o segundo Estado em maior número de assassinatos de crianças de 12 a 19 anos.”
Hartung x Majeski 2
Hartung respondeu: “Questão de fechar escolas: isso não é tabu, isso não pode ser tabu. Só é tabu para quem nunca administrou nada. Os prefeitos que estão aqui, ex-prefeitos, os governadores que já passaram no governo sabem que isso não é tabu. Se eu fecho uma escola pra colocar esse aluno numa verdadeira escola e não numa escola de araque, eu não estou dando um passo atrás na Educação. Estou dando dez à frente! (…) Quem quer escolinha que finge que educa é quem está vestindo camisa de corporação. O Brasil não aguenta mais corporação. As corporações quebraram este país!”
Lua de mel
Durante o anúncio do projeto de ecobalsas ligando Vitória a Vila Velha, ontem, na Prefeitura de Vitória, Luiz Paulo ficou o tempo todo próximo a Luciano Rezende (PPS), e ambos eram só sorrisos um para o outro. Clima de lua de mel entre os dois, após o anúncio da filiação de Luiz Paulo ao partido de Luciano.
Carneiro no PRB
O ex-ministro da Indústria e Comércio Exterior Marcos Pereira, presidente nacional do PRB, passou o dia ontem em Vitória. No fim da tarde, reuniu-se com o governador Paulo Hartung, o secretário estadual de Esportes, Roberto Carneiro (de saída do PDT), e o chefe da Casa Civil de PH, José Carlos da Fonseca Junior (PSD), na Residência Oficial da Praia da Costa. Carneiro confirmou a sua filiação ao PRB, partido vinculado à Igreja Universal do Reino de Deus.
Convite a Amaro
Mais cedo, na Assembleia, o gabinete de Amaro Neto (SDD) foi o cenário de reunião com Pereira, Carneiro, Fonseca Junior e o presidente da Casa, Erick Musso (PMDB), além do próprio Amaro Neto. Pereira escancarou as portas do PRB para que Amaro se filie ao partido, podendo ser candidato a senador.
Chateado, mas fica
Até por trabalhar na emissora ligada à mesma denominação religiosa, Amaro já fora convidado pelo PRB em 2012, 2014 e 2017. Anda um pouco chateado com o presidente estadual do SDD, Carlos Manato, que na terça anunciou a filiação de Capitão Assumção sem o consultar primeiro. Por enquanto, porém, Amaro está decidido a permanecer no SDD. Ele agradeceu a Pereira pelo convite, mas reafirmou gratidão e parceria com Manato. Outros aliados têm buscado convencer o deputado a mudar de sigla.
Cena Política
A deputada Eliana Dadalto (PTC) abusou um pouco do direito de querer agradar ao governador Paulo Hartung. Ela começava a sua intervenção, mas Hartung, após três horas de pé na tribuna (ficaria mais duas sentado à Mesa), disse que estava no seu limite e pediu uma pausa. Não ficou claro se queria ir ao banheiro ou apenas descansar um pouco. O presidente da Mesa, Erick Musso, determinou intervalo de cinco minutos. Hartung voltou em menos de três... pelo que foi saudado por Eliana: “Sempre pontual!”