De olho nos votos do eleitor mais moderado, Fernando Haddad (PT) tem feito um movimento parecido com o que fez Lula em 2002, política e economicamente, em direção ao centro. Com postura e semblante sempre serenos – mesmo quando sob bombardeio em entrevistas –, o ex-prefeito de São Paulo se apresenta, desde que assumiu oficialmente o posto de candidato do PT à Presidência, como um homem de atitude conciliadora, cujas ações são guiadas pela temperança e pela moderação.
Por meio do mesmo movimento, o “mais tucano dos petistas”, como o próprio Lula o concebe, acena para o mercado financeiro a fim de acalmar os tremores provocados em face da perspectiva de retorno do PT ao poder. Não obstante a tutela explícita do grande líder do PT sobre o candidato e da influência que Lula, il consigliere, exercerá sobre eventual governo Haddad, este tem procurado distanciar-se daquela imagem de PT mais radical.
É uma curva desenhada na campanha, como estratégia eleitoral, que aponta em sentido contrário ao movimento que seu próprio partido vem fazendo desde o início do “Fora, Dilma”: Haddad agora fala em conciliação, mas o próprio PT deu sua grande parcela de contribuição para o clima de radicalização e intolerância política que tomou conta do país. Desde o impeachment de Dilma, o PT e o próprio Lula vinham abandonando o “Lulinha paz e amor” construído por Duda Mendonça em 2002 e voltando às suas origens, àquele PT mais radical anterior à chegada do partido ao poder.
Agora, pragmaticamente, o objetivo voltou a ser o mesmo: subir a rampa do Palácio do Planalto. Por isso, através da figura de Haddad (a fachada da chapa), o PT reedita a estratégia de “desradicalização”. E assim, na propaganda eleitoral, ouvimos Haddad dizer frases como: “Também vamos garantir a paz, o diálogo e a democracia, como fizemos em nossos governos”.
A estratégia esbarra em um problemão, porém: após tantos anos com o PT alimentando a polarização política e pregando o discurso do “nós contra eles” (assim venceu a eleição de 2014, sem falar no oceano de caixa dois irrigando a campanha dirigida por João Santana), soa no mínimo cínico o candidato do partido querer agora vir pregar “conciliação” e representar “moderação”. Essa é a primeira contradição.
A segunda está no próprio texto da propaganda de Haddad: ao mesmo tempo em que se apresenta como um grande conciliador, o candidato joga mais lenha na fogueira e tripudia da estabilidade institucional do país insistindo na estratégia de confrontação e constrangimento do Poder Judiciário. “Então eles se juntaram e traíram a vontade do povo, deram um golpe na democracia. Condenaram, injustamente, o maior presidente da nossa história. E condenaram o povo a pagar a conta da crise que eles criaram”, diz Haddad na TV. “Eles” quem, candidato? Quer dizer então que o PT teve zero responsabilidade pela crise iniciada no governo Dilma? De novo, explicitado, o discurso do “nós contra eles”.
Antes de assumir oficialmente o posto, Haddad se deixou fotografar segurando uma máscara de Lula junto à face. Em um de seus primeiros programas no horário eleitoral, chegou a ser exibido em um comício imitando (bem) a voz do ex-presidente. Mas, como já formulou o colunista Elio Gaspari, o mais provável é que Lula governe com a máscara de Haddad, em caso de vitória do candidato petista.
Este, por sua vez, prefere mascarar a realidade e seguir oferecendo aos eleitores um mundo fantasioso: o fantástico mundo de Lula. “Criamos oportunidades para que mais de 36 milhões pessoas saíssem da miséria” (é verdade, mas para onde voltaram esses brasileiros, em decorrência de uma crise iniciada no governo Dilma?). “Vinte milhões de empregos foram gerados” (certo, mas onde é que foram parar?). “Foi um tempo de oportunidade e esperança para todos (...) Você se lembra: foram 12 anos de prosperidade. (...) Já provamos que é possível. E vamos fazer o Brasil feliz de novo.”
É uma narrativa delirante em alguns pontos, baseada na perseguição política e na vitimização do grande líder. E que anuncia o regresso a um passado mítico, encarnado pelo mito maior construído em torno de Lula.
Duelo de cinismo
O candidato do PT dizer agora que garantirá “a paz e o diálogo” é tão cínico quanto Bolsonaro, a outra face da mesma moeda, ter dito em debates que quer ser “um presidente que não divida homos e héteros, pais e filhos, nordestinos e sulistas, brancos e negros, ricos e pobres”...
Logo ele...
Logo ele que também tanto contribuiu para a escalada do radicalismo e da intolerância política mútua entre esses dois extremos que agora se digladiam na ágora brasileira. Ele que só fez jogar gasolina no incêndio e potencializar a divisão entre esses grupos sociais ao longo dos últimos anos, com um volumoso acervo de declarações discriminatórias e que atentam contra a dignidade de mulheres e minorias. Ele que, na verdade, só chegou aonde chegou alimentando justamente essa divisão...
“Desapareçam!”
O mesmo que agora diz querer “unir os brasileiros” gritava até outro dia, do alto de trios elétricos, pouco antes do início da campanha: “As minorias se adéquam ou simplesmente desapareçam!” Agora fala em união. É um fanfarrão.
Raquel sortuda à beça
As fontes de receita da campanha à reeleição da deputada estadual Raquel Lessa (PROS) são as mais curiosas possíveis. O total de recursos declarados chega a R$ 196 mil. Como já foi noticiado, mais da metade – R$ 100 mil – veio de uma doação direta e fortuita da direção nacional do PT, coligado nacionalmente com o PROS. Ou seja, sem fazer a menor ideia, Raquel se filiou ao “partido certo” em abril. A candidata ainda recebeu R$ 50 mil do PP (25,5% do total), partido coligado ao PROS na eleição a deputado estadual.
E não é só isso
Na conta de Raquel, também bateram R$ 9,9 mil doados pelo deputado federal Marcus Vicente, presidente estadual do PP; R$ 2,3 mil do deputado estadual Josias da Vitória (do PPS, que não está com o PROS); e inexplicáveis R$ 15 mil do PTC, que também nada tem a ver com o PROS. Raquel ainda doou R$ 11,9 mil para si mesma e ganhou quase R$ 6 mil de três assessores de gabinete dela.
CENA POLÍTICA
Candidato à reeleição, o deputado estadual Luiz Durão (PDT), afortunado fazendeiro de Linhares, é o financiador da própria campanha. O deputado declarou mais de R$ 2,5 milhões em bens à Justiça Eleitoral e doou R$ 121 mil para si mesmo. E isso é tudo que consta na rubrica “receitas” em sua prestação de contas ao TSE. Resumindo: de duro Durão só tem o nome.