Há algo incontestavelmente equivocado na gestão urbana quando prédios abandonados passam a dominar a paisagem. Construções que, sem manutenção devida e destinação humanizada, transformam-se em ruínas, obsoletas quase que exclusivamente em razão da omissão do poder público, incapaz de gerir seus imóveis ou cobrar responsabilidades de proprietários.
A situação do Centro de Vitória, em que mais de 100 famílias ocupam oito edifícios, não é muito distinta da realidade de outros centros urbanos do país. Basta lembrar a tragédia recente em São Paulo, com o desabamento de um prédio consumido por um incêndio. O edifício Wilton Paes de Almeida era ocupado por sem-teto. Uma triste lição que não parece ter sido aprendida: não é admissível que uma catástrofe precise acontecer para que providências sejam tomadas.
Há quase 30 anos a revitalização do Centro é pauta recorrente da administração pública e um anseio da sociedade. Pouco foi feito. É certo que já houve avanços pontuais, o próprio sucesso do carnaval nos últimos anos mostra que a região ainda é capaz de atrair as pessoas. Mas há muito mais a ser feito, num nível de mobilização social ainda mais profundo. Não é só reformar fachadas de construções, é fazer um acompanhamento contínuo das estruturas, tornando possível uma vivência com acesso aos serviços básicos, principalmente a segurança.
As ocupações são conjunturais: reflexo de um déficit habitacional que precisa ser discutido com seriedade, em busca de soluções equilibradas. Ao mesmo tempo, ferem o direito de propriedade. O tema é sensível demais para demagogia ou radicalismos. Mas é certo que qualquer melhoria na qualidade de vida no Centro de Vitória passa, antes de tudo, por mais compromisso e zelo com esses prédios. Abandono sempre atrai mais abandono. Chega de negligência.