No dia 4 de fevereiro de 2017, iniciava no Espírito Santo aquele que seria o maior extermínio com derramamento de sangue de jovens negros, pobres e moradores da periferia que se tem noticia na historia recente do Estado. Era o início da greve da Polícia Militar. O Estado era governado pelo economista Paulo Hartung. Ausente por motivos de saúde, os capixabas ficaram reféns da bandidagem que tomou de assalto as ruas, comércios e casas. O Estado, nos seguidos 22 dias de fevereiro, iria virar uma terra sem lei.
O Estado do Espírito Santo viveu, como na ficção, uma suspensão temporária das leis em que tudo parecia estar permitido. Jornais de diversos países noticiaram o caos e a violência que tomava conta das ruas do nosso Estado. "Caos sem lei no Brasil com lojas saqueadas, ônibus queimados e cadáveres espalhados pela rua após policiais entrarem em greve por causa de baixos salários". E mais ainda: "Ruas da morte enquanto a anarquia e o caos governam".
Hoje, no dia 4 de fevereiro de 2020, há exatos três anos, os movimentos sociais se reúnem, a partir das 17h, na Praça Costa Pereira, no Centro de Vitória, para fazer memória e cobrar justiça pelas mortes das 200 pessoas que ocorreram durante a greve. Eles alegam que nada foi feito para reparar os danos causados aos familiares das pessoas que foram assassinadas. Muitos julgamentos foram arquivados sem resposta e solução para os crimes.
O convite feito pelas entidades se estende a todos que viveram e sentiram de perto a morte estampada nas telas da TVs e nos grupos de WhatsApp. “Foram 22 dias de aprofundamento do processo de extermínio da juventude negra e periférica, que novamente foram os alvos preferenciais dos disparos de arma de fogo”, denunciam os organizadores num convite na página do Círculo Palmarino. Outras entidades, como o Fórum Capixaba de Lutas Sociais, Fórum Igrejas e Sociedade em Ação e Movimento Nacional de Direitos Humanos, estão na organização do evento.
Passados três anos, alguns dos organizadores foram aclamados e eleitos como representantes do povo, outros anistiados e poucos foram culpados. Os que tiveram suas lojas saqueadas tiveram prejuízos e saíram perdendo. Para a sociedade capixaba esta foi a maior mancha de violência e extermínio que assolou o Espírito Santo. A falta de leis e comando revelaram o quanto pode chegar um Estado sem liderança com capacidade de governar e guiar seu povo em momentos de tensão e dificuldades.