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Greve da PM

Há 3 anos, 200 mortes em 22 dias numa terra sem lei e sem governo no ES

O Estado do Espírito Santo viveu, como na ficção, uma suspensão temporária das leis em que tudo parecia estar permitido. Os capixabas ficaram reféns da bandidagem que tomou de assalto as ruas, comércios e casas

Publicado em 04 de Fevereiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

04 fev 2020 às 04:00
Paulo Brandão

Colunista

Paulo Brandão Paulo Brandão
Manifestantes protestam em frente a quartel da PolÌcia Militar na Avenida Maruípe na Greve da PM Crédito: Guilherme Ferrari/Arquivo
No dia 4 de fevereiro de 2017, iniciava no Espírito Santo aquele que seria o maior extermínio com derramamento de sangue de jovens negros, pobres e moradores da periferia que se tem noticia na historia recente do Estado. Era o início da greve da Polícia Militar. O Estado era governado pelo economista Paulo Hartung. Ausente por motivos de saúde, os capixabas ficaram reféns da bandidagem que tomou de assalto as ruas, comércios e casas. O Estado, nos seguidos 22 dias de fevereiro, iria virar uma terra sem lei.
O Estado do Espírito Santo viveu, como na ficção, uma suspensão temporária das leis em que tudo parecia estar permitido. Jornais de diversos países noticiaram o caos e a violência que tomava conta das ruas do nosso Estado. "Caos sem lei no Brasil com lojas saqueadas, ônibus queimados e cadáveres espalhados pela rua após policiais entrarem em greve por causa de baixos salários". E mais ainda: "Ruas da morte enquanto a anarquia e o caos governam".
Hoje, no dia 4 de fevereiro de 2020, há exatos três anos, os movimentos sociais se reúnem, a partir das 17h, na Praça Costa Pereira, no Centro de Vitória, para fazer memória e cobrar justiça pelas mortes das 200 pessoas que ocorreram durante a greve. Eles alegam que nada foi feito para reparar os danos causados aos familiares das pessoas que foram assassinadas. Muitos julgamentos foram arquivados sem resposta e solução para os crimes.
Para marcar a data e tornar presente na memória de todos os capixabas, as entidades que estão organizando o evento vão decretar luto popular por meio de uma celebração interreligiosa. O dia contará com apresentações artísticas, com a presença de entidades de luta pelos direitos humanos. Elas cobram do governo medidas para reparar os danos causados aos parentes das vítimas do fevereiro sangrento de 2017.
O convite feito pelas entidades se estende a todos que viveram e sentiram de perto a morte estampada nas telas da TVs e nos grupos de WhatsApp. “Foram 22 dias de aprofundamento do processo de extermínio da juventude negra e periférica, que novamente foram os alvos preferenciais dos disparos de arma de fogo”, denunciam os organizadores num convite na página do Círculo Palmarino. Outras entidades, como o Fórum Capixaba de Lutas Sociais, Fórum Igrejas e Sociedade em Ação e Movimento Nacional de Direitos Humanos, estão na organização do evento.
Passados três anos, alguns dos organizadores foram aclamados e eleitos como representantes do povo, outros anistiados e poucos foram culpados. Os que tiveram suas lojas saqueadas tiveram prejuízos e saíram perdendo. Para a sociedade capixaba esta foi a maior mancha de violência e extermínio que assolou o Espírito Santo. A falta de leis e comando revelaram o quanto pode chegar um Estado sem liderança com capacidade de governar e guiar seu povo em momentos de tensão e dificuldades.

Paulo Brandão

Paulo Brandão Paulo Brandão

É bacharel em Filosofia. Com um olhar sempre atento para as ruas, reflete sobre as perspectivas de cidadania diante dos problemas mais visíveis da Grande Vitória

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