O drama das grávidas com dependência química não pode ser encarado com preconceito pela sociedade, sob risco de nunca se encontrar uma solução adequada para o problema, que continuará se alastrando. Seriedade e humanidade devem estar aliadas, para a compreensão de que a vulnerabilidade social dessas mulheres, em determinado momento de suas vidas, contribuiu para que elas cedessem ao poder devastador do crack.
O vício deve ser tratado como uma questão de saúde pública e não pode ser dissociado das mazelas pessoais e sociais. Reportagem de capa deste jornal, no último domingo, narrou o sofrimento de mulheres em situação de rua que, por impotência, engravidaram e hoje não possuem nem mesmo autonomia psicológica para lidar com a maternidade. Não se trata de responsabilizar as mães por suas atitudes e simplesmente deixá-las de lado. Se assim for, as crianças já virão ao mundo num ambiente desolador, sem acesso à dignidade. Será alimentado, assim, um ciclo de miséria e violência difícil de ser interrompido.
É tarefa árdua lidar com um problema conectado à dependência, que estabelece outras prioridades ao usuário. Mas é sempre bom lembrar que o crack coloca as vidas da mãe e do bebê em risco. A adesão ao pré-natal depende da vontade da gestante, assim como a guarda da criança após o nascimento, sob a condição de que busque tratamento. A assistência social, portanto, deve ser ativa e se mostrar presente, construindo uma relação de confiança com as mães para, assim, assegurar o atendimento. O consentimento dependerá, e muito, de uma abordagem apropriada. Um atendimento humanizado pode ser a garantia de um tratamento bem-sucedido.
É preocupante. Um abrangente levantamento de 2013 da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mapeou o consumo da droga no país, apontando que o número de usuários chegava a 370 mil, sendo 80% deles do sexo masculino. No universo feminino, pelo menos 10% das usuárias estavam grávidas. Cinco anos e uma crise econômica depois, os números ainda podem servir de parâmetro para a gravidade da situação.