A música, esta senhora que mistura bons e maus modos em suas melodias, tem feito estrago por estas bandas capixabas. Bem-vindo o barulho desse estrago quando as artes padecem de espaço, mecenas (que ressuscitem os Médicis de Florença!) e olhares menos enviesados sobre os artistas, sobretudo de gente que considera arte coisa de vagabundo sem profissão.
Já houve articulista que desfiou seu rosário de pragas sobre nós, ó coitado! Um pouco menos de ego doentio e mais sabedoria e sensibilidade o faria mudar de ideia. Ou não. Deixemos as contendas com inutilidades pra escanteio e voltemos os ouvidos pros “estragos” musicais das últimas semanas.
Este é apenas um recorte da cena dos sons da terra onde estive em palco e plateia nesses dias
A Grande Vitória sobrevive às mazelas (enchentes, violência e que tais) com unguentos trazidos pelos magos da cena musical. Dois festivais de jazz e blues, noites de rock’n’roll, nossa Orquestra Sinfônica, portentosa nos concertos clássicos, também é capaz de dividir o palco com bandas de ticumbi e desfiar o repertório bendito de Sérgio Sampaio.
Apresentações operísticas soltam seus dós de peito do altar das igrejas aos teatros da capital enquanto sambistas jovens e veteranos ocupam todas as semanas praças das cidades. Há uma profusão de desejos musicais no ar que convivem na harmonia merecida por artistas que lutam por violões, pandeiros e pianos ao sol, sob o luar, debaixo de bênçãos chuvosas.
A música sempre nos alimentou aqui e ali, mas algo indica nesses dias o seu despertar de uma só vez em todas as vertentes. Uma sonzera de batuques, melodias e harmonias entrelaçadas como se houvesse um recado entre os lapsos das frases musicais. “Estamos vivos, temos corpo pra todos os ritmos a que formos convocados pelo salão de danças”.
Este é apenas um recorte da cena dos sons da terra onde estive em palco e plateia nesses dias. Há muitos outros. A galera enérgica do hip hop, o movimento do reggae e das casas de shows, do instrumental ao pop, todos estão cumprindo firmemente suas agendas.
A temporada dos sons, a despeito dos ouvidos moucos dos surdos à arte, vence a batalha. Até porque a música não briga, ela separa pra juntar depois.
*O autor é jornalista e cronista