As redes sociais permitiram um contato direto de lideranças políticas com o público, e é louvável que a tecnologia tenha aproximado tanto esses interlocutores, permitindo trocas imediatas. Barack Obama foi um dos precursores mais notáveis: não só venceu a sua primeira eleição, há dez anos, nos Estados Unidos, com o uso inventivo da internet, como criou a marca do estadista com presença digital. Até aí, tudo certo.
Os riscos para a liberdade de imprensa começam quando esse tipo de comunicação direta passa a monopolizar a agenda, de forma que jornalistas deixem de marcar presença no processo de mediação entre as autoridades e a sociedade. Se Donald Trump é atualmente o maior exemplo dessa arbitrariedade, o próprio Obama também cometeu seus pecados.
Críticos como a jornalista Susan Milligan apontavam um uso exagerado de anúncios de programas de governo por mídias sociais. Os pronunciamentos diretos com o público nas páginas do Facebook dominaram a comunicação, com os jornalistas responsáveis pela cobertura da Casa Branca deixados de lado, impossibilitados de levantarem questionamentos de interesse público diretamente com o presidente.
Em uma democracia que se pretenda vigorosa, a imprensa não pode ser ignorada. Nesse sentido, os avanços tecnológicos se tornaram um obstáculo ao debate e à exposição ao contraditório, quando poderiam ser um complemento saudável no processo comunicativo. No Brasil, e também aqui no Espírito Santo, já é comum autoridades usarem e abusarem de postagens de vídeos e lives, fechando as portas para repórteres, que nem sob muita insistência conseguem ser recebidos.
O respeito pelo papel institucional da imprensa deve ser mostrado na prática. Governantes têm de ir além do mero discurso de amparo a essa abertura; sem atitudes concretas, qualquer defesa é vazia. A fuga em massa de figuras públicas para as redes é nociva pela sua unilateralidade, mesmo que nas caixas de comentários as críticas fervilhem.
É a presença atuante do jornalismo que garante a transparência dos processos democráticos, por se antecipar a desmandos e autoritarismos. Representantes eleitos têm o dever de prestar contas e responder por seus atos. Na internet, é simples: basta ignorar os comentários. Acaba sendo cômodo demais para quem está no poder. À imprensa, cabe provocar um saudável desconforto.