Mais do que um desabafo, as palavras da dona de casa Maria de Lourdes Cardoso resumem o sentimento de todo cidadão diante dos desdobramentos da Operação Lama Cirúrgica: “A gente luta para fazer (a cirurgia) e ainda passa umas coisas dessas. Sem saber, né? Então eu vou confiar em quem mais?”.
É a indagação que fica, diante da crise de confiança generalizada por que passamos. Denúncias de corrupção atingem a sociedade em cheio; há a consciência de que dinheiro público desviado acaba deixando de ir para quem realmente precisa. Mas a comercialização de material cirúrgico que deveria ser descartado a hospitais privados, planos de saúde e médicos torna essa causalidade ainda mais palpável.
A irresponsabilidade dos investigados nesse caso atinge uma área sensível e muito próxima da população. É a ganância colocando os pacientes em perigo, brincando com a saúde de pessoas que já estão vulneráveis por estarem passando por tratamentos médicos. São dramas pessoais a serem superados, e é inaceitável que, num momento de fragilidade, familiares e pacientes ainda tenham que se preocupar com a qualidade do material utilizado em possíveis cirurgias. Ninguém deveria passar por esse tipo de aflição.
Há muito com o que se indignar com as revelações feitas pelo “Fantástico”, em reportagem que teve apuração do jornalista Roger Santana, da TV Gazeta. As conexões internacionais mostram que o esquema pode ser ainda maior do que o denunciado, o que exige uma devassa nas relações entre empresários e profissionais da saúde que podem estar se beneficiando. Positivamente, a Polícia Federal já se uniu à Civil nas investigações.
É oportuno que entidades médicas tomem a frente e comprometam-se com uma investigação rigorosa. Práticas de saúde pautadas pela ética devem ser defendidas com unhas e dentes, porque a sociedade precisa se sentir amparada. É preciso punir com rigor os responsáveis por crimes tão covardes, para que a ida a um hospital não se torne ainda mais traumática do que já é.