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Política

Futuro governo oferece mais dúvidas do que certezas

O novo governo precisa encontrar uma narrativa mais "pé no chão". Terá seis meses para isto

Publicado em 24 de Novembro de 2018 às 22:23

Públicado em 

24 nov 2018 às 22:23

Colunista

Jair Bolsonaro com Paulo Guedes

Antônio Carlos de Medeiros*

O Brasil vai para 2019 com mais dúvidas do que certezas. Mas não é o fim do mundo. A eleição presidencial representou mais do que uma eleição trivial. É uma troca de guarda, como foi a de Lula em 2002. Muda a narrativa; muda a agenda; mexe com a máquina governamental; provoca efeitos em interesses estabelecidos na máquina e na sociedade.

Placas tectônicas em movimento não são deslocamentos triviais. Podem mudar a alma do Poder Político, mais do que apenas a sua fachada. Podem mudar a direção do desenvolvimento do país.

A bateção de cabeça na equipe de transição era esperada. O importante será o conteúdo do discurso de posse. Aí, saberemos se o presidente eleito vai conciliar a política econômica liberal de Paulo Guedes com a tradição nacionalista e corporativista dos militares. Mais ainda, se vai conciliar tudo isso com a necessidade do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, dialogar com o Congresso (lá onde a vaca tosse). É preciso governar o governo.

Depois, vamos saber se os brasileiros vão realmente querer mudar a política econômica não liberal dos últimos 50 anos, com sua matriz estatizante, patrimonialista e corporativista. E se vão aceitar, na prática, a agenda de valores liberais de Paulo Guedes. Mendonça de Barros foi cirúrgico: “minha dúvida é se a revolta do eleitorado nas eleições de outubro passado representou mesmo um basta” (à estatização). Tem que combinar com o povo.

Só vamos saber na prática. Como é também na prática que saberemos qual será a narrativa que vai prevalecer no governo Bolsonaro. Na campanha foi: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”: a grande narrativa religiosa que atribui a Deus o dinamismo da história.

Por enquanto, vale nos lembrar sobre o esgarçamento das grandes narrativas e das certezas e dogmas sobre o que está certo ou errado. Hoje, a complexidade do mundo e o caráter fluído e volátil das sociedades nos levaram a ter mais dúvidas do que certezas. As grandes narrativas idealistas – como o determinismo histórico do fim das desigualdades com o marxismo; e como a inexorabilidade do progresso e bem-estar com o iluminismo – não são mais bússolas para certezas.

Para além das narrativas religiosas, marxistas e iluministas, o novo governo precisa encontrar uma narrativa mais “pé no chão”. Terá seis meses para isto, enquanto durar o seu capital político. O brasileiro votou movido pela revolta, que desaguou no “voto-anti”: anti-PT ou anti-Bolsonaro. Precisamos lembrar que por trás dos “anti” havia necessidades e desejos - o brasileiro quer entregas: emprego, saúde, segurança, educação. As grandes narrativas não vão prover estas entregas. Ou então vamos ter que dizer como disse Gabeira, ao analisar as falas místicas do novo chanceler, Ernesto Araújo: agora “o assunto é direto com Deus”. Aí, vamos continuar ainda com mais dúvidas...

*É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science

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