Marcos Ramos*
Há algumas semanas, baixou um mal-estar entre os professores que estarrecidos leram nestas páginas um conjunto de desarrazoadas linhas sobre a influência de Paulo Freire na educação brasileira. Qualquer sujeito mais calejado de sala de aula, em meio minuto de leitura, entendeu que se tratava (como é de praxe) do típico caso do ingênuo que gostou dos primeiros aplausos e continuou jogando para torcida. A torcida, nesse caso, é o vasto clube de semiletrados, seminformados, semicatólicos, detentores de diplomas, cartões de apresentação, bulldogs franceses e um épico familiar na ponta da língua para justificar seu sucesso na vida. De modo geral, aquilo que Carmélia Maria de Souza (a maior cronista da ilha) chamava de TFC – a saber: Tradicional Família Capixaba. E não me venham com epítetos e predicativos gastos. Polemista era Paulo Francis que, sobretudo, escrevia em elegante português.
Mas se vocês, camaradas, realmente se interessam por educação, formação, paideia ou bildung, como diriam Nietzsche ou Beckenbauer, para ser mais chique, sugiro uma pesquisa sobre os termos: “think tank”. Em site especializado, você encontrará qualquer coisa como: “uma instituição dedicada a produzir e difundir conhecimentos e estratégias sobre assuntos vitais – sejam eles políticos, econômicos ou científicos”. Mas, em português do dia a dia, são centros de recrutamento de jovens de classe média e média alta com foco em formação liberal. Previno os sensíveis do estômago: estamos falando de uma formação de jovens com vistas à multiplicação de valores como livre iniciativa, livre mercado, propriedade privada, empreendedorismo, etc, etc, etc, pão doce. Dando nomes aos bois: Atlas Network é a cabeça da medusa. Sede em Washington, D.C., 965 partners em 95 países mundo afora. Em Vitorinha, inclusive.
O friozinho do final de semana prostrou-nos na cama, camaradas. Mas é inútil dormir a dor não passa. Dizem que uns gatos pingados – e de pedigree – transferiram definitivamente suas panelas de aço cirúrgico para Miami - alguns até trocaram de nome, vide o caso Cláudia Milk –, os cãomunistas (o termo é do Carlinhos Oliveira) foram parar em Cuba – raros; e outros tantos, que ainda não carimbaram o passaporte, já buscam emprego em Portugal ou vino e dulce de leche na terra de Pepe Mujica.
O fato, camaradas, é que as violas e violinos já soaram e dentro de 5 minutos o Titanic alcançará o iceberg. Por essas e por outras, não há destro ou sinistro sem razões para dar no pé. Nem que seja para viver seu “fugere urbem” de luz e gratidão no Caparaó. Salvo, claro, o pobre. O pobre continuará ali, sem grana, sem gasolina e sem Godot, esperando o final de semana para pegar uma praia na Curva da Jurema e um samba no Rominho.
Como diria o bom Oswald de Andrade, fosse uma tarde de sol, o índio teria despido o português e tudo seria diferente.
*O autor é professor de Literatura Brasileira