
Raphael Madeira Abad*
Todo organismo, biológico ou social, busca a sua perpetuação por meio da reprodução. Alguns parasitas reproduzem-se tanto a ponto de matar o hospedeiro, embora criem um problema para si próprios, pois devem conseguir outro, matá-lo, e assim sucessivamente. Mas qual seria o sistema reprodutor da corrupção que permite a sua multiplicação e a consequente perpetuação?
A resposta está em algo aparentemente inocente denominado financiamento ilícito de campanha, geralmente pelo caixa dois.
É importante tocar neste assunto em época de eleições, quando políticos acusados de corrupção afirmam que não ficaram para si com o dinheiro que roubaram, mas sim repassaram para o partido, como se isso fosse um mal menor, quando na verdade é um risco à democracia.
Isto porque o dinheiro ilícito, quando utilizado em campanhas eleitorais, permite que partidos e empresas corruptos fiquem ainda mais poderosos, aniquilando partidos e empresas que não se valem de tais crimes.
Políticos acusados de corrupção afirmam que não ficaram para si com o dinheiro que roubaram, mas sim repassaram para o partido, como se isso fosse um mal menor, quando na verdade é um risco à democracia
Se outrora esse dinheiro ilícito era usado para pagar agitadores de bandeiras e entregadores de santinhos, hoje é direcionado para influenciadores digitais, artistas de memes ou por robôs comandados por hábeis programadores, capazes de influenciar um grande número de eleitores.
Assim como a dúvida do ovo e da galinha, não se sabe como nasce a corrupção, embora seja possível afirmar que em um determinado momento o político corrupto troca um favor (desde uma dentadura até uma obra pública) com um empresário inescrupuloso que lhe paga quantia em dinheiro, que por sua vez será utilizado ilegalmente na sua campanha, com o objetivo de gerar vantagem competitiva em relação a todos os demais, para ganhar a eleição e, eleito, oferecer ainda mais favores das empresas que ganharão ainda mais, para arrecadar mais dinheiro ilegal e assim sucessivamente, perpetuando-se e hipertrofiando-se enquanto sufoca os concorrentes, até matar o hospedeiro.
*O autor é mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e doutorando em Governança Global (Universidade de Salamanca - Espanha)