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Francisco Aurelio Ribeiro

Fátima: mais do que demonstração de fé dos portugueses

Na caminhada, conflitos se revelam, com discussões e animosidades, e o que era para ser um instante de fé se torna uma guerra pelas dificuldades da empreitada

Publicado em 12 de Maio de 2018 às 18:23

Públicado em 

12 mai 2018 às 18:23

Colunista

Igreja de Nossa Senhora de Fátima, Portugal

Francisco Aurelio Ribeiro*

Ontem, 13 de maio, comemorou-se o 101º ano do aparecimento de Nossa Senhora de Fátima a três pastorezinhos portugueses - Lúcia, Francisco e Jacinta - no local onde, posteriormente, foi construído um dos maiores santuários marianos da fé católica, o Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, localizado no Concelho de Ourém, em Portugal. Em síntese, a mensagem da mãe de Deus às crianças foi a de que orassem, para que as pessoas não perdessem a fé em Deus, sobretudo naquele ano, em que foi deflagrada a Revolução Comunista na Rússia, 1917, e que tanto assustava aos católicos, a maioria dos portugueses, na época. Viviam-se os estertores da Primeira Guerra Mundial e a Europa estava devastada pelo conflito. Foi nessa época que meu avô se safou da morte certa na África e veio para o Brasil.

Quase dez mil soldados portugueses morreram nessa guerra terrível, o que desestabilizou a democracia portuguesa. Portanto, as aparições de Nossa Senhora foram bastante oportunas naquele momento tão terrível para a nação portuguesa e para o mundo, como uma forma de alento e de conforto à perda de esperança na fraternidade universal.

As aparições de Nossa Senhora foram bastante oportunas naquele momento tão terrível para a nação portuguesa e para o mundo

Vindo, recentemente, de Lisboa, assisti, no avião da TAP, ao filme “Fátima”, produção cinematográfica do novo cinema português, a meu ver, bastante revelador das características comportamentais dos nossos patrícios e colonizadores. O filme, escrito e dirigido pelo cineasta João Canijo, confunde-se com um documentário e mostra a peregrinação de 11 mulheres, saídas do norte de Portugal, Vinhais, em Trás-os-Montes, em maio de 2016, em direção a Fátima.

Ao longo de nove dias e 400 km, atravessaram meio país, com muito esforço e sacrifício para cumprir suas promessas, em meio a um tempo adverso, enfrentando chuva, vento e frio. Para acompanhá-las, alugaram uma van, que os portugueses chamam “carrinha”, para lhes dar apoio com água, alimento e abrigo durante a noite. O banho, quando ocorria, era feito em estalagens ao longo do caminho.

Confesso que o filme é muito chato para nós, brasileiros. As mulheres falam muito, muito se perde de suas falas, pois o sotaque português para nós é, às vezes, incompreensível, e minha sorte é que o vi legendado em inglês, o que me ajudou bastante (rs). No entanto, o filme conseguiu prender-me a atenção, pois o interessante era exatamente o que elas falavam, enquanto caminhavam. Na caminhada, os conflitos se revelam, com discussões, animosidades acirradas e o que era para ser um instante de fé se torna uma guerra aguçada pelas dificuldades da empreitada, com brigas, desavenças, agressões, até que todas chegam a Fátima, desunidas, mas juntas, para celebrar sua fé junto à multidão que entoa cantos e louvores a Maria. Iguais a elas, oremos e caminhemos, pois vivemos uma situação bem parecida, sem que vislumbremos uma Fátima ao final da jornada.

*O autor é professor e escritor

 

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