“Parece que eu sou/ Zumbi dos Palmares quando sambo/ O príncipe herdeiro/ Dos quilombos do Brasil/ Sou eu, sou eu, Soweto/ Livre, Mandela é Zumbi/ Que se revive /Exemplo pro céu/ De outros países como o meu/ Sou eu orgulho de Zumbi.” É muito impressionante ouvir os versos citados, refrão de “300 Anos”, samba de Altay Veloso e Paulo César Feital, em uma roda de samba. Do Oiapoque ao Chuí, mas sobretudo ali em Madureira ou por aqui no Bar da Zilda, cada vez que esse samba é cantado por um coro aguerrido e entusiasmado o símbolo Zumbi dos Palmares é atualizado.
E ainda que em muitos aspectos esse Zumbi se distancie do Zumbi histórico, de carne e osso, a atualização do símbolo nos lembra que falar da escravidão é falar do presente, e o contrário também é verdadeiro, isto é: não há possibilidade de refletir sobre o presente sem pensar a escravidão.
Laurentino Gomes, autor da trilogia bestseller “1808”, “1822” e “1889”, acaba de publicar a primeira parte de mais uma empreitada de fôlego. Desta vez o autor se debruça sobre esse tema espinhoso e difícil – em todos os sentidos. Como tem dito o próprio autor: não se escreve sobre esse tema incólume. E eu diria que também não se lê o tema como entretenimento.
O primeiro volume, com o subtítulo “Do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi de Palmares”, tem justamente a tônica a que me referi no primeiro parágrafo: falar da escravidão é falar do presente. O conjunto de informações reunidas pelo jornalista é grandioso. Parte substancial dessas informações é tributária a uma bibliografia rigorosa, com destaque para autores capitais como Alberto da Costa e Silva, Luiz Felipe Alencastro, João José Reis e Paul Lovejoy.
É importante sublinhar, além disso, o minucioso trabalho realizado a partir de um levantamentos dos textos dos jesuítas sobre a escravidão. Foi justamente esse acervo que garantiu uma das partes mais ricas do livro – o capítulo intitulado “A cruz e o chicote”.
Sobretudo hoje, escrever sobre esse tema exige uma grande responsabilidade e um rigor absoluto. E o autor não se furtou a isso. As informações apresentadas no livro, costuradas em uma narrativa fluida e acessível tanto a jovens imberbes quanto a gente de suma doutoração, como diria Riobaldo, versam sobre: a escravidão em geral, como um problema da humanidade, e a especificidade da escravidão nas Américas; a escravidão indígena; a escravidão negra como substrato do racismo; a condição do negro brasileiro pós-abolição; as especificidades do tráfico de cativos; o papel da Igreja no tráfico e na escravidão; o tráfico em Angola e a relação entre as lideranças locais e as famílias reais portuguesas; as revoltas e a criação dos quilombos; e a importância de Jinga e Zumbi como figuras históricas, em Angola e no Brasil, e como símbolos de luta pela igualdade racial hoje.
Não é um livro dedicado a especialistas. Esses continuarão acompanhando as pesquisas de João José Reis, Hebe Mattos, Sidney Chalhoub, para citar alguns, mas o livro cumpre a função fundamental de chegar de modo crítico e informativo a leigos e interessados na história pretérita, presente e futura deste país.