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História

Faculdade de Filosofia do Estado já foi alvo de espionagem da ditadura

O interesse demonstra, claramente, o perigoso nível de vigilância em que a sociedade brasileira estava submetida nos anos de chumbo

Publicado em 10 de Dezembro de 2019 às 04:00

Públicado em 

10 dez 2019 às 04:00
Herbert Soares

Colunista

Herbert Soares

Cidade de Alegre, em 1983 Crédito: Divulgação/Arquivo Público
Segundo informações de um dossiê preservado no Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, parte de uma despretensiosa apostila de Filosofia, usada por alunos do 2º e 3º anos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (Fafia), com sede no município de Alegre, foi analisada por órgãos de segurança da ditadura militar em outubro de 1975.
A Fafia é uma autarquia municipal e teve o seu funcionamento autorizado por meio do decreto nº 72.165, de 2 de maio de 1973, inicialmente ofertando os cursos de Pedagogia, Ciências, Estudos Sociais e Letras. A instituição formava professores para o antigo 1º Grau, o que compreendia o estudo de temas ligados à Filosofia, disciplina considerada perigosa, assim como as Ciências Humanas em geral, por praticamente todo governo autoritário.
O texto que chamou atenção dos militares, intitulado “A Deficiência de Recursos”, discute problemas educacionais brasileiros, tais como: instalações deficientes, professores despreparados, baixo rendimento dos alunos e a má gestão dos recursos destinados à área. O material também critica a gratuidade do ensino superior ao afirmar que mais de 90% dos estudantes das universidades públicas, naquele período, poderiam pagar pelos estudos, além de reforçar que o principal problema do setor estava na educação secundária e técnica. Ademais, o artigo não faz nenhuma avaliação direta da ditadura e concorda com opiniões emitidas por Luiz Gonzaga do Nascimento e Silva, Roberto Campos e Mario Henrique Simonsen, ex-ministros dos governos militares.
De caráter confidencial, o documento que revela a espionagem na Fafia é oriundo da Polícia Militar, tendo passado pela Secretaria de Segurança Pública até chegar na Delegacia de Ordem Política e Social do Estado do Espírito Santo (DOPS/ES), onde foi arquivado, aparentemente sem consequências significativas. Quanto ao conteúdo, o infiltrado na faculdade alegrense registrou: “Esta cópia foi extraída da apostila do 2º e 3º ano de filosofia da Faculdade de Alegre - Espírito Santo. Em outra oportunidade apanharei as demais apostilas para uma análise aqui da seção.”
A exagerada preocupação com um texto de apenas duas páginas, voltado basicamente aos dilemas da educação no Brasil, pode parecer algo banal ou curioso, mas é muito mais do que isso. O interesse demonstra, claramente, o perigoso nível de vigilância em que a sociedade brasileira estava submetida nos anos de chumbo e quão enorme foi o aparato de repressão montado no pós-1964, uma vez que, nem as salas de aula do interior do país estavam livres do seu alcance.

Herbert Soares

É mestre em História pela Ufes. Neste espaço, a história capixaba é a protagonista, sem deixar de lado as atualidades. Escreve às terças.

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