Verônica Bezerra*
A extinção da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Vitória, a CJP, ocorrida na última sexta-feira (3), surpreende e preocupa, principalmente neste momento sombrio, onde a luta pelas causas sociais se torna imprescindível para a manutenção de direitos humanos conquistados. O papel da CJP, no Espírito Santo, durante décadas foi essencial nos momentos delicados da história recente na luta pela democracia e por uma sociedade mais justa.
Em casos emblemáticos, a atuação da CJP foi merecedora de destaque. Exemplos disso foram no assassinato do Padre Gabriel Maire, em 23 de dezembro de 1989; na luta contra a impunidade; no enfrentamento ao esquadrão da morte; na atuação no Fórum Reage; nos grandes movimentos pela democracia e em diversos coletivos. Durante muitos anos, os seus membros exerceram verdadeiras cruzadas pelo Reino, fazendo uma ligação da fé com a vida, atualizando, através da prática, a cada ação, as palavras do Evangelho.
Cumprindo os ensinamentos de Jesus Cristo, no que concerne à ameaça, à denúncia e ao anúncio, a CJP foi determinante na luta pelo Reino de Deus na sociedade capixaba. Ameaçou o sistema de poder estabelecido, produtor de violações de direitos humanos; denunciou as injustiças da sociedade e anunciou esperança de vida para o povo sofrido.
No último dia 3, através de uma carta, após 40 anos de história na Igreja Particular de Vitória, a CJP foi declarada extinta. Mera formalidade que não redundará em silenciamento. Sua essência e mística não restarão enterradas. A voz de seus antigos e atuais membros não será calada. Seu trabalho não será apagado. Leigos e leigas seguirão em fileiras, na luta pelo Reino, ao lado dos excluídos.
Com a exortação da Papa Francisco de ser uma Igreja em saída, atualizados pela orientação da Teologia da Libertação, firmados em Puebla e Medellín, que fez a opção pelos pobres e ecoando os ensinamentos do Cristo, que rompeu com os sistemas que produzem a morte e anunciou redes que priorizam a vida, e por isso foi torturado e assassinado, a caminhada continua à Luz do Evangelho.
E alimentados pelo Pão da Vida, seguirão conscientes, que “é Jesus neste Pão de Igualdade, viemos pra comungar, com a luta sofrida do povo que quer ter voz, ter vez, lugar, comungar é tornar-se um perigo, viemos para incomodar, e com a fé e união nossos passos vão chegar”, e ainda que, mais do que a própria guerra, o que importa é quem está nas trincheiras ao teu lado.
* A autora é advogada, Diretora de Direitos Humanos da OAB/ES e mestranda da FDV