Isabela Castello*
Visitei recentemente a exposição “AI-5 50 anos – Ainda não terminou de acabar”, no Instituto Tomie Othake, em São Paulo. A exposição busca discutir os custos da retirada de direitos democráticos para o imaginário cultural do país, em resposta aos 50 anos do Ato Institucional Nº 5, marco do agravamento do totalitarismo da ditadura civil-militar brasileira.
Segundo o curador, Paulo Miyada, a pesquisa tem como núcleo a produção de artes visuais do período, com obras que nasceram em tensão com a interdição da opinião política, criminalizada pelas práticas de censura e repressão.
Achei extremamente oportuna a exposição. Nasci na década de 1970, então não vivi diretamente os anos mais duros da ditadura, mas acompanhei ainda bem jovem a felicidade com a reconquista dos direitos políticos.
Precisamos olhar para o passado, aprender com ele e não repetir os erros
Hoje, me entristeço e me preocupo quando vejo pessoas relativizando este período tão dramático, como se a perda dos direitos civis, políticos e da liberdade de expressão fosse algo pouco importante para a sociedade.
Vemos uma parte significativa da população apoiando políticos que têm postura antidemocrática expressando medo de um novo governo do PT. Não sou petista e não gostaria de ver o PT no poder novamente. Reconheço todos as mazelas do PT, especialmente levar os níveis que corrupção - que já existia antes deles - a patamares elevadíssimos. Mas me preocupa ver pessoas relativizando os anos da ditadura, afirmando que o retorno a ela seria a melhor opção ou acreditando que votar em Bolsonaro vai nos salvar da grave crise que assola o país.
Estas pessoas estão dando o recado de que não fazemos tanta questão da democracia e dos direitos civis, conquistados a duras penas... Foi assim em 64. Com medo do comunismo, parte da elite do país apoiou o golpe... e só reconquistamos nossos direitos 21 anos depois.
O risco de retroagirmos neste aspecto parece algo distante e remoto, mas é uma tendência mundial. A ONG Freedom House divulgou o documento “Liberdade no Mundo 2018: A Democracia em Crise” que aponta que a democracia está sob ataque e a recuar em todo o mundo. O ano de 2017 foi o 12º ano consecutivo de queda da liberdade global, em que 71 países sofreram declínios nos direitos políticos e nas liberdades civis.
Por isso a importância desta exposição. Precisamos olhar para o passado, aprender com ele e não repetir os erros.
*A autora é administradora e designer