A conclamação de Fernando Henrique, feita em carta “aos eleitores e eleitoras” no último dia 20, considera que “ainda há tempo para deter a marcha da insensatez”. A “insensatez” seria a polarização da disputa eleitoral entre “o partidarismo” e “o personalismo”, em que o partidarismo estaria representado “por quem representa um líder preso por (...) corrupção” e o personalismo por quem prega o “ódio”. Na carta, há a proposta de união dos “candidatos que não apostam em soluções extremas” para “apoiar quem melhores condições de êxito eleitoral tiver”.
Os candidatos, como era de se esperar, não levaram a conclamação de Fernando Henrique a sério. Os dois que estão à frente das pesquisas, por motivos óbvios, já que foram criticados explicitamente no texto. Os demais porque viram na conclamação “uma forma de ressuscitação da candidatura do PSDB” – como disse um deles – já que Fernando Henrique é o presidente de honra deste partido. O ex-presidente esclareceu que sua carta não foi dirigida aos candidatos e sim aos eleitores.
Fernando Henrique, no entanto, não está sozinho na sua cruzada pela viabilização de uma terceira alternativa aos “dois polos da radicalização atual” que, qualquer que seja vencedor, “terá enormes dificuldades para obter a coesão nacional suficiente e necessária para (...) a superação da crise”. O governador Paulo Hartung, já há muito tempo, tem repetido pregação semelhante.
Para Hartung, para superar a crise – de 13 milhões e desempregados, R$ 400 bilhões de déficit público nos últimos quatro anos, dívida pública de 80% do PIB, e gastos obrigatórios consumindo 80% das receitas da União – a melhor alternativa para o Brasil seria eleger um presidente compromissado com uma “agenda democrática e reformista” que cuide, com prioridade, da questão fiscal (“porque o país está literalmente quebrado”), da crise social (“combate à pobreza, redução do desemprego brutal e melhoria da educação básica”), da “competitividade da economia brasileira” e do fim da corrupção.
As boas intenções de Fernando Henrique e Hartung esbarram, contudo, na realidade do clima emocional que cerca as eleições. Quando se vê, de um lado, um candidato que vai à cela de um condenado pela Lava Jato para ser orientado sobre o que deve fazer, é possível prever o final melancólico desta que é a maior operação de combate à corrupção da nossa história. E, de outro, um deserto de ideias e propostas que faz renascer a ameaça de um regime autoritário de supressão das liberdades democráticas.
Há ainda tempo (e condições) para deter este provável desfecho?