Embora seja o Dia dos Namorados no Brasil, não tem nada de romântico o encontro pessoal de Donald Trump e Kim Jong-un no luxuoso Capella Hotel, em Sentosa, uma ilha na costa de Singapura.
Está tudo coreografado: aperto de mão, brinde, sorrisos para fotos etc. Esse ritual mascara negociações complicadas, visando a convencer a Coreia do Norte, estratégica no xadrez geopolítico asiático, a abrir mão de seu programa nuclear, que ameaça os EUA e a paz mundial.
Haja simbolismo na escolha do local. O termo italiano “capella” liga à igreja, e “santosa” traduzido para o português, significa “paz e tranquilidade”. Será assim a aura do histórico olho no olho dos dois líderes? Sem ser agourento, cumpre lembrar que se trata da antiga “Ilha da Morte”, sede de pirataria até o século 18 e campo de concentração japonês na Segunda Guerra Mundial.
O pré-jogo favorece o gordinho norte-coreano (condição rara naquele país onde o povo sofre privações). Até o início deste ano, ele era marginalizado pelas grandes potências e agora é tratado como estadista.
Também, o desastre da cúpula do G-7, na semana passada, dá gás a Kim. Os EUA brigaram diplomaticamente com o Canadá, ampliando seu isolamento dos aliados. Imagina-se que o ocupante da Casa Branca não gostará de ter dois fracassos na sequência. Ele está tendo oportunidade de trocar o conflito pela parceria.
A aproximação das duas Coreias é uma manobra do pré-jogo que revela astúcia do ditador norte-coreano. Kim e o presidente sul-coreano Moon Jae-in conversam sobre um acordo de paz, fundamental para o fim das sanções da comunidade internacional à Coreia do Norte. É trunfo para negociar com Trump.
Em mensagem de Ano Novo, Kim afirmou ter conseguido o objetivo de construir um arsenal capaz de impor danos a seus adversários. Deixou Washington arrepiado, ao testar no final do ano passado um modelo de míssil balístico intercontinental capaz de atingir “todo o território dos Estados Unidos”.
Agora, diz que quer o desenvolvimento econômico, e para isso é preciso o aval dos EUA para aliviar sanções contra o seu país.
Em troca, os americanos exigem a total desnuclearização da Coreia do Norte, mas poucos analistas acreditam que Kim abandonará suas armas.
*O autor é jornalista