Em guerra de gigantes é sempre esperado que os pequenos saiam perdendo. Ou seja, fragmentos de conflitos em escala maior acabam sobrando e, às vezes, com peso maior para quem dispõe de menos poder e força.
Isso é ainda mais verdade quando se trata de guerra comercial, que é o que estamos tendo agora com o confronto aberto entre as duas maiores potências econômicas, os Estados Unidos e a China. Estilhaços indesejáveis poderão cair no nosso “telhado”. Afinal, esses dois países lideram nossa pauta de exportações, com a China na frente. Também não se descartam possíveis impactos negativos na economia capixaba, que tem na China o seu segundo mercado.
O alastramento do conflito poderá afetar o crescimento global e, consequentemente, perdas também em escala global
Uma guerra comercial entre países é sempre preocupante, pois introduz elementos considerados artificiais a influenciar as trocas comerciais, desestabilizando as relações entre os preços de mercadorias e serviços. Além de comprometer a alocação mais eficiente de recursos. Na história econômica não há registro de sucesso duradouro em estratégias de criação de barreiras comerciais. Ao contrário, foram iniciativas que facilitaram os fluxos comerciais que ajudaram o crescimento e o desenvolvimento de países.
Tanto isso é verdade que grande parte dos países mais desenvolvidos, principalmente aqueles que compõem a OCDE, apresentam coeficientes de abertura – relação entre o mundo exterior e seu PIB - próximos de 100%.
Teoricamente, quanto mais aberta se apresenta uma economia, mais ela pode se apropriar dos avanços científicos e tecnológicos, e também do crescimento global. É ilusório imaginar que barreiras fiscais ou qualquer outro tipo de barreira possa mais proteger do que ativar uma economia. Aliás, nesse aspecto, a economia brasileira é considerada uma das economias mais fechadas do mundo, apresentando um coeficiente de abertura externa de apenas 20%. De certa forma, isso explica nossa imensa dificuldade em competir com economias mais abertas. Só conseguimos obter vantagens relativas na produção de commodities, e isso por razões de situação privilegiada em dotações de fatores naturais. Na indústria de transformação, no entanto, continuamos patinando e perdendo competitividade, produtividade e mercados.
O alastramento do conflito poderá afetar o crescimento global e, consequentemente, perdas também em escala global. Por enquanto, os ataques de lado a lado abrangem um número limitado de produtos. Porém, nada assegura que retaliações proliferem para outras frentes. Há, porém, um espaço de alento, pois entre os dois gigantes existem grandes interesses cruzados. A China é grande credora do Tesouro americano, onde estão depositados volumes enormes de poupança. Do lado americano, interesses econômicos e geopolíticos também não são desprezíveis.
*O autor é economista