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Campeonato Capixaba

Mulheres de São Mateus protestam contra a contratação de goleiro Bruno

Coletivo de mulheres argumenta que a ressocialização de ex-presidiários é importante, mas o goleiro Bruno, condenado pelo homicídio triplamente qualificado de Eliza Samúdio, mãe do seu filho Bruninho, não deve ser alçado à condição de ídolo

Publicado em 01 de Fevereiro de 2020 às 19:44

Redação de A Gazeta

Publicado em 

01 fev 2020 às 19:44
Bruno negocia com o São Mateus para disputar o Campeonato Capixaba 2020  Crédito: Reprodução/EPTV
O anúncio de que o goleiro Bruno, condenado pelo homicídio triplamente qualificado de Eliza Samúdio, mãe do seu filho, Bruninho, pode reforçar o São Mateus no Campeonato Capixaba está gerando polêmica na cidade do Norte do Espírito Santo. Neste sábado (1) um coletivo de mulheres do município divulgou uma carta aberta repudiando a possível contratação do jogador para o clube.
Na carta, o BELAS, coletivo auto-organizado de mulheres de São Mateus, argumenta que a ressocialização de ex-presidiários é importante, mas Bruno não deve ser alçado à condição de ídolo do esporte.
“Premiar feminicidas com contratos que elevem seus egos sob o argumento de que todos são dignos de ressocialização significa dizer que a vida que segue é a que vale”, afirma o documento.
Uma das representantes do grupo, Zenillza Pauli, reforça o repúdio a contratação de um atleta com esse perfil para o único representante da cidade no Campeonato Capixaba 2020.
"Não somos contrárias à ressocialização, todos devem ter oportunidades de mudança. No entanto, o retorno deste indivíduo aos espaços de referência para jovens e crianças reafirma que tirar a vida de uma mulher de forma bárbara é algo muito simples. E é contra isto que estamos lutando. Não vamos aceitar um tempo de violência autorizada"
Zenilza Pauli - BELAS - Coletivo auto-organizado de mulheres de São Mateus
Ela ainda afirmou que a carta aberta é a primeira ação do grupo repudiando a possível chegada do goleiro Bruno, e caso a negociação avance novas medidas estão previstas.
“Havendo a permanência da possibilidade de contratação, o Coletivo Belas, como em outros momentos, vai planejar outras ações buscando sensibilizar a sociedade, principalmente as mulheres, sobre a seriedade da ação do clube ao contratar este jogador. Há uma mensagem de impunidade e não ficaremos caladas”, disse.

HISTÓRICO DE LUTAS PELAS MULHERES DE SÃO MATEUS 

De acordo com Zenilza Pauli, O Coletivo Belas iniciou suas atividades em setembro de 2018, e hoje conta com mais mais de 80 mulheres ativistas cadastradas. O grupo se reúne uma vez por mês para estudo e bate-papo.
“Nosso objetivo principal é fortalecer um coletivo de mulheres, com contato pessoal para além do ativismo das redes sociais. Estamos buscando o fortalecimento e pretendemos nos tornar uma referência para auxiliar mulheres vítimas de violência. No ano passado fizemos um ato público no Centro da cidade, quando a professora Regiane Silva foi brutalmente assassinada.” lembrou.
Manifestação do Coletivo Belas em São Mateus Crédito: Divulgação / BELAS - Coletivo auto-organizado de mulheres de São Mateus

NEGOCIAÇÃO ENTRE BRUNO E SÃO MATEUS 

De acordo com o presidente do Pitbull do Norte, Pedro Artur, Bruno foi oferecido ao clube, e após uma avaliação feita por uma enquete com os membros da diretoria, que também são torcedores, o nome do jogador foi aprovado. De acordo com o dirigente, uma definição sobre o caso pode acontecer ainda neste sábado, após o jogo contra o Rio Branco-ES, pela segunda rodada do Capixaba 2020.

RELEMBRE O CASO

Bruno foi preso em setembro de 2010 e condenado em março de 2013 pelo homicídio triplamente qualificado de Eliza Samudio e pelo sequestro e cárcere privado do filho. As penas válidas somadas são de 20 anos e 9 meses. Atualmente, Bruno cumpre pena em regime semiaberto domiciliar em Varginha, Minas Gerais.
Eliza Samúdio e Bruno Crédito: Reprodução / Arquivo Pessoal / TV Globo

CONFIRA A NOTA NA ÍNTEGRA

Carta Aberta à população Mateense
Nós do coletivo auto-organizado de mulheres de São Mateus, BELAS, viemos a público repudiar veemente a consideração de alçar a título de ídolo futebolista da cidade alguém condenado por assassinato qualificado de uma mulher, hoje crime tipificado como feminicídio. A vítima, Eliza Samúdio, com quem manteve relações e, inclusive, um filho, não teve oportunidade de ter, sequer, um velório, pois seu corpo até hoje não foi localizado.
Entendemos que a ressocialização é importante e é um direito que a todos assiste, mas entendemos também que há várias profissões que podem resgatar a dignidade humana sem alçar um feminicida à posição de ídolo.
O que ensinaremos às nossas crianças ao levá-las ao estádio? Que ídolos, enquanto sociedade, vamos reverenciar? Premiar feminicidas com contratos que elevem seus egos sob o argumento de que todos são dignos de ressocialização significa dizer que a vida que segue é a que vale... E por pensarmos diferente, dizemos não! Temos memória e temos que dizer que o assassinato de muitas mulheres, mães, filhas, fãs, independente da idade, profissão, etnia, tem que ser lembrado cotidianamente por toda a sociedade até ela aprenda e assuma outra forma de viver e conviver a história do ser mulher.
Não deixaremos que nenhum feminicídio seja esquecido, e cabe lembrar os feminicídios registrados em nossa cidade, entre elas, Josineia, Regiane, Edna, Laís, Eliete! Seus nomes seguem conosco e são parte da nossa história!
Estamos na luta por todas nós! Reafirmamos que defendemos as nossas vidas, a autonomia sobre nossos corpos e vidas. Exigimos uma sociedade sem machismo e sem misoginia. Nossa voz: "nenhuma a menos!"
São Mateus, 1° de fevereiro de 2020.
BELAS - Coletivo auto-organizado de mulheres de São Mateus
Mulheres de São Mateus protestam  contra a possível chegada de Bruno Crédito: BELAS - Coletivo auto-organizado de mulheres de São Mateus / Reprodução

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