O Espírito Santo conhece bem as dores e as delícias de ser uma economia com forte ligação com o comércio exterior. Em períodos como no boom das commodities, iniciado na década de 2000, o Estado surfou em bons resultados e apresentou em diversos indicadores números superiores aos registrados pelo país, como na produção industrial e no próprio PIB.
Mas em outros momentos, como de crises internacionais ou mesmo na baixa dos preços de mercadorias, a exemplo do minério de ferro e do petróleo, o baque por aqui chega de forma muito mais rápida e intensa do que nacionalmente.
Esse grau de integração do Estado à economia mundial foi alvo de um estudo do Ideies, feito pelos economistas Vanessa Avanci e Nathan Diirr, que avaliou o comportamento das relações de compra e venda de bens e serviços dos últimos 20 anos.
O levantamento “Exportações do Espírito Santo (1997-2017): concentração, vantagens comparativas e perspectivas” constata essa dependência, mas vai além, e revela que nas últimas duas décadas o Estado manteve a sua pauta de produtos muito concentrada bem como praticamente não diversificou o destino das suas exportações.
Mais do que um retrato do que aconteceu com o Espírito Santo nesse período, o estudo serve de alerta para o que estamos fazendo e onde queremos chegar. Pensar que estamos na mesma condição do que nos encontrávamos há 20 anos é, no mínimo, frustrante e indica que estamos falhando em algum (ou muitos) ponto(s).
A participação dos principais produtos que são exportados pelo Espírito Santo deixa claro o quanto a abertura comercial – no Estado ela é quase o dobro da do Brasil – ainda é centralizada. Entre os itens que são enviados ao exterior apenas dez deles respondem por quase 90% de tudo o que é comercializado pelo Estado, mesmo volume do final da década de 90.
Na lista dessas mercadorias estão, por exemplo, minério, granito, café, aço e celulose. A grande novidade entre eles de uma década para a outra foi o petróleo, que só ganhou fôlego no Estado depois de 2006 com a exploração e a produção no Litoral Sul capixaba. O que todos os itens têm em comum é o fato de serem commodities, ou seja, matérias-primas.
Se não bastasse não termos avançado na exportação de produtos com maior valor agregado, ainda estamos perdendo espaço para outros Estados brasileiros que produzem as mesmas mercadorias. Enquanto em 1997/2001 a nossa cesta de exportações tinha uma participação de 16% no bolo do país, em 2012/2017, ela caiu para 9%. Em contrapartida, as exportações brasileiras desses produtos saíram de 30% para 49% no mesmo período.
“O Brasil vem ganhando espaço com o que o Estado exporta e a gente não. Isso significa que o Espírito Santo está perdendo competitividade”, pondera a doutora em economia Vanessa Avanci, que chama a atenção também para a pouca mudança nas relações comerciais com diferentes países.
De acordo ela, hoje o Estado continua a concentrar os seus negócios (cerca de 60%) em apenas dez nações, mesma situação que acontecia há 20 anos. Entre o top 10, Estados Unidos é o maior parceiro, com Países Baixos (Holanda) e China na sequência.
Os responsáveis pelo estudo avaliam que o Espírito Santo tem potencial para expandir seu mercado consumidor internacionalmente e, em alguns setores, o Estado se mostra mais forte, como no caso de: celulose, rochas e siderurgia. Nathan Diirr comenta que o Ideies, inclusive, vem fazendo um trabalho de identificar o que está sendo comprado lá fora de outros Estados. “A ideia é estimular que as empresas daqui entrem nesse mercado que já existe demanda.”
Para o diretor executivo do Ideies, Marcelo Saintive, o diagnóstico do estudo surpreende (negativamente) uma vez que demonstra que enquanto o Espírito Santo evoluiu nas últimas décadas em vários indicadores socio-econômicos, ele se manteve estagnado no quesito dinamismo. “Na área do comércio exterior, até tiveram boas iniciativas, mas talvez tenha faltado trazer a teoria para a prática”, observa.
Considerando que o Espírito Santo responde há 20 anos pelos mesmos 5% de participação das exportações brasileiras – e de baixo valor agregado –, passou da hora de agentes públicos e privados pensarem se é esse tipo de desenvolvimento que o Estado quer para o futuro. E vale lembrar que aqui estou falando dos produtos capixabas que são exportados, nem entrei no mérito de isso acontecer pelos portos do Espírito Santo. Porque caso entrasse, certamente seria outro motivo de decepção.