Resíduos que antes seriam destinados ao descarte podem se transformar em combustível. Essa é a proposta do biometano, combustível produzido a partir da purificação do biogás gerado pela decomposição de matéria orgânica. No Espírito Santo, essa alternativa ganha espaço com a implantação da primeira usina de biometano do Estado, um projeto da Marca Ambiental, em Cariacica, com inauguração prevista para o fim de 2026.
A iniciativa representa um novo passo no aproveitamento energético dos resíduos e na diversificação da matriz energética capixaba. Isso porque, além de transformar matéria orgânica em combustível, o processo contribui para reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e cria possibilidades de uso de uma fonte renovável em atividades que ainda dependem de combustíveis fósseis.
Segundo Diogo Ribeiro, diretor de Energias Renováveis da Marca Ambiental, o projeto tem um papel importante na descarbonização por atuar em duas frentes. A primeira é evitar que o biogás gerado pela decomposição dos resíduos seja lançado na atmosfera. A segunda é substituir combustíveis fósseis pelo biometano em sua utilização final.
“O biogás que será transformado em biometano deixa de ser lançado na atmosfera e evita emissão de GEE. De forma adicional, o uso do biometano na outra ponta evita a utilização de combustível fóssil”, explica.
O processo começa com os resíduos sólidos urbanos, que incluem materiais descartados nas atividades domésticas. De acordo com a Marca Ambiental, esse tipo de resíduo contém aproximadamente 50% de matéria orgânica, que passa por um processo chamado digestão anaeróbica.
Nessa etapa, bactérias decompõem a matéria orgânica na ausência de oxigênio e produzem o biogás, composto principalmente por metano e gás carbônico, além de outros componentes em menores quantidades.
Na usina, esse gás passa por um processo de purificação que concentra o metano e permite obter o biometano. Conforme explica Diogo Ribeiro, a expectativa é que o produto final tenha aproximadamente 97% de metano (CH₄).
“O resíduo sólido urbano (resíduo doméstico) contém aproximadamente 50% de matéria orgânica. Essa matéria orgânica passa por um processo de digestão anaeróbica. Esse é o processo onde as bactérias decompõem o resíduo e produzem biogás.
O biogás é composto basicamente por metano, gás carbônico e outros compostos em menor quantidade. A usina de biometano faz a purificação desse gás, mantendo a maior fração possível de metano (aproximadamente 97% de CH4 no biometano)”, pontua.
O resultado é um combustível renovável com potencial para substituir o gás natural de origem fóssil em diferentes aplicações. A iniciativa também se conecta ao conceito de economia circular, no qual materiais e recursos são reaproveitados para gerar novos produtos e reduzir o desperdício.
A produção local de biometano abre possibilidades para setores que buscam alternativas para reduzir as emissões de suas operações. No Espírito Santo, a indústria é apontada pela Marca Ambiental como um dos principais mercados potenciais, por concentrar uma parcela significativa do consumo de gás no Estado.
Outro segmento destacado por Diogo Ribeiro é o transporte, especialmente o de cargas pesadas. A substituição de combustíveis convencionais por alternativas renováveis pode contribuir para reduzir as emissões associadas à atividade.
“O biometano vira uma alternativa fortíssima. Mais barato, com menos emissões, menos particulados e renovável, o biometano é a grande solução para transporte pesado que vem trazendo muitos avanços tecnológicos nesse sentido”, afirma o diretor.
A produção de biometano também complementa o trabalho de aproveitamento energético do biogás já realizado pela Marca Ambiental. Atualmente, a empresa conta com uma usina termelétrica que utiliza esse gás para gerar energia elétrica.
Em 2025, as operações da companhia contribuíram para evitar a emissão de 179.281 toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e), resultado associado à captura, ao tratamento e ao aproveitamento energético do biogás. No mesmo período, a usina termelétrica produziu 41.589,782 megawatts-hora (MWh) de energia elétrica.
Com a entrada em operação da nova unidade de biometano, a expectativa apresentada pela empresa é ampliar esse impacto. Segundo Diogo, a estimativa é alcançar cerca de 350 mil toneladas de CO₂ equivalente em emissões evitadas, considerando o aproveitamento energético do biogás e a contribuição da nova usina.
“Atualmente, já temos aproveitamento do biogás do aterro para produção de energia elétrica na usina termelétrica instalada na Marca. Essa operação é responsável por aproximadamente 200.000 toneladas de CO2 equivalente não emitidas na atmosfera. Com a entrada em operação do biometano, o número total chega em 350.000 tCO2eq. Como mencionado anteriormente, o biometano evita também o consumo de combustível fóssil na outra ponta, aumentando ainda mais a emissão evitada”, explica.
A implantação da usina é parte de uma cadeia de soluções que conecta resíduos, energia e mobilidade. No próximo conteúdo da série especial da Marca Ambiental, o foco será a gestão de resíduos e as formas como o reaproveitamento de recursos podem gerar novas oportunidades ambientais e econômicas.