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Thomas Conti
"Coronavírus chegou com semanas de atraso no Brasil, mas já desperdiçamos esse tempo"
Estudioso sobre economias em períodos de guerra, o doutor em Economia e professor do Insper diz que as autoridades brasileiras precisam definir um só objetivo: "achatar" a curva de contágio pelo coronavírus ou contê-lo e se preparar para uma segunda onda da epidemia no final do ano

Natalia Devens

Repórter de Política

Publicado em 11 de Abril de 2020 às 07:27

Publicado em

11 abr 2020 às 07:27
O Brasil perdeu tempo no combate ao novo coronavírus, e a falta de um direcionamento único das autoridades para atenuar a disseminação da doença pode trazer consequências graves ao país. A análise é do doutor em Economia e cientista de dados Thomas Conti, autor do estudo "Crise Tripla do Covid-19: um olhar econômico sobre políticas públicas de combate à pandemia", publicado na última segunda-feira (6).
Com uma proposta de analisar se o distanciamento social será eficaz para salvar vidas e, ao mesmo tempo, se as políticas adotadas têm custos minimamente eficientes, Conti elencou três aspectos desafiadores da Covid-19: o comportamental, o sanitário e o econômico.
Para ele, o sucesso das ações de contenção do vírus e de redução dos danos à economia passa por decisões coordenadas entre os gestores, uma comunicação clara para a população e o apoio da sociedade às medidas impostas pelos governos.
"No melhor dos cenários, uma recuperação pode começar a partir de setembro, com a economia já dando sinais de vida, novas regras sanitárias, todas as pessoas usando máscaras e mais transporte público circulando para diminuir a superlotação. Com isso bem alinhado, os negócios podem ir voltando a funcionar. As próximas semanas serão decisivas para isso"
Thomas Conti - Doutor em Economia
Confira a entrevista:

Ao contrário de outras crises globais, o desafio comportamental é um dos fatores centrais nesta, do coronavírus. Por que esse fator é tão complexo?

Pois seja lá quais políticas públicas forem adotadas nessa pandemia, todas elas vão depender muito forte da colaboração da população, do comprometimento das pessoas em respeitar uma série de regras, mudar de hábitos, e o governo não está acostumado a um problema de gravidade alta, que não dependa só dele. Qualquer solução que ele tente implementar vai depender das pessoas mudarem comportamento de forma muito rápida, organizada, e manter isso por um bom tempo.

Qual tem sido a maior dificuldade de controlar esse fator comportamental?

O Brasil está em uma situação única no mundo, onde a gravidade do problema ainda não está clara para algumas pessoas. O país ainda está dividido, muita gente insistindo que o problema não existe, e isso pode nos custar muito caro. Caso se venda a mentira de que dentro de uma ou duas semanas será possível voltar à "vida normal", as pessoas ficarão ansiosas e demorarão mais para criar planos realistas de enfrentamento da situação em médio e longo prazo. Como esse retorno à normalidade não vai acontecer, cada renovação de quarentenas ou cada novo hábito que precise ser adotado será visto como uma nova derrota, gerando insatisfação e ansiedade crescentes. Dar previsibilidade e segurança para a população é chave. Deixar claro prazos de início e fim de iniciativas.

Além dos danos à renda das pessoas, aos empregos e à queda de arrecadação pelos governos, o que temos que temer no eixo da economia?

Um risco econômico grave é o desabastecimento por quebra de cadeias produtivas. Mantê-las operantes exige acompanhamento preventivo por setor e região. Políticas agressivas de congelamento de preços devem ser evitadas, pois podem tornar a quebra de cadeias produtivas e o desabastecimento uma certeza em médio prazo. Outro risco econômico mais grave é o caos social. Se houver falta de auxílio aos vulneráveis, isso pode sabotar os esforços da quarentena, provocar mortes e, na ausência de confiança social, instigar o caos. Foi aprovado um plano emergencial de auxílio, porém o tempo importa. Prefeitos e governadores não podem tomar o auxílio como completo e rápido o suficiente. O apoio da sociedade civil em campanhas solidárias pode vir a ser um recurso decisivo.

No eixo da questão sanitária, qual está sendo a nossa dificuldade?

Não podemos deixar chegar a um momento de combinação de alta hospitalização e alta velocidade de propagação do vírus. A principal dificuldade que estamos enfrentando é que cada governo de Estado, que adotou medidas de quarentena, fez por conta própria. Não há uma coordenação do governo federal sobre essas estratégias, e há várias formas de distanciamento social. Não está claro se o objetivo é que o vírus avance mais devagar, mas continue avançando, que é o que chamamos de "achatar a curva", ou se o objetivo é fazer como na Itália, de fechar o máximo possível, para que o vírus seja contido, tentando que ele "se apague", "suma", mas sabendo que no fim do ano terá uma segunda onda. Os próprios governos estaduais não sabem se estão tentando frear o vírus ou sufocar essa primeira onda.

Para a economia, qual dessas duas estratégias é menos danosa: achatar a curva, ou esperar vir uma segunda onda do vírus?

O que estamos vendo é que os países que estavam tentando achatar viram que isso não dá conta. Mesmo que reduza a velocidade de disseminação do vírus, o sistema de saúde entra em colapso. Eles tiveram que adotar a supressão. Na minha avaliação, parece que o menos custoso para a economia é o quanto antes sufocar a primeira onda, com algo rigoroso, para ganhar três meses de fôlego para organizar o sistema de saúde, bolar estratégias melhores para a população, importar testes, para esperar uma segunda onda, na qual conseguiremos adotar estratégias mais brandas, que não implique em custos econômicos tão grandes. Nesta primeira onda de agora, não temos mais tempo hábil, já perdemos prazo. Se os Estados começarem a relaxar o distanciamento, vai ter uma aceleração muito forte do vírus, e chegaremos em maio com o sistema de saúde completamente deteriorado.

O dano econômico maior é com ou sem as medidas de isolamento social?

O custo econômico da crise não é só pelas medidas de distanciamento e quarentena. O vírus traz uma crise econômica por si mesmo. O medo e a incerteza vão aumentando. Nos outros países onde o Covid-19 chegou antes do que no Brasil, ficou demonstrado que não aguentaram o tranco desse vírus circulando na sua velocidade máxima, com uma evolução muito rápida das mortes. O que hoje se pode evitar é que daqui a dois meses não tenhamos que parar tudo, de forma forte, junto com um sistema de saúde entrando em colapso. A tentativa é prevenir um dano econômico muito maior. Hoje, há um dano econômico, com menos pessoas trabalhando, consumindo, mas os hospitais ainda estão dando conta de receber as pessoas que chegam. Se ficar um ou dois meses sem distanciamento, o que vai acontecer é a necessidade de um distanciamento forte, repentino. Haverá dano econômico do mesmo jeito, porém mais forte. As nossas lideranças políticas deveriam estar informando isso para as pessoas.

No estudo, o senhor afirma que a confiança social é e será o principal ativo de todas as autoridades. Como avalia a postura do presidente?

Avalio como uma situação crítica, porque o principal recurso que todos os países gostariam de ter tido na luta contra essa pandemia era um pouco mais de tempo para reagir. O Brasil teve a sorte de o vírus não ter chegado aqui antes. Estamos duas semanas atrás da situação dos Estados Unidos. Em grande medida, já desperdiçamos esse tempo, que poderíamos ter usado para nos organizar melhor com medidas políticas e estratégias. Esse embate com o próprio ministro da Saúde, por exemplo, é algo sem precedentes, em outros lugares do mundo. Somente aqueles gestores que se comunicarem de forma clara e transparente com a população poderão contar com o apoio, o comprometimento e a solidariedade das pessoas, mesmo nas decisões difíceis que exijam tolerar perdas.

O senhor diz que o enfrentamento da pandemia será o mais próximo que o Brasil já passou de um esforço nacional prolongado de guerra. Quais são as semelhanças?

Meu mestrado e meu doutorado são sobre economias em período de guerra. Nesses momentos, é quase inimaginável, por exemplo, que as pessoas estejam preocupadas em quando vão voltar a ir a festas, coisas secundárias. O foco é a sobrevivência. É claro que as pessoas querem voltar à vida de antes, mas é uma situação muito grave, que exige as pessoas se ajudarem. Na situação de agora, estão na linha de frente os profissionais de saúde, de limpeza, de segurança, e a sociedade tem que ajudá-los. As pessoas ainda estão com a esperança de que, quando acabar a quarentena, tudo voltará como no início do ano, mas isso não vai acontecer. A única chance de se chegar ao fim do ano com uma rotina no mesmo patamar do início de 2020 é com a doença correndo sem controle nenhum. Mas o custo disso será uma tragédia muito gigantesca nos próximos meses. Todas as outras estratégias, que envolvem nos comprometermos com novos hábitos, exigirão vários meses tentando frear o vírus, até que uma hora isso começará a baixar e teremos um pouco de tranquilidade. Na primeira onda, os casos vieram importados. Como não conseguimos isolá-lo 100%, haverá uma segunda onda, em que ele vem de pessoas que não sabem que estão infectadas.

Quando a economia vai voltar a se recuperar?

Vai depender muito das políticas que fizermos para conter a pandemia. Se não conseguirmos conter, vamos ter que pensar em como lidar com uma sociedade com medo, aterrorizada, que não vai sair de casa. Mas se conseguirmos conter, vai depender de como for feito. Se vamos ter que recorrer a medidas autoritárias, de controle social. Ou se conseguimos nos organizar, de forma mais harmoniosa, com políticas públicas voltadas para conter os danos. No melhor dos cenários, uma recuperação pode começar a partir de setembro, com a economia já dando sinais de vida, novas regras sanitárias, todas as pessoas usando máscaras, mais transporte público circulando para diminuir a superlotação. Com isso bem alinhado, os negócios podem ir voltando a funcionar. As próximas semanas serão decisivas para isso.

Thomas Conti

- Doutor em Economia, cientista de dados e professor no Insper e do Instituto de Direito Público (IDP-SP).
- Pesquisa as áreas de Análise Econômica do Direito (Law & Economics), Economia do Crime e História Econômica.
- Diretor acadêmico da Associação Brasileira de Direito e Economia (ABDE) e da Associação Brasileira de Jurimetria (ABJ).

PERFIL DO ENTREVISTADO

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