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Pedro Simon
"Se prosseguir com reformas, o Congresso Nacional vai conseguir retomar sua importância"
Após mais de seis décadas de intensa atividade política, o ex-senador Pedro Simon avalia que o Poder Legislativo não deve ser menosprezado, mas precisa mostrar sua produtividade

Natalia Devens

Repórter de Política

Publicado em 14 de Março de 2020 às 18:42

Publicado em

14 mar 2020 às 18:42
Apesar do papel fundamental na República, o Congresso Nacional tem ocupado, há certo tempo, o foco das críticas na classe política pela população. Reforça-se a impressão de que todos os parlamentares são iguais, e a instituição não é relevante para o país. Para os mais radicais, ela nem mesmo precisaria existir, o que representa um risco para a democracia. Mais recentemente, esta imagem negativa do parlamento foi reforçada por ninguém mais, ninguém menos, do que o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido). 
Do alto de seus 90 anos de idade e com seis décadas e meia de política, com quatro mandatos consecutivos no Senado, até 2015, o ex-senador Pedro Simon (MDB-RS) analisa o cenário de maneira mais otimista. Lembrado por sua atuação pela redemocratização, para ele o momento atual é o mais apropriado para o Legislativo reverter a desmoralização que já sofreu e retomar o protagonismo, principalmente por conta do ritmo como estão sendo encaminhadas as reformas. A barreira, contudo, está no sistema político e no excessivo número de partidos, que ainda demonstram estar na disputa apenas por poder, espaço e dinheiro público.
Nascido em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, Pedro Simon foi um dos líderes do movimento Diretas Já. Iniciou a vida política no PTB como vereador da cidade. Com o AI-2 da ditadura, que implantou o bipartidarismo, ajudou a fundar o MDB. Foi deputado estadual (1963-1979), senador (1979-1987), governador do Rio Grande do Sul (1987-1990) e novamente senador (1991-2015). Confira a entrevista.

O Congresso terá força para se reerguer dos ataques que tem recebido?

Eu completei recentemente 65 anos de vida pública, 32 de Senado. Em toda minha vida, desde jovem estudante, sempre fui dedicado aos debates, e a grande discussão sempre foi em torno das reformas de base: a reforma agrária, tributária, política, administrativa. A vida inteira nós falamos nisso, mas nunca tivemos condição de fazer uma reforma tão grande como era necessário. Agora, estamos vivendo um momento inédito na história do Brasil. De repente, essas coisas estão acontecendo. Fizemos a reforma previdenciária, em breve vai ser iniciada a administrativa, a tributária. Isso mesmo em um contexto tão complicado, em que o Presidente da República mostra que não tem condições de montar uma base no Congresso. A começar por seu próprio partido, que tinha a maior bancada, mas ele rompeu. O que está saindo do papel não é por imposição do presidente. Embora ele tenha sido deputado federal por mais de 20 anos, ele não tem jogo de cintura para coordenar, debater. Pelo contrário, continua com atitudes muito radicais, e o maior problema dele são as falas dele. Mas precisamos reconhecer que o Congresso, mesmo com todos os seus defeitos, pela primeira vez está apresentando uma obra de primeira grandeza.

O senhor então considera que o Congresso tem condições de retomar um protagonismo?

Já tinha acontecido isso na reforma trabalhista, aconteceu na reforma da Previdência e vamos ver mais ou menos a mesma coisa na reforma administrativa, na reforma política e na reforma dos impostos. Vai haver uma modificação e uma atuação importante do Congresso Nacional. Os presidentes da Câmara e do Senado estão tendo a competência para coordenar os deputados e senadores para eles atuarem nestes dias. A situação está assim: tem uma divisão, o presidente está muito conturbado e nós precisamos ter uma posição. E isso, estranhamente, de uma maneira positiva, está funcionando. 

O senhor é um grande conhecedor do Poder Legislativo. O presidente faz sucessivas críticas ao presidencialismo de coalizão. Como avalia esta relação dele com os parlamentares?

Considero negativa. A via partidária é muito conturbada. Mas aconteceu uma coisa interessante: enquanto o presidente da República tem uma atuação muito inexpressiva com o Congresso Nacional, não tem liderança, uma maioria garantida, é uma interrogação a cada projeto, o Congresso começou a ter atuação: de modo especial, o presidente da Câmara. Justiça seja feita, ele está tendo uma liderança, uma coordenação, o Senado está vindo atrás e, pela primeira vez, estamos sentindo que as reformas de base podem ser implantadas. É o que é mais importante, sem uma guerra, sem uma luta, mas dentro de uma perspectiva positiva do que acontece.

Como os deputados e senadores vão conseguir mostrar que o Parlamento está mudando?

Um bom sinal que poderia ser dado é fazer uma reforma política. Primeiro, porque já temos 30 partidos e mais uns 20 que estão para se criar. E agora o presidente quer mais um (o Aliança pelo Brasil). A vida partidária no Brasil é uma anarquia. Hoje o povo tem a imagem de que esta quantidade de legendas é somente para disputar verbas, e não debater ideias. Todos os países sérios não têm isso, se dividem em blocos bem nítidos. Duvido que exista algum país com o número de partidos que há aqui. Enquanto o Congresso não tentar avançar nisso, vai continuar com esta imagem ruim. Ele tem que estar atento, pois a população não é mais tão dependente para se informar só pelas grandes emissoras da mídia. Cada um acompanha pelo celular, por sua rede, e isso também é importante. O povo discute, analisa, está mais envolvido no debate, e isso é benéfico. É preciso bater no que está errado, sim. Mas o governo convocar manifestação e enfrentar o Legislativo é caminhar para algo muito negativo.

A renovação dos políticos e das práticas deve dar frutos?

Na última eleição realmente vimos alterações como nunca antes. No Rio de Janeiro, Distrito Federal, Santa Catarina e Paraná tivemos governadores eleitos que não eram tradicionais na política. Em Brasília também aconteceu, 50% de nomes que estão lá pela primeira vez. Essa gente que tem surgido está desenvolvendo a política. Mas confesso que sinto um vazio de nomes que marcaram época, como o de Ulysses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso, até das polêmicas de Antônio Carlos Magalhães. E nomes de expressão também na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), na igreja. Pessoas com biografia, história. Mas os de agora eles estão construindo algo. Espero que consigam deixar um legado como os políticos da redemocratização. Hoje, bem mais da metade é gente nova. E muitos destes estão no primeiro mandato de suas vidas, são deputados federais e senadores que nunca foram vereadores ou prefeitos, e estão atuando em um início de governo muito tumultuado, mas de produtividade boa.

Que tipo de mudanças efetivas os parlamentares podem fazer?

Primeiro, continuando a votar as reformas, e nelas ter grandeza de buscar o bem comum do Brasil, e não só os interesses das corporações. Também precisam preparar melhor a legislação. Eles precisam mostrar que querem acabar com a corrupção. Nós tentamos, por anos, aprovar algo que tivesse a ideia da Lei da Ficha Limpa, e não conseguíamos. Só por meio da iniciativa popular que isso se concretizou, em 2010. O Congresso não queria aprovar, isso era evidente. Um dia antes da votação no Senado, mais de 20 parlamentares foram à tribuna falar contra a proposta. Diziam que era um absurdo, que não tinha cabimento, essas coisas. No outro dia, um mar de gente foi para a frente do Congresso e colocou cruzes no gramado. A lei foi aprovada por unanimidade no dia seguinte. A maior conquista em quase 30 anos de democracia não partiu do Congresso, mas uma proposta de emenda popular. Isso precisa mudar. Outro assunto de suma importância é que o Congresso inicie a movimentação para que volte a prisão em segunda instância. Isso é vital. Se não fizerem isso, se soltarem todos os que já foram condenados e daqui para a frente não prenderem mais ninguém, eu não sei o que vai acontecer.

O senhor sente falta de estar no Congresso?

Com toda a sinceridade, não. Tenho 90 anos e acho que nem teria condições de voltar à briga lá do Congresso. Prefiro assim como estou: debato, defendo minhas ideias, discuto, faço polêmica, mas estou livre para fazer quando quero e sem me envolver em uma série de coisas pelas quais não tenho interesse.

Depois de quatro mandatos consecutivos no Senado, o que o senhor pensa do poder Legislativo?

O início da ditadura foi um golpe de cima para baixo. Hoje, é diferente. A participação é muito maior e mais significativa. Esses nossos celulares são uma arma do povo. Se o governo fizer algo de violento e radical, o povo vai para a rua. Estou com 90 anos, andando pelo Brasil com a minha bengala, fazendo palestras para estudantes, tentando ser um colaborador. E posso dizer uma coisa: as redes sociais estão revolucionando. No meu tempo, o Congresso Nacional estava longe, as pessoas mal sabiam o que se votava lá. Agora, tudo é acompanhado ao vivo. A concentração popular vai aumentar, e o povo está querendo participar das coisas.

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