Nada de pezinho na areia, pular sete ondinhas ou assistir à queima de fogos na praia no Réveillon. Um grupo parte do Estado para Brasília, neste domingo (30), para a acompanhar a cerimônia de posse de Jair Bolsonaro (PSL) como presidente da República. Entre os que ficarão quase um dia no ônibus para vencer os mais de mil quilômetros de estrada e virar o ano na capital federal está o juiz aposentado Antônio Leopoldo Teixeira, admirador do futuro mandatário.
Além de Leopoldo e da esposa, Rosilene, o ônibus da excursão levará outros 41 apoiadores e apoiadoras de Bolsonaro. Partirão de 14 cidades do Espírito Santo e de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. "Tem gente de 30 a 70 anos", contou o organizador da excursão, Luciano Dias Oliveira.
A ideia é chegar em Brasília na manhã do dia 31, percorrer alguns pontos turísticos e, possivelmente, acompanhar uma queima de fogos prevista para acontecer no estádio Mané Garrincha. No dia seguinte, o primeiro de 2019, é acordar cedo e garantir um bom lugar nas imediações da Esplanada dos Ministérios ou do Palácio do Planalto. A volta será já no dia 1º.
O vigilante Rafael Rebello da Silva, 38 anos, conta que há três anos se dedica a apoiar Jair Bolsonaro e a espalhar as ideias do capitão reformado. Ele embarca sozinho, e vai confraternizar com os demais passageiros.
"É uma virada histórica no nosso país depois que conseguimos tirar o PT do sistema. Nunca tinha me envolvido com política. O que me levou foi o fato de o povo brasileiro estar saturado com a roubalheira do PT, de antes do PT, de FHC, do Collor... Vejo no Bolsonaro uma pessoa diferente deles. Tenho confiança na pessoa dele, e espero estar certo nessa convicção", disse.
SORTEIO
A excursão também contará com um grupo de Pancas, município da Região Noroeste. A expectativa para a saída do grupo foi tamanha que uma passagem foi paga por um apoiador de Bolsonaro para que fosse sorteada entre outros admiradores.
"Esse empresário, aqui de um posto de gasolina, estava tão feliz com a vitória de Bolsonaro que fez a doação. Fizemos o sorteio na semana passada", contou o servidor público Leandro Gabriel, 35 anos, que também é vice-presidente do PSL de Pancas.
Ele conta que desde 2014 quer ver Bolsonaro presidente. A admiração é tanta que, em uma das passagens do ainda presidenciável pelo Estado, foi cedo para Colatina doar sangue. Assim, obteve um atestado que o possibilitaria abonar a ausência na prefeitura. Em seguida, foi recepcionar o líder em Vitória.
Leandro vai a Brasília com a mãe, Maria das Graças. Ela teve a despesa custeada pela filha que vive na Itália.
JUIZ LEOPOLDO
Além de ver de perto a histórica transmissão da faixa, o juiz aposentado Antônio Leopoldo Teixeira disse que o valor pago pela excursão também foi compensador. Seria mais barato do que outras opções para o Réveillon. A passagem de ida e volta, com uma diária no hotel Carlton, saiu por R$ 600.
O magistrado já esteve com Bolsonaro pessoalmente, ainda bem antes da campanha eleitoral. O encontro, que rendeu uma foto com o futuro presidente, aconteceu no gabinete do senador Magno Malta (PR).
"Espero muito controle da gestão, uma justa distribuição de renda no país, melhoria na questão tributária. Acho que o que ele vai fazer de melhor é colocar ordem na casa, dar o soco na mesa. Nosso Brasil é rico, abundante. Temos muitas riquezas e o povo vive sofrendo sem necessidade. O que falta é gestão, amor pela pátria, voltar a cantar o hino nacional, o povo voltar a ter orgulho de ser brasileiro", opinou.
Leopoldo também acredita que a vitória de Bolsonaro fará com que o Brasil seja um país menos violento. "Sem dúvida (acredito que a vida em sociedade será menos violenta). Segurança é fator primordial. E essa insegurança que o Brasil vive é a injustiça na distribuição de renda, nas questões sociais. Nossos dirigentes devem isso ao povo brasileiro", declarou.
JUSTIÇA
O juiz aposentado Antônio Leopoldo Teixeira é o único dos dez acusados de envolvimento na morte do juiz Alexandre Martins de Castro Filho, em 2003, que ainda não foi julgado. A defesa dele apresentou recursos ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra a decisão de levá-lo a júri popular.
Os recursos seguem em Brasília e não há previsão para o julgamento. O longo período sem julgamento já foi alvo de protestos do pai do juiz assassinado, Alexandre Martins. "Mas quando esse cara não é julgado e nem preso, isso é uma injustiça", declarou, em março de 2018, quando o assassinato completou 15 anos.
Apesar do sofrimento, Alexandre Martins já disse não guardar mais rancor. Ambos se reconciliaram em uma igreja.
Leopoldo, que não dá entrevistas sobre o tema, nega as acusações de envolvimento no crime. Em uma rara quebra de silêncio, em 2016, afirmou à Rede Record ser vítima de uma armação. "Não mandei matar e não cogitei, nunca pensei. Nunca tive motivo pra isso", disse Leopoldo, que continuou: "Não (sabia que ele ia ser morto). Se eu soubesse, eu tinha evitado a morte do dr. Alexandre".