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Autonomia do órgão

Policiais reagem a Bolsonaro e pedem mandato para diretor-geral da PF

O presidente disse ainda que é direito dele trocar a direção da Polícia Federal e reclamou de críticas que apontam o que seria uma interferência indevida na instituição

Publicado em 22 de Agosto de 2019 às 11:46

Redação de A Gazeta

Publicado em 

22 ago 2019 às 11:46
Jair Bolsonaro, presidente da República Crédito: Marcos Corrêa/PR | Arquivo

As últimas declarações do presidente Jair Bolsonaro sinalizando a troca do diretor-geral da Polícia Federal no Rio de Janeiro provocou críticas de agentes e fez ganhar força o discurso sobre uma eventual necessidade de autonomia do órgão.

Bolsonaro disse nesta quinta-feira (22) que é direito dele trocar a direção do órgão e reclamou de críticas que apontam o que seria uma interferência indevida na instituição.

"Agora há uma onda terrível sobre superintendência. Onze [superintendentes] foram trocados e ninguém falou nada. Sugiro o cara de um estado para ir para lá: 'Está interferindo'. Espera aí. Se eu não posso trocar o superintendente, eu vou trocar o diretor-geral", afirmou.

A declaração ocorre quando delegados da PF de todo país estão reunidos em Salvador, na Bahia, em um simpósio da categoria em que se debate o combate à corrupção no país.

O atual diretor-geral da instituição, Maurício Valeixo, é um dos participantes do evento. Ele não falou sobre as declarações do presidente no discurso não deu entrevista.

Já o diretor da Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal, Edvandir Paiva, sentado ao lado de Valeixo, disse que é fundamental que o chefe da PF tenha um prazo de estabilidade no posto.

"É fundamental que nosso diretor-geral tenha mandato. Seja escolhido por critérios técnicos e republicanos. Que tenha capacidade de formar a equipe sem a interferência de nenhum posto político no governo", disse Paiva.

"A PF é uma polícia de Estado. Nós respeitamos a autoridade que o povo conferiu ao presidente da República. Entretanto o trabalho da Polícia Federal é um trabalho de Estado, permanente, independente de qualquer governo."

A PF é subordinada ao ministro da Justiça, Sergio Moro, enfraquecido em meio à divulgação de mensagens que mostram a atuação em parceria com os procuradores em diferentes processos da Operação Lava Jato e que colocaram em xeque a atuação como juiz federal.

Moro também tem sofrido seguidas derrotas no Congresso, onde tramita um pacote de medidas anticrime encaminhado por ele no início do governo.

As críticas sobre uma interferência indevida de Bolsonaro na PF começaram quando ele deu declarações sobre a troca no comando da instituição no Rio de Janeiro. Ele disse que o então superintendente Ricardo Saadi seria substituído após problemas de produtividade. A PF negou e disse que o próprio Saadi havia pedido a mudança.

O substituto de Saadi, segundo os policiais federais, seria o delegado Carlos Henrique Oliveira Sousa, da Superintendência de Pernambuco. Mas Bolsonaro afirmou então que o cargo seria ocupado por Alexandre Silva Saraiva, superintendente no Amazonas. Policiais protestaram.

No Rio de Janeiro está uma das investigações mais incômodas para a família do presidente da República. O ex-policial Fabrício Queiroz, que foi assessor do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) quando este era deputado estadual, é investigado por movimentações financeiras incompatíveis com os rendimentos. Flávio é o primogênito do presidente.

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, também estava no evento em Salvador e defendeu que a PF tenha garantias semelhantes às da magistratura e do Ministério Público. Witzel se elegeu, em 2018, assumindo as bandeiras do bolsonarismo.

"É preciso despolitizar as polícias. As polícias não podem ter interferências políticas", afirmou Witzel. "O Ministério Público e a magistratura têm garantias que as polícias não têm. E elas precisam ter."

Edvandir Paiva, presidente da ADPF, disse que o que está em jogo é a defesa do combate à corrupção.

"Nenhum governo vai poder defender que a Polícia Federal tolere corrupção, que tolere o crime organizado, que tolere a criminalidade no país. Essas defesas são permanentes independentes de qualquer governo que esteja lá."

"A força do presidente, a nomeação do presidente sempre haverá, mas no Estado democrático de Direito há freios e contrapesos. É isso que nos queremos, autonomia administrativa para nossa direção-geral para que ela possa se manifestar nos momentos de crise sem correr o risco de ser exonerada", ressaltou Paiva.

"O diretor da PF pode ser nomeado pela manhã e exonerado à tarde sem que o governo precise sequer apresentar motivos. Isso não é bom para a democracia brasileira, não é bom para as instituições do Estado brasileiro", disse o presidente da associação de delegados.

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