Na mesma direção trilhada por outras agremiações políticas, o Partido Popular Socialista (PPS) deve trocar de nome e passar a se chamar Cidadania. O encontro que discutirá o assunto está marcado para o dia 23 – coincidentemente, o número da legenda. O pretexto é o de trazer renovação e adequação aos novos tempos, mas a alteração brusca também implica na exclusão da palavra “socialista” da identificação. As cores quentes do logo também devem ser eliminadas da identificação visual do partido.
Político de primeira viagem, o senador Marcos do Val (PPS) foi direto ao ponto. “Tudo tem que ser atualizado. O mundo está mudando. A ideia é se desvincular do socialismo, da imagem vermelha. Acho que tem que se atualizar, a sociedade brasileira não quer mais isso. Tem que ser adaptado. Não significa que conceitos serão perdidos”, afirmou.
Considerado de orientação de centro-esquerda, o PPS surgiu em 1992, a partir do Partido Comunista Brasileira (PCB). Presidente da agremiação no Estado, o deputado estadual Fabrício Gandini minimizou o interesse em fugir do rótulo. Segundo ele, a refundação servirá para assumir uma postura mais liberal e, com ela, poder agregar novas forças.
Entre elas, o Agora e o Livres. Este é um movimento político que fazia parte do PSL, mas abriu mão do partido de Jair Bolsonaro logo após ele se filiar para disputar a eleição. Também está no radar uma fusão com a Rede Sustentabilidade, partido de Marina Silva.
“O partido se mantém ao centro. Não acredito que tenhamos modificação muito forte nessa posição. Estamos nos alinhando mais ao que já é uma realidade há algum tempo. Já não vínhamos mais caminhando com as forças da esquerda propriamente dita, como PT e PSOL. Fomos um dos primeiros que saíram da base de Lula”, pontuou Fabrício Gandini. A sigla defende as reformas trabalhista e previdenciária.
Quando um partido de centro-esquerda é compreendido como comunista, algo está errado. As pessoas satanizaram o pensamento democrático social e colocaram tudo no mesmo saco
OUTROS PARTIDOS
Recentemente, com o profundo desgaste dos partidos junto à opinião pública, a mudança de nome já foi concretizada por alguns partidos. O MDB, tirou o “P” de partido da identidade; o PEN virou Patriota; e o PTdoB virou Avante.
Mas essa mudança no RG é capaz de alterar a percepção do leitor? O cientista político da Universidade Federal de Pernambuco Adriano Oliveira assevera que não. “A mudança do partido não gera nada de imediato. O eleitor não presta atenção. Está atento ao dia a dia dele, quer serviços de qualidade. Quer saúde, educação e segurança”, frisou.
O prefeito de Vitória, Luciano Rezende (PPS), afirma que a mudança não será apenas no nome. Estatuto e práticas também serão revistos, atualizações que ele considera necessárias pois “partidos são instituições do século XX”.
“Não acredito que vá haver imediatamente mudança de posição, mas criar condições para o partido se relacionar melhor com o que pensam as pessoas hoje. Tenho dito que governos e partidos têm que interagir com a população para avançar com os desafios que a humanidade tem”, disse o prefeito.
O deputado federal Josias da Vitória (PPS) também disse que é preciso “evoluir sob as tendências da sociedade”. “Temos membros que são mais liberais, de centro. É uma discussão que vai dar conforto maior a todos os membros”, afirmou.
ENTENDA AS ALTERAÇÕES NAS LEGENDAS
Mudança de nome
Com o amplo desgaste dos partidos políticos, desde as manifestações de 2013, partidos optaram por mudar seus nomes. Alguns optaram por retirar a letra “P”, de partido, da sigla.
Como antigamente
O PMDB puxou a mudança, no fim de 2017. Pressionado por investigações contra seus principais figurões, voltou a se chamar de Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que era como a agremiação se chamava antes de 1980. A mudança foi interpretada como forma de simular uma renovação.
Mesmo caminho
Outras siglas também mudaram a identidade. O PEN virou Patriota; e o PTdoB virou Avante.
ANÁLISES DE ESPECIALISTAS
Não afeta o eleitor
Pesquisas de opinião mostram que partidos não têm credibilidade no Brasil, em sua maioria, e são pouco reconhecidos. A mudança de nome do partido não gera nada de imediato. O eleitor não presta atenção. Ele está atento ao dia a dia dele, quer serviços de qualidade, quer saúde, educação e segurança. Não afeta o desempenho dele. Afeta a densidade eleitoral se ele tiver bom desempenho eleitoral, no Congresso e nas redes sociais.
Adriano Oliveira, cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco
Aparentar algo novo
A identificação partidária no Brasil é ligada a poucos partidos, como o PT. A legenda partidária não é tão importante para o eleitor. Quando o partido muda de nome, o que fica mais aparente é a ideia de tentar conquistar eleitor ou se vender como coisa nova ao eleitorado. São poucos casos. Não temos uma quantidade grande. Outra coisa é os partidos, com a mudança, estarem interessados em dissolução de diretórios ou em atrair novos políticos.
Fernando Guarnieri, professor de Ciência Política do IESP da UERJ