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Dia de Natal

Inconformada com morte do filho, mãe se muda para frente de cemitério

''Mataram o Jean'. A partir dessa frase, minha vida acabou', diz mãe de jovem morto por PM

Publicado em 26 de Junho de 2018 às 10:42

Redação de A Gazeta

Publicado em 

26 jun 2018 às 10:42
Uma dor sem prazo para acabar. Há seis meses, a empresária Simone Otero Lazzarini, 51 anos, sobrevive à perda do filho mais velho, Jean Pierre Otero Lazzarini, 27 anos, que estudava para ser médico como o pai e acabou morto por um policial militar na manhã de Natal do ano passado na praça do bairro Araçás, em Vila Velha. Para a família, a versão apresentada pela polícia — de que Jean estava armado e reagiu após ser abordado pelo PM — não bate com a personalidade do jovem nem com as marcas de tiros que a mãe conta ter visto nas costas dele. Ouça trechos da entrevista.
Na manhã do dia 25 de dezembro, a mãe estava limpando o quintal e tinha passado a véspera de Natal ao lado dos três filhos, quando recebeu os amigos dele em casa e ouviu a frase: "Mataram o Jean". A partir daí, a vida dela e da família se transformou em luto. E uma série de situações torna cada dia muito difícil.
Na tentativa de realizar o desejo do filho, de ser cremado, o corpo de Jean ficou dentro da casa da família, em Praia das Gaivotas, por cinco dias, sob vigília de parentes e amigos. Sem a autorização da Justiça para a cremação, a família teve que optar pelo sepultamento em um cemitério no bairro Ponta da Fruta, em Vila Velha. Diante de toda essa cena, Simone não entra mais na casa onde vivia com o filho. Ela precisou se mudar e passou a morar praticamente em frente ao cemitério. "Atravesso a avenida e vejo o Jean".
Simone, que se preparava para abrir um restaurante em janeiro deste ano, ficou quatro meses sem trabalhar e ainda não abriu o estabelecimento. A saudade do filho é constante, mas grita, principalmente, aos finais de semana e feriados. Em um domingo, com necessidade de falar sobre o que sentia, ela publicou um vídeo na internet. Recebeu mensagens de apoio, experimentou o sofrimento de outras mães e decidiu, com a ajuda do sobrinho, criar a página "Dor" no Facebook, onde fala sobre o caso e posta vídeos e fotos do filho. Em algumas publicações, ela aparece no cemitério, próximo ao túmulo do Jean. 
No dia em que completou seis meses da morte do filho, nesta segunda-feira (25), Simone conversou com a equipe do Gazeta Online. Veja a entrevista. 
Como tem sido a vida da senhora depois dessa perda?
Hoje completam 6 meses. Amanhã (terça - 26), eu viajo para o Peru, porque a minha sogra está passando muito mal. Exatamente porque, como eu, ela está sofrendo. Só que ela é mais velhinha do que eu. E a saúde dela só começou a declinar. Eu tô indo porque quero ter a chance de vê-la viva.
O meu filho Jean tinha três buldogues (Tunica, Palesa e Esparta). Com dois meses que o meu filho tinha sido morto, a Esparta morreu. Ela entrou em depressão profunda, levamos no veterinário, tentamos fazer tudo. Ela simplesmente resolveu nos abandonar. A Palesa e a irmã estão com febre desde que aconteceu o fato. Se as cachorras estão desse jeito, você imagina a mãe.
A minha vida deu uma virada total e o inimaginável aconteceu. O nosso mundo ruiu. Eu tenho mais filhos. O Jean é meu filho mais velho, meu esposo é peruano, é médico, eu sou de São Paulo. Então, a nossa vida era os nossos filhos. O Jean, por ser o mais velho, sempre esteve na frente de tudo, foi meu pilar, meu amigo, meu conselheiro, meu grande orgulho. Meu filho não se preocupava com roupa de marca (choro), meu filho dirigia um Escort velho, um dos primeiros carros que eu comprei aqui. Deu o nome pro carro de "Terror" e dizia que já era um membro da família. Ele fez um período de Direito, fez Arquitetura, Engenharia Civil e conversou comigo há dois anos e seis meses e disse que ia trancar a faculdade para tentar Medicina. Ele me falou que queria fazer porque queria montar uma clínica de dor, para ajudar as pessoas e falava: 'Eu vou ser a aposentadoria do meu pai, minha mãe'. Meu filho era judoca ... Meu filho não era marginal (choro). Meu filho não merecia ter morrido como ele morreu. Ele não merecia, não merecia.
Esparta, a cachorra do Jean que morreu após a morte dele Crédito: Reprodução/Instagram
O que a senhora soube sobre o dia da morte dele?
Foi na manhã de Natal. Umas 10 horas da manhã eu estava limpando o quintal quando tocou a campainha. Atendi e eram três amigos que estudaram com Jean. Cresceram juntos. Eles entraram. Chamei o meu esposo e um deles falou que tinha uma coisa para contar que não era muito boa: 'Mataram o Jean'. A partir dessa frase, minha vida acabou. Eu gritei, chorei. Liguei para o meu filho caçula, me troquei e fui para o IML. 
Recebi o corpo do meu filho ainda quente, morto. Chamei a funerária. Meu acordo com a funerária era preparar e cuidar do corpo do meu filho, mas eu que vou vestir, porque eu que coloquei a primeira roupa nele e vou colocar a última.
Aí quando ele foi para a funerária eu acompanhei. Saía tanto sangue, tanto sangue, que a menina me falou que não tinha condições de preparar o corpo ali. 'Vou ter que mandar para outra funerária'. Ele foi para Serra, para ser tratado lá. Quando deu 8 horas da noite me ligaram, falando que eu podia ir. Eu peguei a roupa dele (choro), para trocar o meu filho, o meu Jean. Meu filho era forte pra caramba, ele me pegava no colo. Ele me carregava com um braço. Eu virei o corpo do meu filho. Eu vi, eu tirei foto, eu filmei os três orifícios nas costas. Meu filho levou três, três disparos de ponto 40. Ele nem viu quem atirou nele. Ele nem sabe porque ele morreu (muito emocionada). Nove e meia nós trouxemos ele para casa. O desejo dele, assim como foi o do meu sogro e da família, era que ele fosse cremado. Começou uma luta judicial de cinco dias. O velório do meu filho durou cinco dias, ele ficou cinco dias em casa. Eu não consegui que nenhum juiz autorizasse, diziam que era um crime bárbaro. Mas estava tudo documentado. No dia 25, eu comprei a porcaria do caixão do meu filho. Hoje eu tenho um advogado que toma conta. Eu sei de tanta coisa, mas eu não posso falar, porque vou atrapalhar as investigações. Cada depoimento que eu sei, traz mais dor, mais revolta. Quando o advogado falar que eu posso, vou colocar o processo na página, porque não é certo, não é justo o que aconteceu, entende?
Entendo. Por conta disso tudo a senhora não pode contar o que sabe sobre como aconteceu a morte do seu filho?
Não posso, mas queria poder.
A senhora trabalha?
Eu tenho uma cozinha. Eu tô montando um restaurante e a inauguração seria no dia 7 de janeiro. Mas, por conta disso, eu fiquei quatro meses parada. Eu voltei tem um mês e meio e o pessoal que trabalha comigo são amigos, então eles entendem eu parar, chorar, porque eu não consigo. Não consigo entrar na minha casa em Gaivotas. Eu mudei de casa. Não consigo andar no bairro. A vida vai continuar como está, mas a dor é constante. É meu filho. O meu filho não era um marginal. Era um garoto bom.
Jean Pierre Lazzarini, 27 anos, morto na pracinha de Araçás, em Vila Velha, no Natal de 2017 Crédito: Reprodução/Facebook
E os seus outros filhos?
O meu filho caçula tá congelado, frio. A minha filha, até os 17 anos, dormia com o irmão. A diferença deles é de dois anos de idade. Ele era o protetor dela. Eles eram muito unidos. No dia 24 eu postei uma foto com os meus três filhos juntos. Na foto eu mando uma mensagem de Natal para os três, falando que eles são uma corrente e que ninguém ia conseguir quebrar essa corrente. Eu postei no dia 24 (silêncio).
Jean, que está em pé, ao lado dos irmãos. Esta foi a última foto que a mãe tirou dos três filhos juntos na véspera de Natal e da morte dele Crédito: Reprodução/Facebook
Agora vocês estão morando em que local?
Em Ponta da Fruta.
E o seu marido, como ele reagiu?
O mundo dele caiu, como o meu. A namorada do Jean está com 43 quilos. Ela simplesmente não consegue fazer nada. Ela dorme e acorda como? Está indo no psicólogo, toma dois remédios controlados. Vou levá-la comigo na viagem, para tentar unir as nossas dores e ter um pouquinho de força. Hoje ele (o marido) toma um monte de comprimidos para o coração, para pressão e envelhece a cada dia. Era o filho mais velho, o grande amor da vida dele. A família foi destruída.
Como foi a ideia de criar a página "Dor"? Alguém ajudou você?
Ponta da Fruta é afastado. A casa, eu digo que não é minha casa, mas do Jean, porque ele adorava flores, jardim, céu... Aí escolhi uma casa, a casa me escolheu, na verdade. Eu fico lá sábado e domingo, praticamente sozinha, porque o meu esposo trabalha pra caramba e os meus filhos também. Aí, em um desses domingos, eu estava querendo conversar, eu precisava falar. E aí sentada no chão, à frente da mesinha da sala, eu gravei o primeiro vídeo. Gravei e postei. Foi tudo muito automático. Não foi aquela coisa pensada. Foi muito espontâneo. Rapidamente, eu recebi muitas mensagens. Muitas pessoas entram em contato comigo, que passaram por situações semelhantes e se compadecem, se emocionam. Outras que trazem mensagens bonitas. Aí decidi continuar. Todos os domingos eu tô fazendo um vídeo. Como eu não tenho condições de parar, de ficar postando, respondendo, porque eu não consigo, eu tenho um sobrinho que me ajuda. Quem cuida da minha página é ele.
Jean Pierre Otero, 27 anos, no Morro do Moreno, em Vila Velha Crédito: Reprodução/Facebook
A senhora sente um pouco de alívio ao dividir a sua dor?
Olha, eu não sei, sinceramente. É tudo muito pesado. O que dá uma força são exatamente as pessoas. O que dá uma força para continuar é descobrir que um monte de mães está passando pelo o que eu estou passando. Elas sofrem como eu e não adianta, as pessoas se afastam de você. Para conversar, conviver com você e te entender, ela tem que compartilhar da sua dor. Senão, é muito chato. Essa mulher só chora.
Dizem: Reage, você tem outros filhos. Eu falo: Arranca uma perna tua para você ver como você vai ficar. O ser humano, a mãe não tem um botãozinho que você liga e desliga. Então nessa parte a página tem sido muito boa. Existe uma troca.
Aliviar o meu coração, não alivia, porque não tem nada que vai fazer aliviar isso. Quem sabe uma justiça realmente. Talvez, quem sabe, que o culpado por isso pague pelo pecado dele. Talvez. Eu teria que acreditar na nossa Justiça. Eu sou bacharel de Direito e tive nojo do meu curso quando me deparei com a situação.
O inquérito ainda não foi concluído?
Não. Nós estamos acompanhado as investigações.
O Jean passou o Natal com a família?
Passou. A nossa árvore é feita com fotos. Eles montaram a árvore com oito cartolinas, desenharam a árvore, colaram as fotos. Jantamos, estava um casal de amigos com o filhinho, meus filhos e meu esposo. Nós comemos, nem uma champanhe eu estourei, eu não tomei um gole de álcool nessa noite. Aí ele foi para o quarto, ficou massageando as costas do pai. Chamei ele para tirar uma foto, porque eu sempre tiro uma foto dos meus filhos juntos. Nunca passamos um Natal separados. Podíamos passar outras datas, mas o Natal para nós era sagrado. 
Tirei a foto dos três. Aí ele falou pra mim que ia dar uma volta. Acompanhei o meu filho até a porta de casa, como eu sempre fazia. Ele parou com a mão fechada na minha frente. Eu estendi a palma da mão, porque sempre quando eu fazia isso, ele me dava alguma coisa. Achei que fosse me dar um bombom, uma bala. Ele me deu um pingente de uma bruxinha. Me abraçou, me abraçou e disse que eu era a bruxinha dele. Eu fique segurando e vendo o meu filho entrar no carro e ir embora. Depois disso, eu trouxe ele morto para casa.
Pausa.
Eles falaram que o meu filho estava no meio da praça gritando que ele mandava ali. Quando eles alvejaram o meu filho, o amigo que estava com ele veio gritando "Para, para, vocês estão matando um inocente". Na hora afastaram todo mundo, chegaram seis viaturas. Quando ele alvejou o meu filho, levantou a arma para cima e gritou: "É um a menos". Eles estavam bebendo desde 11 horas da noite. Como que um policial militar vai para uma festa levando uma ponto 40 na cintura? Como? Eu já falei o nome dele em um vídeo e recebi várias mensagens perguntando se eu não tinha medo do que pode acontecer comigo. O meu sobrinho está arquivando tudo.
O policial está solto?
Sim. Ele continua trabalhando.
Simone, eu vi que você posta vídeos do cemitério. A sua mudança para Ponta da Fruta tem alguma relação?
Atravesso a avenida e vejo o Jean. Hoje mesmo eu comprei uma imagem da Sagrada Família e vou lá colocar porque vou ficar uns dias fora. Eu vou lá praticamente todos os dias, não só nos domingos. Quando venho para a minha casa, paro e converso com ele e aí eu vou para casa. Nem preciso de carro, vou andando. Atravesso a rua e chego onde ele está.
A senhora se mudou para ficar mais perto dele.
Foi.
Imagem do dia da morte do Jean Crédito: Carlos Alberto Silva
O CASO
Jean Pierre foi morto na manhã de Natal, em uma confraternização no bairro Araçás, em Vila Velha. De acordo com um morador, que não quis ser identificado, a festividade é tradição no bairro. Após a ceia, é comum os moradores se reunirem na praça, com bebidas e caixas de som.
Era por volta de 7h quando a vítima, que estava, de acordo com a polícia, com uma arma na cintura, foi abordada por um policial que não estava fardado. De acordo o policial, Jean Pierre teria reagido a uma abordagem e, por isso o PM teria atirado três vezes contra o jovem. Como os tiros foram nas costas, a família suspeita da versão dada pela polícia.
De acordo com a cunhada de Jean, existe uma outra versão para os fatos que aconteceram na manhã desta segunda-feira (25). “Disseram que o carro do Jean bateu no carro do policial. O policial saiu do carro, começando uma confusão. Nessa hora o Jean virou de costas e saiu de perto”, contou Kelly Mata. Ainda segundo Kelly, depois da discussão, o PM teria saído da festa e, depois, retornado com alguns amigos, iniciando toda a confusão que terminou na morte de Jean.
Uma testemunha que estava no local e não quis se identificar disse que Jean teria caído ainda com vida no chão da pracinha, mas que o Samu demorou a ser acionado. A testemunha disse ainda que, devido à falta de socorro, Jean Pierre teria ficado na praça agonizando por cerca de 30 minutos.
POLÍCIA MILITAR
Demanda pelo Gazeta Online, a Polícia Militar respondeu que o policial continua exercendo suas funções profissionais. "As apurações decorrentes do processo investigatório subsidiarão o poder judiciário durante o julgamento do fato típico. Paralelamente, a Corregedoria da PMES avaliará quais medidas administrativas serão adotadas após o término das investigações", concluiu a nota.
POLÍCIA CIVIL 
Por meio de nota, a Polícia Civil informou que o caso segue sob investigação da Delegacia de Crimes Contra a Vida (DCCV) de Vila Velha. Informações adicionais, ainda, não serão passadas para não atrapalhar a apuração do fato.

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