Após um dia de trabalho, uma promotora de vendas voltava para casa quando foi abordada, jogada no chão e teve sua bicicleta elétrica roubada na Avenida Carlos Lindenberg, no bairro Ataíde, em Vila Velha. O caso aconteceu em abril deste ano, mas está longe de ser isolado. Segundo os dados do Observatório da Segurança Pública do Espírito Santo, o Estado registrou 679 ocorrências de furtos e roubos de bicicletas elétricas entre janeiro e agosto de 2026, contra 177 no mesmo período do ano passado.
O número representa um aumento de 283,6% e significa que os registros ficaram 3,84 vezes maiores nos oito primeiros meses deste ano em comparação com o mesmo período de 2025.
O painel de bicicletas elétricas do Observatório detalha as ocorrências mês a mês. Em janeiro deste ano, foram registrados 52 casos; em fevereiro, 53. O número aumentou ao longo dos meses e atingiu o pico em julho, com 144 ocorrências. Afinal, o que explica esse crescimento?
Para o delegado Fábio Simas, titular do 2º Distrito Policial de Vitória, o aumento está relacionado à maior quantidade de bicicletas elétricas circulando nas ruas.
“Foi como o que aconteceu na pandemia: com as pessoas dentro de casa, os crimes virtuais dispararam. Hoje, com a grande quantidade de bicicletas nas ruas, eles veem essa facilidade em subtrair e acabam vendo uma forma de alcançar algum dinheiro, seja revendendo por um preço bem mais barato ou repassando as peças”, destacou.
Segundo o delegado, o fenômeno não é exclusivo do Espírito Santo. “Acontece em âmbito nacional. Nas grandes capitais isso virou uma febre, porque essas bikes proporcionam uma facilidade para o cidadão na mobilidade urbana.”
Foi justamente para facilitar a locomoção até o trabalho que a promotora de vendas comprou a bicicleta. Ela havia adquirido o veículo em dezembro e parcelado o pagamento em 18 vezes.
“Eu até costumava sair mais cedo do serviço por medo de assalto. Quando eu estava passando, um rapaz saiu do mato e parou na minha frente. Eu fiquei estática”, lembrou a vítima, que não será identificada por segurança.
O suspeito, que aparentava ter cerca de 20 anos, nem esperou que ela descesse da bicicleta. “Ele me arremessou no chão e eu caí no asfalto. Fiquei toda ralada, com escoriações no punho, no quadril, tive que tomar medicamento por causa das dores”, relatou.
Acho que esse trauma não vai sair tão cedo da minha vida
X Promotora de vendas vítima de assalto
Quando uma motocicleta ou um carro é roubado ou furtado e a vítima registra a ocorrência, a placa passa a constar nos sistemas de segurança. Dessa forma, os agentes podem identificar o veículo em uma abordagem, blitz ou até mesmo por meio de sistemas de videomonitoramento.
As bicicletas elétricas, porém, não contam com esse tipo de identificação externa.
“Você abordar uma moto ou carro que possui uma placa de identificação é uma situação, porque ali você pode verificar se o veículo é fruto de algum ilícito. Em relação às bicicletas é um pouco mais complicado porque elas não têm uma identificação, então a polícia encontra esse obstáculo. É uma situação que tem que ser debatida para que haja um meio de fazer essas abordagens”, ponderou o delegado.
Apesar de não terem placas, as bicicletas elétricas possuem número de série, que pode ser utilizado para identificar o veículo em caso de furto ou roubo.
“O que a gente orienta às pessoas que têm a bike roubada é que, na hora de efetuar o registro na delegacia, não deixem de informar o número de série da bicicleta. É um identificador, como se fosse uma placa, porém fica embutido no chassi ou embaixo do guidão”, explicou o delegado.
Além do registro da ocorrência, a orientação é comunicar o crime imediatamente pelos canais de emergência e denúncia, como o 190 e o 181, para que a polícia possa intensificar as buscas e as investigações.
Entre as orientações da Polícia Civil, estão o uso de cadeados e travas nas rodas, além de rastreadores e GPS. “E o mais importante: não reagir em caso de abordagem. Além disso, assim que acontecer o delito a pessoa deve procurar a polícia”, finalizou o delegado.
Para o pesquisador em Segurança Pública e professor Rusley Medeiros, uma série de medidas pode ajudar a frear o aumento dos furtos e roubos de bicicletas elétricas.
O primeiro ponto, segundo ele, é a atuação preventiva das forças de segurança, com abordagens e fiscalização das bicicletas.
“Além disso, são necessárias estruturas urbanas, públicas e privadas, capazes de suportar e garantir a segurança de quando se estaciona essas bicicletas. Também é preciso o investimento, por parte dos proprietários, em cadeados e sistemas de segurança efetivos e robustos; rastreamento são fundamentais”, destacou o professor.
Outro ponto envolve os fabricantes. Segundo o pesquisador, as empresas poderiam investir em sistemas capazes de inutilizar o motor ou a bateria das bicicletas quando elas fossem reportadas como furtadas ou roubadas, de maneira semelhante ao que ocorre com celulares por meio do International Mobile Equipment Identity (IMEI).
“Contratar um seguro também é importante. Além disso, a Polícia Civil precisa atuar fortemente no combate à receptação, pois sem a compra de produtos sem procedência a atratividade desse crime diminui”, comentou Rusley.