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Marcelo DSalete

'O racismo é parte da estrutura do país', diz Marcelo D'Salete

Um dos mais importantes nomes dos quadrinhos nacionais, o professor Marcelo D'Salete vem ao Estado participar de seminário e fala sobre a importância da educação para superar o preconceito
Redação de A Gazeta

Publicado em 

24 ago 2019 às 23:31

Publicado em 24 de Agosto de 2019 às 23:31

Dono de uma voz calma e pausada, o quadrinista e ilustrador Marcelo D’Salete usa sua arte para escancarar o racismo no Brasil. Professor e mestre em História da Arte pela Universidade de São Paulo (USP), D’Salete costuma usar cenas do cotidiano e notícias de jornal para produzir seus trabalhos.
Isso aconteceu no livro “A Encruzilhada”, publicado a primeira vez em 2011 pela Barba Negra. A segunda edição, da Veneta, é de 2016, com uma nova história chamada “Risco”.
O trabalho foi idealizado após o relato de um funcionário da USP espancado por seguranças de um supermercado, acusado de roubar o próprio carro.
“Os seguranças avaliaram que ele ia roubar o próprio carro. Eles prenderam o rapaz negro numa sala. Lá, ele foi espancado e perdeu vários dentes.”
No próximo sábado (31), o quadrinista visita o estado pela primeira vez para ministrar a palestra “Narrativas Gráficas e Narrativas Negras: Produção de imagens, história e representatividade”. Será às 18h, no Centro Cultural Sesc Glória, em Vitória.
O encontro faz parte do Seminário de Ilustração e Narrativas Visuais (Sinav). O evento começa sexta-feira (30) e vai até domingo (1º). A entrada é gratuita.
O quanto o racismo, percebido e contado em “A Encruzilhada”, está impregnado no Brasil?
O livro trata de cidade grande e periferia. De certo modo, da maneira de jovens periféricos e negros viverem numa grande cidade, dos conflitos que surgem a partir dessas diferenças, de vivências que passam pela discriminação social e racial. No livro “Encruzilhada” há uma história com o mesmo nome da publicação. Ela mostra um rapaz negro e sua família indo para um supermercado. Neste local, ele é confundido com um ladrão. Os seguranças avaliaram que ele ia roubar o próprio carro. Eles prenderam o rapaz negro numa sala. Lá, ele foi espancado e perdeu vários dentes. Eu ouvi esse relato e achei que seria muito oportuno trazer essa história no formato de quadrinhos, não somente para explicitar esse tipo de conflito, mas também para tentar pensar em formas de superar esse problema. É claro que conhecer mais sobre isso é uma das etapas para você conseguir superar esse tipo de opressão. O racismo é parte da estrutura do Brasil e é parte estruturante do Brasil atual também.
Como esse racismo opera?
Ele opera no sentido de deixar grande parte da população negra na base da pirâmide social. Ele reelabora as antigas formas de exclusão e de aplicação de uma violência sistemática contra esses corpos negros periféricos. Ele transforma isso no imaginário de normalidade brasileira. Grande parte da sociedade não considera isso, infelizmente, ainda hoje, um problema. Ainda hoje vemos números altíssimos de jovens negros assassinados e não conseguimos deter este problema. Infelizmente, notamos hoje propostas políticas que tendem a agravar ainda mais esse tipo de situação. Propostas de assassinato sistemático do outro, fruto de uma política obscura, violenta e autoritária contra os setores mais frágeis da sociedade.
Na sua opinião, de que forma o governo pode desenvolver políticas públicas que contribuam para informação ou reeducação do povo quanto ao preconceito racial?
Em minha opinião, como artista, professor e cidadão, considero que precisamos criticar e cobrar do governo políticas específicas e também gerais para diminuir essas mazelas sociais. Políticas que visem diminuir a desigualdade entre os grupos sociais e garantir o máximo de oportunidades para pessoas nas condições mais desfavoráveis da nossa sociedade. É claro, isso passa também pelo aprofundamento da discussão sobre o que foi a nossa história, sobre como até hoje nós ainda vivemos uma lógica de discriminação e opressão. Somente discutindo mais sobre esses assuntos e, é claro, com uma agenda contundente de ação contra esses problemas, é que podemos vislumbrar uma sociedade um pouco mais justa. Quando negamos que esse tipo de problema existe, estamos somente perpetuando as antigas formas de opressão do Brasil colonial ainda nos dias atuais.
Você acredita que essa discussão faz parte da agenda política atual?
Tento acreditar que o governo é uma instituição em disputa. Nós temos diversos grupos em debate dentro do governo. Embora, se focarmos a cúpula maior do governo, está evidente que eles não têm interesse em diminuir a desigualdade e, de fato, pensar numa sociedade melhor em termos de distribuição de renda e equidade. O governo atual, uma parte dele, com as políticas que vem implementando, objetiva, infelizmente, o agravamento dessa desigualdade. Esse tipo de pauta retrógrada, desalinhada com os interesses de grande parte da população e do mundo, tende a ser desacreditada. É relevante que a sociedade civil saiba discutir e criar a sua agenda política, com suas proposições, contra um governo que se apresenta incapaz de conseguir pensar o que é o Brasil para além dessa forma ignorante de destruição e morte.
Na sua condição de professor, como avalia a importância da educação nesse processo de desconstrução do racismo institucional?
A educação tem um papel essencial em uma transformação social. É importante compreendermos que a educação por si só não é capaz de mudar a sociedade, não é capaz de desconstruir esse racismo institucional que nós temos hoje, isso depende de ações articuladas que vêm da sociedade civil, de políticas, de discussões sendo feitas em diferentes instituições. Agora é certo que não conseguiremos essa desconstrução, deixando de lado a educação. Ela é um componente relevante e indispensável para repensarmos a sociedade.
Em que momento da vida passou a se interessar pelos quadrinhos?
Me interessei pelos quadrinhos desde muito cedo. Leio quadrinhos desde 5, 6 anos, tenho uma relação muito forte com essa mídia e isso acabou fazendo com que na adolescência eu escolhesse trabalhar com quadrinhos efetivamente, mesmo que não fosse a minha profissão principal. Muito disso tem uma influência grande dos locais por onde eu passei: o colégio Carlos de Campos (SP), onde havia grupos de quadrinistas, grafiteiros e de artistas muito instigantes; o curso de artes plásticas e coletivos de quadrinistas.
Que tipo de influências contribuem para o seu processo de produção?
Meu processo de criação acaba sendo, hoje em dia, razoavelmente tradicional: começa por realizar trabalhos de pesquisa sobre determinado tema; depois a pesquisa mais detalhada; a escrita do roteiro; após os esboços iniciais, pesquisa de imagens e finalmente o desenho final. Tenho formação em um curso de design gráfico no Colégio Carlos de Campos, no Centro de São Paulo, e na Universidade de São Paulo, no curso de Artes Plásticas e depois no mestrado em Estética e História da Arte. As minhas influências vem de diversas áreas. Sou leitor de quadrinhos, mas tenho muito interesse em música. Tive influência fortíssima do rap. Gosto muito de ouvir trabalhos do Sabotage, RZO, Racionais, Rincon Sapiência, Criolo. A gente tem uma geração atual muito boa dentro da área da música e rap nacional. Além disso, na literatura, artistas como (Bertold) Brecht, Plínio Marcos, Toni Morrison, Luis Fulano de Tal etc. No cinema tem o Kleber Mendonça, Sergio Bianchi, Spike Lee, Michael Haneke, Takeshi Kitano, Jordan Peele e vários outros autores. E claro, nos quadrinhos, Laerte, Marcelo Quintanilha, Rafael Coutinho, André Diniz, Hugo Pratti, Peter Kuper, Tayio Yamamotu, Katsuhiro Otomo...
Com “Angola Janga” você recebeu o prêmio HQMIX (2018), o prêmio máximo dos quadrinhos no Brasil. Lançado em 2014, “Cumbe” ganhou o Eisner (2018), maior prêmio de quadrinhos do mundo, na categoria Melhor Edição Americana de Material Estrangeiro. De que trata “Cumbe”?
Cumbe significa sol, luz e força. É uma palavra de origem do quimbundo, uma língua da região de Angola. O livro trata do Brasil colonial e de diversos africanos que vieram para cá forçadamente. Ele aborda o Brasil colonial a partir das perspectivas desses africanos dentro do contexto da escravidão. A ideia foi resgatar a humanidade daquelas pessoas e as suas estratégias para conseguir sobreviver dentro de um sistema tão perverso.
A participação no Seminário de Ilustração e Narrativas Visuais será sua primeira vez no Espírito Santo?
Essa é a minha primeira vez no Espírito Santo. Tenho muito interesse em conhecer o local e espero que seja uma ótima viagem e troca com o público. Poderei falar um pouco sobre as minhas últimas publicações e também devo participar de uma oficina sobre quadrinhos.
 

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