Alfabetizada pela própria mãe aos 5 anos de idade, a menina Luíza Eleotério dos Anjos, de 18 anos, vai voar para longe. Filha de catadores de materiais recicláveis, a estudante de escola pública conquistou uma bolsa de estudos para cursar inglês no exterior.
Luíza era aluna da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Clóvis Borges Miguel, em Serra-Sede, onde conheceu um programa do governo que oferecia curso de inglês e espanhol para estudantes da rede pública. Não demorou muito e ela logo se inscreveu no cursinho de inglês.
"Meus pais sempre trabalharam muito para que eu pudesse só estudar. Por isso, sempre me dediquei ao colégio e a tudo que tive oportunidade de fazer, como esse curso de inglês, contou a menina.
Em 2019, Luíza cursou o último ano do ensino médio e tentou a prova para fazer curso de línguas em outro país. O exame contou com uma primeira fase escrita e a segunda de prova oral. Na bolsa de estudos estão incluídos estadia, passagens e alimentação. Ainda não foi definido, mas as opções para a estudante de sorteio são o Canadá, Estados Unidos ou Inglaterra. Serão três meses de muito aprendizado. Outras três alunas do colégio Clóvis Borges também foram selecionadas para estudar no exterior.
A menina que conquistou uma vaga para estudar inglês no exterior cresceu vendo os pais Alvanete da Silva Eleotério dos Anjos, de 46 anos, e Ubirajara Pereira dos Anjos, de 52, trabalhando muito. Os dois são catadores de materiais recicláveis e sempre prezaram pela educação da filha. Alvanete conta como recebeu a notícia da bolsa da filha. "Esperávamos que ela conseguiria, mas sempre fica aquela ansiedade. Sempre foi dedicada aos estudos e alcançou essa bênção. Sei que se fosse olhar por nosso recurso financeiro, nunca poderíamos pagar um curso de inglês, quem dirá ir cursar fora do país", observou a mãe.
Alvanete e Ubirajara fazem integram a Associação Banco Regional Ambiental Solidário (Abrasol), uma cooperativa de catadores de materiais do lixo que podem ser reaproveitados. A cooperativa existe desde 2010, gera uma renda média por trabalhador de até R$ 500 e funciona no bairro Planalto Serrano, na Serra. São plásticos, papelões e outros materiais que são separados e prensados para serem vendidos para empresas de reciclagem.
Mesmo com o trabalho árduo e até de dupla jornada no caso de Ubirajara que também trabalha como vigilante , os pais de Luíza forneceram bem mais que estrutura para que ela pudesse estudar. Eles deram presença. "Costumo acompanhá-la em tudo que ela precisa: inscrição no Ifes, reuniões, plantões pedagógicos, provas de seleção. Acredito ser importante o apoio e a presença dos pais, dando força. O pai dela e eu sempre a incentivamos, não temos recursos financeiros para estar repassando para ela, mas temos apoio, amor e carinho", conta Alvanete, que nunca permitiu que a filha trabalhasse para que a menina se dedicasse aos estudos.
Luíza fez a prova do Enem em 2019 e vai tentar Biomedicina no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) de Vila Velha. Apesar da pouca idade, ela tem certeza que todas as conquistas são graças a luta diária dos pais. "Eles trabalham muito, são minha motivação, me impulsionam. Quero conseguir várias coisas e poder fazer o que precisar dentro de casa, dar orgulho para eles. É tão importante para mim quanto para eles essa viagem", completou a sorridente jovem.