Penha: o nome da devoção capixaba

Confira no Penhômetro, ferramenta preparada por A Gazeta, o número de pessoas batizadas como o mesmo nome da padroeira do Espírito Santo. Estado, aliás, é o campeão de registros no país

Reportagem: Aline Nunes e Mikaella Campos

O Espírito Santo é líder em registros de pessoas cujo nome ou sobrenome é Penha, proporcionalmente ao número de habitantes, conforme dados do Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).  São mais de 11 mil capixabas chamados Penha, Maria da Penha, Rosa da Penha, José da Penha, entre outras combinações que carregam um dos nomes atribuídos a Nossa Senhora — e que é a padroeira do Estado.

Mas esse é um indicador da atualidade. Por aqui, já nasceram mais de 44 mil pessoas que foram batizadas apenas como Penha  ou que tinham esse nome na composição de sua identidade. E os primeiros registros levantados datam do final do século XIX, segundo pesquisa do Sindicato dos Notários e Registradores do Estado do Espírito Santo (Sinoreg-ES) produzida a pedido da reportagem.

Diante desses números e para marcar as comemorações dedicadas à santa durante a Festa da Penha, A Gazeta preparou uma ferramenta — o Penhômetro — que ajuda a contar um pouco da história desse "nome santo" ao longo do tempo, indicando municípios e datas em que esteve mais em evidência em território capixaba. 

Batidas da fé: a força dos tambores do congo na Festa da Penha

Os primeiros bebês foram batizados como Maria da Penha em 1890: três em Cachoeiro de Itapemirim, um em Viana e um em Conceição do Castelo. Naquele mesmo ano, outras duas crianças de Viana tiveram Maria da Penha no registro, mas começando com outro nome, e mais seis no mesmo município apenas com Penha na identidade.

(Veja os dados por cidade no fim da reportagem)

Os batismos com o nome Penha — composto ou não — aumentaram gradativamente, mas apenas em 1930 passaram de 100. O crescimento mais substancial foi observado depois de 1943, quando Nossa Senhora da Penha se tornou padroeira do Espírito Santo. O boom ocorreu na década de 1960, época em que já havia se consolidado a tradicional Romaria dos Homens e, pouco antes, tinha sido criado um hino em homenagem à santa.

Os pais de Maria da Penha Costa se casaram no Convento e ela foi batizada em homenagem à Nossa Senhora. (Acervo pessoal)
Os pais de Maria da Penha Costa se casaram no Convento e ela foi batizada em homenagem à Nossa Senhora. (Acervo pessoal)

HISTÓRIAS DE DEVOÇÃO

A aposentada Maria da Penha Martins Sales conta que, quando nasceu, praticamente foi desenganada pelos médicos e foi mandada para casa porque tinha saúde muito frágil e não deveria resistir. Devota de Nossa Senhora da Penha, a mãe decidiu procurar uma igreja para batizar a filha antes de uma súbita morte e, ali, fez uma promessa: caso a menina melhorasse, ganharia o nome da santa. Hoje, aos 68 anos, Maria da Penha segue os mesmos passos de fé.

"A gente morava na roça, em Afonso Cláudio, e o médico mandou minha mãe me levar embora para morrer em casa porque não tinha mais jeito. Ela, então, passou na igreja, pediu ao padre para me batizar e fez a promessa. Nossa Senhora foi minha intercessora junto a Jesus e é minha madrinha de batismo", conta.

Na família da artesã Maria da Penha Costa, 72 anos, era a avó que mantinha uma forte devoção à padroeira do Espírito Santo. Tanto que o casamento da filha foi realizado no Convento. Saíram de uma cidade no interior de Minas Gerais para a cerimônia. "E foi feita uma promessa para que a primeira neta recebesse o nome em sua homenagem. Foram dois meninos e eu, a filha do meio, fui batizada cumprindo o prometido", ressalta. 

Maria da Penha Martins Sales considera a padroeira do Estado sua madrinha de batismo. (Acervo pessoal)
Maria da Penha Martins Sales considera a padroeira do Estado sua madrinha de batismo. (Acervo pessoal)

A crença familiar foi o que também levou o biólogo José da Penha Rodrigues, 61 anos, a receber o nome composto numa referência à Nossa Senhora. Os pais dele, muito devotos, decidiram que, se tivessem uma menina, ela seria chamada Maria da Penha e, se fosse menino, José da Penha. Embora hoje seja evangélico, o biólogo valoriza a história por trás da sua identidade.

“Eu respeito a crença de cada um e todas as religiões. Deus é um só. Minha mãe e meu pai, até hoje, participam das celebrações (de Nossa Senhora) ”

José da Penha Biólogo

A reverência a Nossa Senhora se mantém forte no Espírito Santo, a exemplo dos milhares de fiéis que se reúnem todos os anos durante as celebrações da Festa da Penha, mas já não se traduz em batismos. Em 2026, apenas uma criança recebeu o nome de Maria da Penha, pelos registros do Sinoreg-ES até o final de março.

Essa queda vem sendo observada nas últimas décadas, mas ganhou mais expressão a partir de 2006, ano em que foi instituída a Lei Maria da Penha e o nome acabou recebendo uma conotação diferente, já que a legislação trata de violência contra a mulher. 

Infográficos: Mikaella Campos

Vídeo customizado: Camilly Napoleão

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