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Caroline Freitas/Arte:
Jovens x preços altos

A geração que passou a conhecer só agora o que é inflação

Além da perda do poder de compra, a inflação também tem impacto na qualidade de vida de jovens adultos, que precisaram rever uma série de hábitos e trabalhar cada vez mais para conseguir fechar as contas no fim do mês

Caroline Freitas

Repórter

Publicado em 12 de Junho de 2022 às 08:20

Publicado em

12 jun 2022 às 08:20
Janquieu Pereira, Amanda Lyrio e Kethellyn Lorrayne Otto da Silva fazem parte da geração que conheceu agora o peso da inflação
Janquieu Pereira, Amanda Lyrio e Kethellyn Lorrayne Otto da Silva fazem parte da geração que conheceu agora o peso da inflação Crédito: Caroline Freitas/Arte:
A escalada de preços fez a vendedora Kethellyn Lorrayne Otto da Silva, 26 anos, cortar despesas e mudar uma série de hábitos de consumo. Além de precisar trabalhar mais para pagar as contas, a moradora de Vitória explica que parou de usar o cartão de crédito e precisou substituir uma série de alimentos na hora de ir ao supermercado.
“Eu era autônoma, mas não deu pra continuar. Tive que voltar a trabalhar no shopping, estou fazendo horas extras e me desdobrando como posso para pagar as contas. Mas nem sempre fecha. A cada mês, as contas vêm mais altas. E o salário não aumenta. Parei de usar o cartão de crédito porque não sei se, no mês que vem, vou ter dinheiro para pagar. Agora só compro quando tenho o dinheiro em mãos.”
Além da perda do poder de compra, a inflação também teve impacto na qualidade de vida da vendedora.
"Para pagar as contas, estou tendo que trabalhar ainda mais, e, por causa disso, durmo menos, tenho menos tempo com a família, tenho menos tempo para fazer minhas coisas em casa. Não é só no bolso que pesa"
Kethellyn Lorrayne Otto da Silva - Vendedora
Não se trata de um caso isolado. A situação enfrentada por Kethellyn é a mesma de outros jovens adultos brasileiros, que veem a independência que mal conquistaram já começando a se esvair.
Quem nasceu na década de 1980, ou antes disso, tem boa memória sobre o peso da inflação. Mas para as novas gerações, que, até então, não haviam convivido com um período em que os preços subiram tão exageradamente, de forma prolongada e dispersa, trata-se de uma incômoda novidade.
Não houve alívio desde que a inflação voltou a atingir a casa dos dois dígitos em 2021. Em doze meses o IPCA (indicador da inflação) acumulado já chega a 12,13% no país, de acordo com os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nos municípios da Grande Vitória, as altas vão além e chegam a 12,45%.
Mas essa é a média. Em casos extremos, como é o caso da cenoura, a alta pode ultrapassar 300%. O legume, que ganha ares de item de luxo, porém, ainda tem peso bem menor no orçamento do que outras despesas prioritárias, como o gás de cozinha e a energia elétrica, que subiram, em média, 31% na região metropolitana. Somam-se ainda a taxa de água e esgoto (12%), aluguel (8%), e muitos outros gastos.

12,45%

É A INFLAÇÃO ACUMULADA EM 12 MESES NA GRANDE VITÓRIA
O aumento de preços é uma preocupação para Amanda Lyrio, de 21 anos. Mãe de Derick, de 1 ano, ela vive com uma mãe acamada em casa e desdobra-se em vários empregos para conseguir arcar com despesas básicas.
“Trabalho como operadora de vendas, em home office. Preciso fazer isso por causa do meu filho e da minha mãe, mas não consigo o rendimento de um emprego fixo porque sou freelancer. Também faço bicos de recreação e monitoramento de festas infantis. Só com um emprego não daria. O valor das coisas só aumenta e a cada dia fica mais difícil pagar as contas.”
A inflação é percebida com desânimo pelo técnico de logística Janquieu Pereira, 31. Ele conta que, nos últimos meses, precisou fazer uma série de mudanças em sua rotina por causa do aumento do custo de vida.
"O lazer praticamente não existe mais, qualquer saída hoje é muito mais planejada do que antes. Também saio cada vez menos de carro, acabo optando pelo ônibus. Ainda assim, até mesmo os gastos básicos às vezes não são totalmente supridos"
Janquieu Pereira - Técnico de logística
Ele não está sozinho. Mais da metade da população brasileira precisou cortar despesas nos últimos seis meses, de acordo com pesquisa encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) à FSB Pesquisa, que indica ainda que 54% das pessoas consideram estar em situação financeira muito afetada pela alta generalizada de preços.
Data: 13/06/2008 - Charge: Arroz - Editoria: Cidade - Autor: Arabson - GZ
Inflação que tira o poder de compra da população Crédito: Arabson /Arquivo A Gazeta

O que é inflação

​A inflação nada mais é que o aumento dos preços de bens e serviços, que implica em diminuição do poder de compra. Ela é medida pelos índices de preços, sendo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) o mais comum. A inflação pode ter várias causas, conforme explica o Banco Central. Elas podem ser agrupadas em: pressões de demanda, pressões de custos, inércia inflacionária e expectativas de inflação.​

OS CAMINHOS PARA SE PROTEGER DA INFLAÇÃO

Há algumas décadas, vivia-se o caos da hiperinflação, ou seja, uma inflação extremamente fora do controle, que fazia com que preços dobrassem em meros dias. A situação agora é diferente, mas ainda inspira diversos cuidados.
Na avaliação do diretor do IBEF Academy, Gabriel Meira, a inflação veio para ficar, pelo menos por enquanto. O pós pandemia gerou um desequilíbrio nas cadeias de produção e, somando-se a isso, a guerra entre Rússia e Ucrânia desencadeou novas altas, que afetam desde o preço do pão ao combustível.
“Temos um mundo cada vez mais globalizado. Com a Rússia entrando em guerra, por exemplo, faltam fertilizantes para utilizar nas lavouras. Um país impacta o outro e vemos uma falta global de suprimentos. Isso é nível mundo. Com a injeção de dinheiro que tivemos na pandemia também tende a haver uma inflação maior, que leva a taxas de juros mais altas. Isso tudo pressiona a taxa inflacionária, e imagino que somente no ano que vem teremos algum alívio.”
Embora a situação penalize a todos, Meira pondera que são os jovens, que estão iniciando agora a vida profissional, que mais enfrentam dificuldades. Dependendo da área de atuação, o salário-base não supre as necessidades, tornando inviável, por exemplo, morar sozinho. “Para os jovens inseridos em áreas como tecnologia, por exemplo, o salário é mais alto, mas por falta de mão-de-obra.”
Com a inflação elevada, as taxas de juros também sobem, o que afeta contratos de financiamento, empréstimos, entre tantas outras questões. Diante disto, a professora dos cursos de Administração e Ciências Contábeis da FAESA, Josiane Haese, reforça que o cenário exige algumas mudanças de hábito para evitar agravar ainda mais a situação já delicada.
“Evitar o endividamento já é um grande passo, pois os serviços ofertados pelas instituições financeiras têm suas taxas elevadas nesse período. Agora, em relação a redução de custos, uma saída é a negociação de indexadores de contratos, como por exemplo, o contrato de aluguel, que é corrigido por índices afetados pela inflação. A tentativa de negociar o reajuste anual vale a pena.”
A especialista Josiane Haese também orienta para que haja uma revisão de hábitos de consumo. Se o jovem possui o hábito de pedir comida por aplicativo, vale a pena repensar e cozinhar em casa. “É só fazer a conta, a diferença é grande. Para quem possui veículo, evitar gastos com combustível também faz a diferença, a depender da quantidade de pessoas na corrida e finalidade de locomoção, dividir o valor de uma corrida por aplicativo torna-se uma opção mais vantajosa.”
Ainda assim, a professora reforça que nunca foi tão importante o jovem entender sobre investimentos, principalmente para proteger seu patrimônio, caso o tenha.

DICAS PARA CONTORNAR A INFLAÇÃO

Planeje os investimentos

Ter um consumo mais consciente e buscando bem/serviços alternativos que não tenham sofrido tanta oscilação nos preços;
Busque vantagens para quitar débitos em atraso. Em alguns casos, é possível migrar a dívida de uma instituição financeira para outra
Iniciar uma reserva de emergência para estar preparado para um cenário mais adverso;
Para quem tem investimentos, olhar se a rentabilidade dos seus investimentos está acima do inflação. É importante ter ativos na carteira que paguem juros reais, juros acima da inflação, um exemplo de investimentos são os títulos que remuneram IPCA + taxa fixa.
A economista e porta-voz regional da XP, Cecília Entringer Perini, observa que nem sempre a remuneração ou salário é corrigida na mesma proporção dos preços de produtos e serviços, mas, ainda assim, os jovens precisam ter visão de longo prazo e, na medida do possível, começar a poupar dinheiro.
Cecília Maria Entringer Perini, economista capixaba conta como se tornou gerente da regional da XP Investimentos
Cecília Maria Entringer Perini: é preciso pensar em criar reservas de longo prazo em aplicações que sejam “à prova de inflação” Crédito: Fernando Madeira
Entretanto, não basta guarda dinheiro. Alocar recursos em ativos que não são corrigidos pela inflação, como é o caso da poupança, por exemplo, pode trazer uma desvalorização do montante. Assim, é preciso pensar em criar reservas de longo prazo em aplicações que sejam “à prova de inflação”.
“O que seriam essas aplicações? Tem dois caminhos: em ações que tenham um cenário menos sensível à inflação, ou em títulos de renda fixa que te remunerem inflação + uma taxa, o que chamamos de juros reais.”

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