A história de Vila Velha é construída a muitas mãos e, ainda hoje, ao completar 486 anos, vai sendo moldada pela dedicação de quem nasceu por lá ou a escolheu para viver. No dia a dia de muitos moradores, o compromisso é fazer da cidade um lugar de acolhimento e afeto e, assim, melhor para todos.
Com o desejo desde a infância de ter uma creche comunitária, a técnica em Enfermagem Melissa Emanuelle da Vitória Alves passou a colocá-lo em prática há cerca de quatro anos. Em um espaço que não era utilizado no bairro Boa Vista, organizou atividades recreativas para as crianças da comunidade que, ainda, aproveitavam o local para fazer as principais refeições do dia.
“Tudo começou por amor ao próximo. Eu me tornei uma palhaça de hospital, no Hospital Infantil de Vila Velha, e fui conhecendo um projeto aqui, outro ali, o que me despertou o sonho de quando eu era criança. E Deus foi tão generoso comigo que eu tenho um companheiro com o mesmo sonho”, conta Melissa.
E eles foram atrás de montar o projeto chamado Recriar. As atividades, mantidas com doações de alimentos e trabalho voluntário de jovens, atendiam em torno de 200 crianças, enquanto outras 200 aguardavam numa lista de espera. Contudo, a ação precisou ser interrompida no ano passado, devido às restrições impostas pela Covid-19.
Mas ainda que as aulas de balé, ginástica rítmica e outras oficinas não pudessem ser realizadas presencialmente, Melissa buscava formas de manter pelo menos o atendimento das crianças com a alimentação. As atividades esportivas e culturais começaram a ser retomadas esta semana, com poucos participantes e muitos protocolos de segurança.
Se a pandemia criou limitações por um lado, por outro levou a técnica de Enfermagem a expandir o projeto após constatar o agravamento das necessidades entre a população mais vulnerável de Vila Velha.
Primeiro, Melissa acolheu um amigo cozinheiro que ficou desempregado e ele, voluntariamente, passou a preparar as refeições que são distribuídas à noite, de segunda a sexta-feira, em bairros carentes do município. O projeto ainda depende de doações, mas segue firme levando um prato quente para famílias que não têm como se sustentar.
“Penso que minha contribuição para Vila Velha é fazer as pessoas se unirem para ajudar o próximo. Com todo mundo junto, é possível fazer a diferença.”
VULNERABILIDADE
Morador de Vila Velha há cerca de quatro anos, o grafiteiro Anderson Bernardino Fabris, conhecido como Moska no meio artístico, chega a locais de maior vulnerabilidade de outra forma: é pelo grafite que muitas vezes se aproxima de quem está invisível aos olhos da maioria.
Nos muros e fachadas, Moska deixa sua arte registrada e, ao mesmo tempo em que produz um cenário mais colorido para a cidade, por vezes torna-se o único ouvinte daqueles que têm a rua como moradia.
"Acredito que, quando estou ali fazendo o grafite, acabo mudando um pouco o dia deles, talvez possibilitando alguma descontração. Alguns também contam as histórias deles"
Moska tem trabalhos para os quais é contratado, mas também gosta de mostrar seus grafites feitos por livre e espontânea vontade. Ele circula pela cidade e, ao se deparar com um imóvel abandonado ou um terreno baldio, por exemplo, expõe suas impressões em cores.
“Às vezes saio sem muita ideia do que vou fazer e, de repente, me deparo com um local que me inspira, que identifico como um lugar que merece intervenção”, revela o grafiteiro, demonstrando que contribui para o município com um pouco de sua arte.
APRENDIZADO E DESAFIOS
Para o bodyboarder Bruno Cajado Gonzaga, 25, a sua colaboração para tornar Vila Velha uma cidade melhor passa pelo esporte do qual é atleta profissional. Morador de Boa Vista, ele avalia que a prática esportiva o levou para um caminho de aprendizado e superação dos desafios, enquanto o irmão seguiu em outra direção, envolveu-se com a criminalidade e acabou morrendo com apenas 17 anos.
A dolorosa experiência pessoal foi uma das razões para abraçar projetos de escolinhas de bodyboard na comunidade.
“Cresci dentro do esporte, fez parte da minha educação. Então, ver a molecada do bairro, muitos jovens se perderem, é difícil. Sempre vi o esporte como uma ferramenta de trabalho em que eu pudesse ajudar os pais a formar cidadãos, a educá-los para outra vida. Esse é meu sentimento, principalmente após ter passado na pele a experiência com meu irmão”, revela.
Fruto de um projeto social, Bruno Cajado reverencia seus mestres - Gordinho, Alemão, Fábio Silva - e sabe que, hoje, também é uma referência para muitos meninos e meninas. O projeto foi suspenso devido à pandemia, mas o atleta não vê a hora de ser retomado como tem ocorrido, gradativamente, em outras comunidades.
“Para quem é de bairro carente como eu, de famílias nem sempre estruturadas, muitas vezes o que falta é uma oportunidade. Não adianta o poder público fazer investimento em segurança, com câmeras e não sei mais o quê, e não dar atenção às comunidades, oferecer condições para essa molecada melhorar de vida e acreditar na capacidade que tem. Quero que o projeto seja retomado porque o esporte pode mostrar um mundo diferente, como aquele que eu descobri no meu tempo", conclui.