O que antes seria descartado como lixo agora ganha espaço em quadros espalhados pelo Brasil. Há 22 anos na Polícia Militar do Espírito Santo, o tenente Marcos Lopes, do Batalhão de Missões Especiais (BME), encontrou uma nova utilidade para cápsulas de munição que sobram de treinamentos e estandes de tiro: transformá-las em obras de arte.
A ideia surgiu em 2025, quando Marcos foi convidado para integrar a coordenação de um curso de controle de distúrbios civis. Na ocasião, ele foi questionado sobre o que poderia ser oferecido aos primeiros colocados da formação. A partir de uma referência artística que havia visto, ele teve a ideia de produzir a imagem de elmo (figura de armadura) utilizando cartuchos de munição, em alusão ao curso.
A primeira encomenda abriu caminho para novos pedidos. As peças passaram a ser procuradas principalmente por militares, mas também por civis interessados em presentear alguém, além de caçadores, atiradores, colecionadores, clubes de tiro e instituições.
A repercussão aumentou em abril de 2026, quando um vídeo publicado por Marcos alcançou quase 3 milhões de visualizações no Instagram. A gravação mostrava um quadro que, inicialmente, ele não imaginava que teria tanta repercussão. A peça foi enviada para Minas Gerais e acabou se tornando a publicação com mais visualizações do trabalho.
Com a divulgação, o policial começou a receber pedidos de orçamento de interessados em 20 estados brasileiros e também de outros países.
As cápsulas utilizadas na produção são fornecidas por instituições que contratam o serviço e já possuem o material armazenado, além de clubes de tiro parceiros. Segundo Marcos, todas são provenientes de treinamentos, sem terem sido utilizadas em confrontos.
"É um material que, na verdade, seria um lixo. A gente faz essa reciclagem e transforma em arte", destacou
Com os cartuchos em mãos, começa o processo de montagem. Marcos geralmente utiliza uma base de madeira e transfere a imagem escolhida para um adesivo, que funciona como molde. Depois de fixar o desenho na estrutura e pintar os espaços, ele encaixa as cápsulas.
Nem sempre, porém, é possível seguir exatamente o desenho original. Em alguns casos, a imagem precisa ser adaptada para que os cartuchos se encaixem corretamente. Depois da montagem, é feita a colagem e a aplicação de resina para dar acabamento à peça.
Quando letras ou imagens são muito pequenas, Marcos opta por mantê-las pintadas e utiliza a resina para criar um efeito espelhado. A finalização de cada trabalho leva, em média, de 15 a 20 dias.
Entre os trabalhos que marcaram a trajetória de Marcos está uma peça produzida para Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), do Rio de Janeiro, que serviu de inspiração para o personagem Capitão Nascimento, dos filmes Tropa de Elite.
Inicialmente, Marcos produziu uma balança da Justiça para Pimentel, que gostou do trabalho. Depois, surgiu a ideia de fazer um quadro com o símbolo do Bope e o sobrenome do ex-capitão. A peça também foi aprovada e, atualmente, é utilizada por Pimentel no podcast dele.
E é assim, através da arte manual, que as cápsulas que seriam descartadas após treinamentos e atividades em estandes de tiro ganham um novo destino nas mãos do policial militar e se transformam em obras que conquistaram encomendas em diferentes partes do país e do exterior.