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Dia dos Professores

Salário, desgaste e insegurança: os desafios dos professores no ES para se manter na carreira

Remuneração, condições de trabalho e vínculos precários estão entre as dificuldades relatadas por docentes. Dados mostram redução de profissionais com menos de 40 anos na rede estadual

Publicado em 15 de Outubro de 2026 às 17:33

Nicoly Reis

Publicado em 

15 out 2026 às 17:33
Em relatos nas redes sociais, professores compartilham os desafios de permanecer na profissão, como a falta de valorização, o desgaste emocional e as dificuldades enfrentadas no dia a dia escolar
Em relatos nas redes sociais, compilados na imagem, professores compartilham os desafios de permanecer na profissão Arte/AG

Ensinar vai muito além de entrar em sala de aula e transmitir conhecimento. A rotina dos professores também envolve lidar com situações de conflito, administrar o desgaste emocional, buscar condições adequadas para trabalhar e enfrentar dúvidas sobre a valorização da carreira. No Espírito Santo, esses desafios fazem parte dos relatos de profissionais ouvidos por A Gazeta.


No Dia dos Professores, celebrado nesta quinta-feira (15), docentes e representantes da categoria narram nesta reportagem as dificuldades enfrentadas no cotidiano escolar e os fatores que entram na discussão sobre a atratividade da profissão. Os relatos ajudam a dimensionar questões que vão da remuneração à segurança no ambiente de trabalho.


Os dados da Secretaria de Estado da Educação (Sedu) mostram que, entre 2025 e 2026, o número de professores com menos de 40 anos na rede estadual caiu 2,3%, enquanto a quantidade de profissionais com 40 anos ou mais aumentou cerca de 5,1%. Embora não expliquem, por si sós, os motivos da mudança, esses números ajudam a contextualizar o debate sobre a renovação do magistério.

Falta de apoio e condições de trabalho

Entre as preocupações relatadas pelos profissionais, estão as condições oferecidas para exercer a função. Uma professora de educação especial que atua como contratada temporária na rede pública afirma que a falta de estabilidade, a pressão por resultados e a ausência de estrutura para atender os alunos estão entre as dificuldades da profissão. Ela pediu para não ter seu nome divulgado.


Segundo a professora, a contratação temporária dificulta o planejamento profissional, já que os processos seletivos nem sempre têm datas previsíveis e os contratos não oferecem a mesma segurança de um vínculo efetivo. Ela também critica mudanças nos critérios de seleção adotados pela Prefeitura da Serra. 


De acordo com a entrevistada, processos seletivos anteriores consideravam provas, mas a seleção passou a levar em conta a idade, o que, na avaliação dela, prejudica candidatos mais jovens ou profissionais que estão tentando ingressar na rede.

Eu não tenho estabilidade nenhuma. Nós, DTs (designação temporária), não temos estabilidade nenhuma. Nada que ampare a gente

X. Professora

Para ela, a insegurança se soma a outros fatores que tornam a carreira menos atrativa, como a remuneração, a falta de reconhecimento e os conflitos no ambiente escolar. A educadora diz que gosta do trabalho e não pensa em abandonar a educação especial, mas reconhece que a realidade da função pode afastar novos profissionais.


“Se você for olhar a questão de remuneração, a gente não ficaria”, diz. Ela relata conhecer colegas que assumiram cargos e pediram exoneração pouco tempo depois por entenderem que a rotina não correspondia às expectativas.


Na educação especial, a falta de recursos e de apoio especializado também pesa. Não há materiais uma equipe multidisciplinar nas escolas, com profissionais como psicólogos, para dar suporte aos estudantes e aos docentes, queixa-se. Crise de alunos também agravam esse cenário, acrescenta, uma vez que as unidades não estão preparadas para oferecer o acompanhamento necessário.


A entrevistada também aponta dificuldades na adaptação de avaliações externas para estudantes da educação especial. Segundo ela, embora os professores sejam cobrados a adaptar atividades e provas no cotidiano, avaliações aplicadas pelas redes nem sempre chegam em formatos acessíveis, e os docentes não têm autorização para fazer alterações em alguns desses exames.

Só fica mesmo na educação quem ama. Porque quem não ama não fica!

X. Professora

A pressão das redes de ensino, o desrespeito em sala de aula e o receio de sofrer agressões também aparecem no relato. A professora conta que colegas precisaram se afastar do trabalho por questões de saúde mental e diz que percebe dificuldades para preencher vagas em diferentes áreas, não apenas na educação especial.


Apesar dos obstáculos, ela afirma que permanece na profissão por acreditar no papel da educação na formação dos estudantes.

Remuneração e valorização profissional

A remuneração é outro ponto importante no debate sobre a atratividade da carreira. Levantamento do Movimento Profissão Docente sobre os planos de carreira das redes públicas estaduais mostra que, em 2025, a remuneração inicial dos professores da rede estadual do Espírito Santo com licenciatura plena era de R$ 5.685,97, considerando uma jornada de 40 horas semanais e sem gratificações. No fim da carreira, o valor chegava a R$ 7.781,70, sob os mesmos critérios.


Na comparação entre as 27 unidades federativas, o Espírito Santo ocupava a 14ª posição em remuneração inicial e a 18ª em remuneração final, considerando os valores informados no levantamento e a ordenação do maior para o menor.

Os números mostram que a posição do Estado varia conforme a etapa da carreira analisada. A remuneração, porém, é apenas um dos elementos para avaliar a atratividade da profissão, que também depende das condições de trabalho, das possibilidades de progressão e da estabilidade profissional.


Ao comentar o peso do salário na decisão de ingressar na docência, o diretor de Comunicação do Sindicato dos(as) Trabalhadores(as) em Educação Pública do Espírito Santo (Sindiupes), Júlio Cesar, foi enfático: “Esse é o fator número um”. Segundo ele, a remuneração precisa ser considerada diante das despesas dos profissionais e das responsabilidades que assumem.


O representante sindical também questiona a forma como as políticas salariais são definidas e afirma que, na avaliação dele, falta vontade política para ampliar a valorização da categoria.


A percepção de desvalorização também aparece nos comentários publicados nas redes sociais, em post que trazia matéria sobre o cenário da educação no país. “Quatro anos de docência e já quero mudar de área profissional”, escreveu uma pessoa. Em outra manifestação, uma professora afirmou que, ao perguntar a crianças da educação infantil sobre o que querem ser quando crescer, nenhuma teria citado a docência. O relato representa a experiência da profissional, e não um levantamento sobre as aspirações de crianças no Estado.

Contratos temporários e falta de estabilidade

Além da remuneração, o tipo de vínculo de trabalho é apontado pelo Sindiupes como um dos fatores que afetam a carreira. Júlio Cesar usa a expressão “precarização pejotizadora” para criticar o que considera uma tendência de manutenção de vínculos precários na educação.


Na entrevista, porém, o exemplo apresentado pelo representante sindical foi o dos contratos temporários sucessivamente renovados. Segundo ele, embora a renovação seja capaz de prolongar o vínculo do profissional com a rede, também pode reduzir a pressão para que as gestões realizem concursos públicos periodicamente.


O dirigente afirma que a contratação de temporários se concentra, em algumas situações, em áreas com menor disponibilidade de profissionais ou menor interesse pelas vagas. Ele cita fatores como remuneração, carga horária e distância entre a residência e o local de trabalho.


Para o sindicato, a realização de concursos e a redução dos vínculos temporários são medidas importantes para dar maior estabilidade aos profissionais. A avaliação é que a segurança no vínculo pode influenciar a permanência na carreira e as condições em que o professor desenvolve seu trabalho.


A questão também aparece em um comentário nas redes sociais. Um usuário chamou a atenção para os critérios de classificação em processos seletivos e afirmou que profissionais recém-formados, por terem menos tempo de serviço, podem acabar nas últimas posições na disputa por vagas.

Menos professores jovens na rede estadual

Os dados do quadro de profissionais da Sedu mostram mudanças no perfil etário dos docentes. Entre 2025 e 2026, o número de professores com menos de 40 anos passou de 7.561 para 7.388, uma redução de 173 profissionais, ou 2,3%.


No mesmo período, o número de docentes com 40 anos ou mais aumentou de 10.734 para 11.283, um acréscimo de 549 profissionais, cerca de 5,1%.


Considerando todas as faixas etárias, o total de docentes da rede estadual passou de 18.295, em 2025, para 18.671, em 2026. Isso representa um crescimento de aproximadamente 2,1% no quadro geral, mesmo com a diminuição do grupo com menos de 40 anos.

A redução da participação de professores mais jovens também é observada no cenário nacional. A segunda edição da pesquisa "Apagão dos Professores", do Instituto Semesp, divulgada em 2026 com dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), identificou mudanças no perfil dos docentes do ensino médio brasileiro entre 2015 e 2025.


Nesse período, o número de professores de até 24 anos caiu 31,1%, passando de 17,3 mil para 11,9 mil. Já o grupo com 60 anos ou mais cresceu 104,5%, de 18,2 mil para 37,3 mil profissionais.


O levantamento também aponta mudanças nos vínculos de trabalho nas redes públicas de ensino médio. A participação de professores temporários aumentou de 32,2% para 43,4% entre 2015 e 2025. No mesmo intervalo, o número de docentes concursados, efetivos ou estáveis caiu de 305 mil para 255 mil.


Os dados nacionais indicam desafios para a renovação do magistério e para a composição dos vínculos profissionais nas escolas públicas. No entanto, não explicam, por si sós, as razões para a redução de professores mais jovens no Espírito Santo.


A preocupação com a saída de profissionais também aparece nas redes sociais. “Os jovens estão buscando outras carreiras e os mais velhos não conseguem se manter somente com a aposentadoria”, escreveu uma pessoa que se identifica como professora. Outro comentário questionou se a categoria receberá mais atenção diante do risco de falta de docentes.

O que diz a Sedu 

Questionada sobre a valorização dos profissionais e as medidas adotadas para a carreira, a Secretaria de Estado da Educação informou que a tabela remuneratória teve aumento de 33% em 2021 e reajuste de 8% em 2025.


A pasta também destacou a oferta de ações de formação continuada. Segundo a Sedu, foram realizadas mais de 900 ações formativas, com aproximadamente 915 mil vagas de formação entre 2019 e 2026. A secretaria informou ainda que quase 2 mil profissionais foram nomeados no último concurso público.


As medidas citadas pelo governo incluem reajustes remuneratórios, formação e ingresso de novos profissionais. Já os dados sobre idade mostram que a participação de professores com menos de 40 anos diminuiu entre 2025 e 2026, apesar do crescimento do número total de docentes na rede estadual.


A discussão sobre o futuro da profissão envolve diferentes dimensões: atrair novos profissionais, garantir condições adequadas para o exercício da docência e criar perspectivas para que eles permaneçam na carreira. 

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