Para fazer a diferença na vida do aluno, educação midiática requer investigação na qualidade da informação das fontes
MagnificTextos, imagens e vídeos produzidos por inteligência artificial (IA) dividem espaço nas redes com notícias, opiniões e desinformação. Nesse fluxo, algoritmos selecionam o que aparece na tela, e conteúdos capazes de despertar emoções ganham vantagem na disputa pela atenção. Para os educadores, o cenário traz um desafio: preparar os jovens para não serem consumidores passivos.
É nesse cenário que o letramento digital passa a fazer parte da formação dos estudantes, uma competência básica para o exercício da cidadania, define Guilherme Alves, gerente de Projetos da Safernet Brasil e especialista em Educação Midiática e Cidadania Digital. Essa dinâmica, acrescenta ele, envolve checar quem produziu uma informação e com qual intenção, compreender algoritmos e limites da inteligência artificial e desenvolver autonomia para pensar e criar.
A capacidade crítica se torna ainda mais necessária com a popularização da IA generativa. “Agora, é significativamente mais difícil distinguir o que é real do que é falso na internet”, afirma o jornalista Sérgio Lüdtke, editor-chefe do Projeto Comprova, coalizão de combate à desinformação da qual A Gazeta faz parte. Segundo ele, os algoritmos podem amplificar materiais sensacionalistas e prender usuários em bolhas de desinformação.
As bolhas, por sua vez, favorecem o viés de confirmação, no qual as pessoas privilegiam informações alinhadas às próprias crenças. Por isso, a educação midiática estimula a investigação da qualidade, da diversidade e da confiabilidade das fontes. Também é preciso observar quem está por trás da mensagem. “Questionar a autoridade de quem publica é fundamental para verificar a consistência e a integridade de uma informação”, defende Lüdtke.
O desafio não está apenas no que chega às telas, mas também no ritmo de consumo. Vídeos de poucos segundos e feeds infinitos acostumam o cérebro a estímulos rápidos e podem dificultar a atenção sustentada e a leitura profunda. Alves cita o AI slop, conteúdo de baixa qualidade criado por IA que inunda as redes, e o brain rot, a sensação de empobrecimento cognitivo depois do consumo prolongado de materiais rápidos e superficiais.
“Quando o estudante se acostuma a esse consumo fragmentado e superficial, ele sente mais dificuldade para construir uma argumentação consistente e enxergar nuances em um debate”, explica.
Nesse ambiente de atenção fragmentada, conteúdos que despertam emoções também ganham vantagem. “A opinião pode ser mais atrativa do que a informação, e a mentira é mais sexy do que a verdade”, sintetiza Lüdtke.
Para ele, uma das primeiras orientações a ser incorporada pelos estudantes é aprender a desacelerar: pausar antes de reagir, questionar a origem do que recebem e verificar a informação antes de compartilhá-la.
É justamente essa pausa que pode ser transformada em exercício dentro da escola. Alves sugere atividades de análise de manchetes, posts, gráficos, fontes e bolhas informacionais. Lüdtke aponta o prebunking, que apresenta táticas de manipulação antes que um boato se espalhe, e análises simples de áudios, vídeos e domínios.
São práticas que ajudam a desenvolver o chamado “ceticismo saudável”, isto é, avaliar e questionar sem cair na desconfiança generalizada.
Pergunta | O que observar |
Qual é a fonte original? | Identifique quem está por trás da mensagem e procure confirmação em dados oficiais, instituições confiáveis ou veículos jornalísticos. |
Quer informar ou provocar uma reação? | Medo, raiva, indignação e urgência para compartilhar são sinais para interromper o impulso e investigar. |
E se for mentira? | Compartilhar não é um ato neutro. Um boato pode prejudicar reputações, espalhar pânico e alimentar a desinformação. “Se tiver alguma dúvida, não compartilhe. |
Fontes: Guilherme Alves, gerente de Projetos da Safernet Brasil e especialista em Educação Midiática e Cidadania Digital; e Sérgio Lüdtke, editor-chefe do Projeto Comprova