Publicado em 17 de janeiro de 2021 às 13:56
- Atualizado há 5 anos
Na média global, desde o começo do século 20, a expectativa de vida ao nascer mais do que dobrou, chegando hoje a 71 anos. Grande parte dessa melhora se deve às dezenas de vacinas desenvolvidas desde então, que achataram principalmente os índices de mortalidade infantil. >
Doenças como poliomielite (paralisia infantil) e sarampo já são muito mais raras do que antigamente (apesar do esforço de movimentos antivacina em denegrir a imagem dos imunizantes), e há até exemplos de erradicação, como o da varíola, que se propagava pelo ar e matava 30% dos contaminados.>
A Covid-19, com cerca de 2% de letalidade nos casos detectados, não é nenhuma varíola, mas mesmo assim já fez bastante estrago: são mais de 2 milhões de mortes em todo o mundo, e 10% disso só no Brasil.>
Diante de um cenário em que a rotina foi virada de ponta-cabeça, a economia foi golpeada e nem a saúde mental foi poupada, as vacinas contra o novo coronavírus surgem como uma esperança de regresso, ao menos em parte, àquilo que um dia foi a normalidade.>
>
"O ano de 2021 começou com uma grande esperança com as divulgações dos resultados dos estudos de fase 3 de diferentes vacinas, com eficácia variada em evitar casos leves, mas com um grande benefício em comum comprovado cientificamente: a redução impactante na progressão de casos leves para casos graves e hospitalização, internação em UTI e óbitos. Neste momento, mais importante que voltar ao antigo normal, o objetivo é salvar vidas e desafogar o sistema de saúde que está superlotado e até mesmo colapsado em alguns locais", afirma Alexandre Barbosa, chefe da infectologia da Unesp.>
No momento as duas vacinas mais próximas da população brasileira são a Coronavac, desenvolvida pela parceria entre a chinesa Sinovac e o Instituto Butantan e o fármaco da parceria Universidade de Oxford/AstraZeneca, com participação da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). Contando apenas essas duas, haverá cerca de 150 milhões de doses, o suficiente para imunizar (com duas doses) 35% da população brasileira.>
Especialistas ouvidos pela reportagem são enfáticos ao dizer que a vacina, qualquer que seja, se aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), deve ser tomada por aqueles que puderem.>
"É um ato de respeito com você mesmo, mas especialmente um ato de respeito com o próximo. Pensando em você, todas as vacinas aprovadas pela Anvisa reduzem muito o seu risco de adoecer. Pensando no coletivo, quanto mais gente se vacinar, menos o vírus consegue circular", explica Pedro Hallal, reitor da UFPel e coordenador-geral da pesquisa de prevalência do coronavírus no Brasil.>
"Imagine o remorso de se sentir culpado se alguém próximo for infectado, e, pior ainda, morrer. O que se perde ao não se vacinar é muito. Vacine-se, se não for por você, que seja pelos seus amigos, sobretudo os de mais idade. Você deve se vacinar porque é a coisa certa a se fazer", diz Luiz Eugênio Mello, neurocientista da Unifesp e diretor científico da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).>
Houve críticas com relação aos 50,38% de eficácia da Coronavac apresentados pelo Butantan no último dia 12, especialmente por causa do contraste em relação à apresentação anterior, que o instituto apenas ressaltou a proteção de 78% considerando somente casos que precisaram de assistência médica.>
"Mesmo quando a eficácia da vacina não está entre as mais altas, do ponto de vista populacional, quando se tem um número suficientemente grande de pessoas imunizadas, pode-se atingir uma proteção coletiva e controlar epidemias. Por isso, assim que estiver disponível, vou me vacinar [independentemente do laboratório de origem] e vou recomendar a todos que convivem comigo que também se vacinem", afirma Leo Bastos, estatístico e pesquisador em saúde pública da Fiocruz.>
"Se temos uma vacina capaz de cortar pela metade a chance de ficar doente e de diminuir em quase cinco vezes a probabilidade de precisar de atendimento médico, por que não se vacinar? Pensando pelo outro lado, se você recusa a vacina, tem o dobro de chance de ficar doente e cinco vezes mais chance de precisar de atendimento médico. Vale a pena não se vacinar? Por que não se vacinar se a vacina tem quase zero efeito colateral?", indaga a microbiologista e presidente do Instituto Questão de Ciência, Natália Pasternak.>
A gravidade do cenário atual, com falta até mesmo de oxigênio para alguns doentes, tem de servir de motivação para que seja implementada uma estratégia de convencimento da população sobre a necessidade da vacina, avaliam os cientistas.>
"O aumento dramático do número de casos graves e mortes já era previsto há algumas semanas devido ao afrouxamento de medidas restritivas e à desorientação do governo federal, que nega as recomendações da ciência, obriga o SUS a receitar medicamentos ineficazes e atrasa a vacinação. A única solução para debelar a pandemia é ter uma vacinação em massa, com máxima urgência, de modo a evitar mortes e dificultar a propagação do vírus", afirma Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências.>
Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde, de 2 milhões a 3 milhões de pessoas deixam de morrer todos os anos graças à existência de vacinas, o equivalente a 4 mortes evitadas por minuto. Outro 1,5 milhão poderia ser salvo caso a vacinação fosse universal.>
"Não há outra maneira de sairmos deste caos", diz a infectologista Rosana Richtmann, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. "Temos que nos vacinar porque na história da humanidade a maioria das pandemias foram resolvidas com vacinação; porque temos vacinas seguras e eficazes para iniciar o processo; porque estão morrendo mais de mil brasileiros todos os dias de Covid-19; porque os profissionais da saúde estão exaustos, e quase descrentes; porque todos nós que temos um mínimo de sensibilidade temos medo desse vírus. Resumindo, porque nós temos que virar esse jogo –não há outro caminho ou outra opção; não existe plano B.">
"Eu quero me vacinar para não morrer, para não ficar doente, para não ter perigo de passar o vírus para outras pessoas e elas morrerem ou ficarem doentes. Quero me vacinar, também, porque sempre tomei vacinas e elas sempre foram boas para mim", declara Rubens Belfort, presidente da Academia Nacional de Medicina.>
Roberto Kraenkel, professor do Instituto de Física Teórica da Unesp e integrante do Observatório Covid-19 BR afirma que se vacinar é, mais do que uma atitude de proteger a si mesmo, um dever ético e um ato cívico.>
"Vacinar-se é participar do esforço humano de se contrapor a uma pandemia que tem tirado a vida de muitos e arrasado a de tantos outros mais. A vacina é a nossa única chance à vista neste combate. Furtar-se de tomar a vacina é condenável. É uma desonra, é pôr-se à parte de um imenso empenho coletivo. É sombrio", diz o físico, que acompanha de perto a evolução dos números da pandemia no país.>
O indivíduo>
Memória imunológica: Um dos princípios da vacinação é a indução da memória imunológica. Quando o indivíduo recebe uma vacina, ocorre a ativação do sistema imunológico, gerando células de memória>
Resposta intensa: Essas células são responsáveis por proteger o indivíduo, caso infectado pelo vírus de verdade, provocando uma resposta imunológica ainda mais intensa e mais rápida do que aquela desenvolvida na ocasião da vacina>
Anticorpos: O organismo responde à presença do vírus com a produção de anticorpos e a ativação de células capazes de destruir diretamente células infectadas>
Ativação: Pode ser que essa ativação do sistema imunológico por meio de uma vacina não seja boa o suficiente para evitar completamente que a infecção aconteça, mas é possível reduzir sua intensidade. 25 doenças ao menos, podem ser evitadas pelas vacinas, entre elas o tétano, o sarampo, a febre amarela e a hepatite B.>
A sociedade>
Imunidade: Uma pessoa que foi vacinada ou deixa de transmitir o vírus ou, por manifestar uma doença menos grave, pode ter o período de e a intensidade transmissão encurtados>
Proteção de rebanho: Quando a maior parte da população é imune a uma doença contagiosa, surge uma proteção indireta ou proteção de rebanho mesmo para aqueles não imunes à doença (que não foram nem infectados naturalmente nem vacinados)>
Fatores: A conta para calcular a porcentagem da população que precisa estar imune para a proteção de rebanho funcionar depende da eficácia das vacinas a serem aplicadas, do tempo que dura essa imunidade, e do índice de reprodução básico (R0) da doença, ou seja, sua velocidade de espalhamento>
Prazo: Seriam necessários anos de exposição contínua ao vírus para que um mínimo da população fosse infectado e a proteção de rebanho fosse atingida naturalmente –regada a mortes>
Exemplo: Com base na vacinação em massa, motivo do sucesso desse tipo de proteção para doenças como sarampo e poliomielite, esse tempo até a proteção coletiva pode ser de apenas alguns meses>
2 milhões de mortes pelo menos, são evitadas anualmente pela vacinação; mais 1,5 milhão ainda é evitável.>
Fontes: OMS, CDC, Universidade de Boston, Universidade Johns Hopkins, Stat News>
Veja o que outros especialistas disseram:>
Precisamos nos vacinar para nos protegermos, para conseguir diminuir o que mais nos aflige, que são as hospitalizações, para que a gente, a médio e longo prazo, consiga transformar a Covid-19 numa doença controlada, numa infecção que não impacte como hoje, a exemplo de tantas infecções e pandemias que tivemos no mundo e que se tornaram doenças do passado, como a varíola. Ainda há muito a aprender sobre a Covid-19 e sobre a vacinação, mas, neste momento, temos que vacinar para diminuir risco, óbitos e hospitalizações, não só pensando na gente mas em toda a população. Isabella Ballalai. vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações.>
A média de vida humana aumentou por conta das condições sanitárias e certamente pela prevenção de doenças por meio de vacinação. Sem vacinas, estamos testemunhando o reaparecimento de doenças que estavam controladas, tais como sarampo e poliomielite. São doenças que matam, e só a vacinação pode proteger a população de contrair os vírus responsáveis por essas doenças. Vacinar é proteger a si e aos outros, é um ato solidário. Lucile Winter, diretora da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e professora da USP>
A vacinação tem dois objetivos. O primeiro é individual: eu não quero adoecer, ou, se adoecer, que não seja tão grave. Mas também é um ato de proteção de toda a comunidade. Outro motivo é que, a partir do momento em que todos se vacinam, fazemos uma proteção indireta daquelas que não podem se vacinar ou que têm uma resposta subótima à vacina, porque estão, por exemplo, imunossuprimidas. Raquel Stucchi, professora de infectologia da Unicamp>
No plano individual a vacina gera um determinado grau de proteção contra a doença, no caso da Covid-19 uma doença que pode levar você para o hospital, para a UTI e tirar sua vida. É uma proteção importante e que sempre vale a pena. De outro lado, no plano coletivo, vacinar-se significa cumprir um papel de fazer a circulação do vírus ser mais restrita. Menos ele vai circular e menor a chance de que essas pessoas adoeçam. São dois motivos nobres: a própria vida e o papel como cidadão na coletividade. Dirceu Barbano, ex-diretor-presidente da Anvisa (2011-2014)>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta