Publicado em 17 de janeiro de 2021 às 10:01
- Atualizado há 5 anos
Caso a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) dê aval neste domingo (17) para as primeiras vacinas contra a Covid-19, o Brasil pode ter doses em janeiro para apenas 30% do público previsto na primeira fase do plano nacional de vacinação. >
Até então, essa fase, a primeira entre os prioritários, era planejada para ocorrer com trabalhadores de saúde, idosos acima de 75 anos ou asilados, população indígena e povos ribeirinhos, que somam 14,8 milhões de pessoas.>
As vacinas submetidas à análise da Anvisa neste domingo, no entanto, devem atingir apenas 5 milhões de pessoas caso tanto os pedidos da Fiocruz e Butantan sejam aprovados, segundo cálculo inicial da Saúde apresentado em reunião com prefeitos.>
Isso ocorre devido ao fato de que, embora os dois laboratórios peçam aval juntos a 8 milhões de doses, parte delas (caso de 6 milhões do Butantan) exige uma segunda dose em intervalo de 21 dias, portanto só 3 milhões seriam aplicados em janeiro, enquanto outras (caso de 2 milhões da vacina de Oxford) devem ter intervalo de três meses.>
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Para especialistas, a baixa oferta inicial de doses indica que o Ministério da Saúde terá que definir, com urgência, "as prioridades das prioridades" para dar o primeiro passo na imunização até que haja um cronograma exato das doses nos meses seguintes.>
A reportagem apurou que a pasta planeja colocar nesse grupo idosos que vivem em asilos, indígenas aldeados e profissionais de saúde na linha de frente da Covid. Não há, porém, uma estimativa de quanto esses profissionais representam.>
Embora a análise da Anvisa envolva 8 milhões de doses, o número real que estará disponível ainda dependerá do Brasil conseguir confirmar a entrega das 2 milhões de doses de vacinas previstas a serem importadas pela Fiocruz, cuja liberação imediata foi negada pelo governo da Índia. >
Caso isso não ocorra, a previsão inicial pode ser menor. O Butantan, que pleiteia aval para 6 milhões de doses, diz ter outras 4 milhões já prontas, mas cujo uso deve depende de novo pedido de aval à Anvisa. Já a Fiocruz não informou o cronograma de produção de mais doses, que ainda dependem da chegada de insumos.>
A discussão demonstra parte dos desafios que o Brasil terá que enfrentar para iniciar a vacinação contra a Covid-19.>
O Ministério da Saúde diz já ter fechado contratos para obter 354 milhões de doses de vacinas ao longo deste ano. A pasta, porém, não divulgou os cronogramas detalhados, e seu uso também deve depender de novo aval da Anvisa - por isso, técnicos planejam o início da vacinação com base apenas nesses 8 milhões e fazem a conta para 5 milhões de pessoas.>
O governo também não confirmou a data de início da imunização. A prefeitos o ministro Eduardo Pazuello disse que a expectativa era que isso ocorresse no dia 20 de janeiro, às 10h. Em outros momentos, afirmou que a pasta faria a distribuição de doses em até cinco dias após aval da Anvisa, o que poderia estender a previsão ao longo da semana.>
Na prática, o país corre risco de iniciar a vacinação enquanto atualiza parte do plano nacional de vacinação, cuja última versão é de 16 de dezembro e tem lacunas.>
"Não tenho dúvidas de que o SUS vai dar conta de vacinar, mas vamos passar por um stress desnecessário. É ir andando e trocando a roda", diz a ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações, Carla Domingues.>
Para ela, a falta de informações claras sobre o cronograma de todos públicos prioritários na estratégia demonstra o atraso no planejamento. "É difícil fazer uma campanha com essa imprevisibilidade.">
O plano de vacinação também prevê entre esses grupos idosos, pessoas com doenças crônicas, quilombolas, policiais e bombeiros, trabalhadores da educação, pessoas com deficiência, motoristas de ônibus, caminhoneiros, presos e funcionários do sistema prisional. Mas não há um cronograma para todos eles.>
Para tentar acelerar a oferta inicial, alguns especialistas têm defendido que as primeiras vacinas sejam distribuídas para um maior número de pessoas mesmo com risco de atraso na segunda dose.>
"Entre correr o risco de ter alto número de não vacinados e atrasar a segunda, eu preferiria vacinar 8 milhões de pessoas e tentar encurtar esse atraso do que não vacinar", afirma Renato Kfouri, diretor da Sbim (Sociedade Brasileira de Imunizações).>
A posição ainda não tem consenso. E há outros impasses. "O problema é que tem região que não pode ficar levando vacinas a conta-gotas, e tem que levar as duas doses.">
Para a epidemiologista Ethel Maciel, assim que as doses forem aprovadas, é preciso uma campanha de comunicação que informe quais os primeiros públicos a serem vacinados e como isso ocorrerá.>
José Cássio de Moraes, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de SP, cobra uma posição sobre a previsão de doses próximos meses. "Se soubermos quando vamos ter isso [mais doses], a situação fica mais tranquila, senão vai ser corrida ao ouro. E aí fica fila, com pessoa idosa, e facilita a transmissão da Covid.">
Outro risco é que, sem uma campanha de comunicação eficiente, haja queda nas medidas de prevenção, como uso de máscaras. "A população tem que estar consciente que essa vacina é para redução de casos graves e óbitos, sem redução na transmissão. As medidas têm que ser mantidas.">
O decorrer da vacinação também deve trazer mais desafios. Um deles é o acompanhamento da aplicação das novas doses em um contexto de uso de diferentes vacinas com tecnologias diferentes.>
Em geral, o ministério diz que isso será feito por um sistema específico, com uso de um aplicativo pela população. Especialistas cobram mais definições sobre esse processo.>
"As vacinas não são intercambiáveis; quem tomar a do Butantan vai ter que tomar a do Butantan, e quem tomar a da AstraZeneca, a da AstraZeneca. Se não tiver um registro nominal eficiente, informatizado, vai ser impossível acompanhar isso", diz Domingues.>
O mesmo vale para o monitoramento e a resposta a eventos adversos. "A população está muito preocupada. Se tiver um óbito na sequência, como alguém que infartou, vão dizer que é a vacina. Se não tiver uma investigação e sistema de vigilância preparado para fazer investigação rápida, vamos ter problema.">
Kfouri concorda. "Se tiver qualquer coisa com coincidência temporal, vão dizer que foi por isso. Vamos ter que ter resposta rápida ou vamos sofrer com antivacinismo.">
Apesar dos impasses, Mauro Junqueira, do Conasems, conselho que representa secretários municipais de Saúde, diz que os municípios estão preparados para a vacinação.>
"É óbvio que [o volume inicial de doses] não dá para todo mundo na primeira, na segunda semana, e o gestor na ponta vai priorizar as suas equipes [de saúde que atendem Covid], mas em fevereiro já teremos mais", aponta. "Já os idosos não vamos tirar do asilo, a equipe vai lá vacinar.">
Ele prevê que a primeira etapa de vacinação dure de três a quatro dias. "A gente sabe vacinar, e temos seringas e agulhas pra começar a vacinação. O que precisa é termos segurança que a vacina vai chegar e informação para que as coisas ocorram de forma tranquila.">
Questionado sobre a definição dos grupos prioritários, o Ministério da Saúde diz que "detalhamentos sobre o quantitativo de doses que atenderá cada grupo dentro da primeira fase do plano de vacinação serão divulgados nos próximos dias".>
Diz ainda que aguarda a aprovação, por parte da Anvisa, de uma ou mais vacinas para poder anunciar a data oficial de início da vacinação no Brasil. "Estima-se que a imunização começará até 5 dias após este aval", aponta a pasta, segundo a qual todos os estados "receberão as vacinas de forma simultânea".>
Sem dar previsões por mês, a pasta tem dito que, de 212 milhões de doses da Fiocruz, 100,4 milhões estarão disponíveis até julho, e o restante nos meses seguintes. No caso do Butantan, seriam 46 milhões de doses no primeiro semestre.>
Sobre o acompanhamento de doses, a pasta diz que o aplicativo Conecte-SUS trará o registro da vacina utilizada, além de alerta para segunda dose, em uma espécie de carteira digital de vacinação.>
"Com esta ferramenta, será possível que o agente de saúde aplique a segunda dose da vacina correta na data prevista e evite que uma pessoa tome doses de vacinas de laboratórios diferentes. Caso o paciente ainda não esteja cadastrado nas bases de dados, o profissional poderá registrá-lo no momento do atendimento.">
A pasta diz ainda que está em fase de contratação de uma campanha de comunicação, prevista para 20 de janeiro.>
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