Você sabe a diferença entre um ventilador quebrado e uma cadeira? As crianças que estavam internadas em um hospital em Vitória no último mês de agosto sabem. Isso porque, em uma tarde de sexta-feira, entre rodadas de exames, remédios e dor, os pacientes foram visitados por um grupo de pessoas que decidiu levar piadas, balões e gargalhadas para os corredores e quartos brancos e silenciosos.
A chamada Turma do Dr. Unimed, composta por voluntários que trabalham na Unimed Vitória, faz isso há 25 anos, capitaneada pelo ator e coordenador artístico Rodrigo Campanelli. Por meio do voluntariado, o grupo ajuda a transformar o ambiente hospitalar em um espaço mais leve e divertido, carregando nos bolsos das roupas de palhaços não só esponjas de lavar louças — utensílio de uma das suas piadas mais engraçadas —, mas também a disposição para ajudar a comunidade.
Esse princípio foi o que fez Laís Costa, de 27 anos, analista do Instituto Unimed Vitória — organização sem fins lucrativos da qual a turma faz parte —, se voluntariar pela primeira vez naquele dia. Para ela, dedicar seu tempo para entrar com o rosto pintado e um sorriso largo no Hospital Unimed Vitória é uma forma de ajudar o outro a superar momentos difíceis.
“O intuito principal da turma é esse, né? Levar um pouco de alegria para momentos de dor, momentos difíceis, e trazer um pouco de tranquilidade e felicidade para os pacientes. Isso já está no nosso sangue de colaborador.”
Acompanhando a turma, é possível notar que o objetivo é alcançado com facilidade. De porta em porta, as risadas se multiplicam e os quartos ficam mais coloridos. Aos poucos, mais crianças descobrem "o que o ovo novo disse para o ovo velho", ao passo que os responsáveis, mães e pais, também ficam menos tensos e até dão risada quando a turma responde: “Ô, vô!”.
É o caso de Benira Ravani, mãe do pequeno Guilherme, de 2 anos e 8 meses, internado em razão de um derrame pleural no pulmão direito. Ela, que viu o filho passar por quatro cirurgias em pouco mais de um mês de internação, naquela tarde se sentiu aliviada ao ver o menino sorrir para os palhaços.
A criança fica aqui deitada. Aí, eles chegam trazendo alegria, transmitindo amor, carinho… Acho isso legal, levanta um pouco a autoestima, não só das crianças, mas da gente também, que está aqui cansada há vários dias. Acho que a alegria é muito boa para as crianças. Até eu me diverti.
Benira Ravani, mãe de paciente pediátrico
O mesmo sentimento de alívio e gratidão tomou conta de Gilcélia Louback, uma mãe que, há 17 anos, com a filha de 2 anos internada para tratar uma leucemia, encontrou nas charadas e truques de mágica um conforto tão grande a ponto de fazê-la querer se tornar uma palhaça que visita hospitais.
“A minha história com a Turma do Dr. Unimed começa bem antes, quando a minha filha, que hoje tem 19 anos, tratou uma leucemia. O Dr. Unimed vinha fazer as visitas, e isso era reconfortante para a gente, que ficava internada aqui vários dias, num processo tão difícil”.
Naquele momento, porém, a mãe se dedicava 100% ao tratamento da filha e apenas colaboradores podiam se voluntariar para fazer parte da turma. Mas, como em um passe de mágica, a vida deu um jeito de, anos depois, colocar o grupo novamente no caminho de Gilcélia.
“Um belo dia, surgiu uma oportunidade, há uns dois anos, de eu trabalhar na Unimed. E, na minha entrevista, a minha primeira pergunta foi: como eu faço para ser palhaça?".
Hoje, com a filha transplantada e curada há 12 anos, a voluntária participa das mesmas ações que já havia conhecido no passado, mas se sente ainda mais feliz fazendo as palhaçadas que transformam o clima do hospital e as pessoas visitadas.
Poder levar um pouco de alegria para essas crianças que ficam internadas em uma situação tão delicada, já tendo vivido o outro lado da moeda, é muito reconfortante. É muito desafiador também, porque, em vários momentos, a gente se vê naquela situação, mas conseguir arrancar um sorriso da família e da criança nesses momentos é muito gratificante. Ser voluntário não tem preço mesmo.
Gilcélia Louback, voluntária
O caso não é isolado e mostra que o impacto do voluntariado promovido pelo instituto permanece na memória de quem recebe a ação por muito tempo, sendo capaz de transformar realidades anos depois.
Aos 29 anos, Zaqueu Souza Rodrigues, motorista de aplicativo, é um voluntário externo da turma. A história dele com os palhaços, no entanto, teve início em 2003, quando ele estava do outro lado da cena. Diagnosticado com linfoma de Hodgkin — um tipo de câncer que se origina no sistema linfático — no abdômen aos 5 anos de idade, ele recebeu inúmeras visitas do grupo até o ano de 2006, quando terminou o primeiro tratamento.
Em 2010, o menino foi diagnosticado novamente com a doença, desta vez na coluna, e precisou de um transplante de medula, realizado em 2011 no interior de São Paulo. Apesar da infância marcada por exames, tratamentos e internações longas de até três meses, Zaqueu se lembra exatamente da alegria que sentia ao ver as mágicas de Campanelli no quarto do hospital.
Foi esse sentimento que fez o rapaz, há três anos, entrar em contato com a equipe para se voluntariar. “Eu falei: 'Eu já fui assistido, agora eu quero trazer alegria para alguém também'. E aí, de lá para cá, sempre venho acompanhando a turma.”
Como paciente, eu sentia que eles retiravam a dor e me traziam alegria. Agora, sou eu quem pego a dor e levo a alegria.
Zaqueu Souza Rodrigues, ex-paciente e voluntário.
Campanelli, que coordena as palhaçadas desde o início do projeto, em 2001, tem a mesma percepção. Segundo ele, o clima no hospital muda após as visitas, principalmente em relação aos acompanhantes das crianças.
“O acompanhante tem mais consciência do que está acontecendo e dos problemas que deixou para trás, em casa. Então, a gente trabalha muito com a questão do bem-estar do acompanhante. Eles entendem como é importante lembrar que é uma criança que está ali.”
Por isso, inúmeras interações são feitas com as mães e pais. Os palhaços perguntam, por exemplo, por que o pão não conversa com a batata e respondem, em seguida, que é porque o pão é francês, e a batata... “inglesa”, dizem os acompanhantes.
Mas a melhor parte dessa brincadeira é a entrega de um prêmio a quem respondeu corretamente: os palhaços, felizes, começam a perguntar se a mãe ou o pai vive em apartamento, se a cozinha é grande e se já possui uma máquina lava-louças. Expectativa criada, é só entregar o presente: uma esponja acompanhada de gargalhadas.
A mudança no ambiente causada pela turma não acontece por acaso. O objetivo do Instituto Unimed Vitória, na verdade, é justamente este, como explica Milene Mello, gerente-geral do instituto.
“O Instituto Unimed Vitória foi criado em 2012 para ampliar a atuação de responsabilidade social da Unimed Vitória. Então, buscamos fazer diferença onde estamos inseridos.”
Também para cumprir essa missão, os projetos e ações voltados para desenvolver um comportamento mais saudável e colaborar para o bem-estar social dos capixabas são levados para hospitais públicos da Grande Vitória, além de outros espaços como escolas e praças.
Segundo Milene, isso amplia o impacto do voluntariado corporativo, que afeta e transforma a vida dos colaboradores tanto quanto a dos pacientes. Só no primeiro semestre de 2026, foram 27 ações realizadas pela turma, com 81 voluntários, 162 horas doadas e mais de 3.300 pacientes beneficiados.
Com resultados e impactos para todos, a palhaçaria hospitalar funciona como um processo terapêutico para os pacientes e seus acompanhantes, segundo Felipe Tabachi, cirurgião oncológico e diretor clínico do Hospital Unimed Vitória. Para ele, a interação com a turma muda o comportamento dos pacientes e, consequentemente, ajuda no bem-estar.
“Quando as pessoas têm o pensamento positivo, a evolução da doença acaba acontecendo de uma forma muito diferente e muito positiva. Com certeza, faz muita diferença a humanização do atendimento aos pacientes”, afirma ele.
E é com essa responsabilidade de levar leveza aos quartos hospitalares, cheios de dor e preocupação, que a turma se despede de mais uma ação, deixando, antes, a resposta para a charada que iniciou esta história: “trinta” — é a diferença entre o ventilador quebrado, que “no venta”, e a cadeira, onde “cê senta”.