O empresário capixaba Rafael Darrouy, de 40 anos, está, há mais de 40 dias, impedido de deixar a Bolívia, devido à escalada de conflitos no país que levaram ao bloqueio das rodovias. Ele chegou à nação vizinha no final de março, a passeio, com planos de passar cerca de 40 dias no local. Por conta da situação, entretanto, foi impedido de comparecer, inclusive, ao sepultamento do próprio pai, que faleceu na última quarta-feira (10).
Rafael, que é morador de Vila Velha, está na Bolívia acompanhado da namorada paranaense, com quem iniciou uma travessia de carro pela América do Sul, em novembro do ano passado.
“Estávamos no Espírito Santo, depois pegamos um avião, fomos para o Paraná, onde mora minha namorada, pegamos o carro dela e fomos rodando. Passamos por Buenos Aires, toda a costa atlântica da Argentina, fomos a Ushuaia, rodamos o Chile inteiro, chegamos à Bolívia e tudo nos encantou inicialmente, mas aí houve esse problema.”
A Bolívia enfrenta uma grave crise política e social, reflexo dos cortes nos subsídios à gasolina, o que fez com que os preços disparassem, causando expressiva inflação no país.
Diante disso, trabalhadores bloquearam as estradas, exigindo controle da crise econômica e a renúncia do presidente Rodrigo Paz. Pelo menos dez pessoas morreram, há centenas de presos e, em diversas cidades, como La Paz, moradores e visitantes enfrentam desabastecimento de alimentos.
“A Bolívia tem essa cultura, né (sic), de fechar as estradas quando há reivindicações da população. Em Sucre não estamos com esse problema de escassez de comida, porque a cidade produz o que consome, mas não tem gasolina e também cortaram a coleta de lixo. A gente estoca o lixo e tem que caminhar quatro ruas ou mais para deixar em um ponto específico, onde às vezes coletam em dois dias, às vezes em duas semanas…”
Mas, segundo o empresário, o principal problema, para ele e a namorada, é outro: os vistos de turista, assim como a documentação do carro com que entraram no país, estão para vencer em 24 de junho e as autoridades responsáveis pela imigração não aceitam renovar.
As únicas alternativas, ainda de acordo com Rafael, eram vistos de trabalho ou estudo, o que não se aplica à situação do casal, que poderá ser penalizado caso não deixe o país nos próximos dias.
“Me informaram que não existe previsão legal para o que está acontecendo. E, diferentemente do que o Brasil fez na pandemia, quando relaxou várias regras, eles não mudaram. E ainda me disseram que, se eu continuar no país, serei multado. O carro tem placa brasileira e a aduana boliviana também não consegue resolver. E, se o veículo ficar ilegal, corremos risco de, inclusive, perder o carro.”
Ele relata que entrou em contato com o Itamaraty e com a Embaixada Brasileira na Bolívia, e que recebeu uma carta solicitando colaboração das autoridades bolivianas para a prorrogação da validade dos documentos.
Rafael explicou ainda que foi orientado a não tentar sair do país caso não consiga a renovação dos documentos, pois há relatos de brasileiros agredidos ao tentarem passar pelos bloqueios.
“Vou levar a carta, e, se não conseguir estender o visto, vou ter que entrar com um advogado aqui na Bolívia. Meu pai morreu nesta semana e não conseguimos chegar nem ao aeroporto. Tem um site que mostra em tempo real a situação dos bloqueios e, neste momento, são mais de 90. A cidade está cercada. Mesmo que eu consiga passar por um, há outros no caminho. Há rumores que o exército irá para as ruas. O medo é escalar para uma guerra civil.”