A equipe humanitária brasileira na Venezuela, que atua no país após os terremotos que assolaram a região, é liderada pelo capixaba Armir Braun. Natural de Campinho, em Domingos Martins, na Região Serrana do Espírito Santo, Braun coordena pela terceira vez uma missão internacional de apoio a países afetados por terremotos.
Cedido ao Governo Federal há cerca de oito anos, Armir faz parte do Corpo de Bombeiros Militar do Espírito Santo, tendo atuado na Defesa Civil.
O bombeiro já está há dez dias na Venezuela, país afetado por terremotos duplos de magnitude 7,2 e 7,5 em 24 de junho. O tremor foi tão intenso que chegou a ser sentido no Brasil.
Os terremotos levaram ao chão prédios, conjuntos habitacionais, hotéis e outras construções. De acordo com o balanço oficial mais recente, divulgado nesta segunda (6), foram 3.535 mortos e 16.740 feridos em todo o país.
Braun conversou ao vivo com os apresentadores do telejornal Bom Dia ES, da TV Gazeta, Elton Ribeiro e Vanessa Calmon, nesta terça-feira (7).
“Sou o único capixaba na equipe, que é formada por bombeiros de Minas Gerais, São Paulo e Paraná. Nós temos equipe da Defesa Civil nacional e Anatel. Estamos no centro de emergência e, a uns 10 km à direita, você só vê destruição. Desde que chegamos, estamos trabalhando em busca e salvamento”, detalhou Braun.
O grupo brasileiro faz parte do INSARAG (Grupo Consultivo Internacional de Busca e Resgate), coordenado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Com eles também estão a Argentina e está para chegar um hospital de campanha de Barbados.
Emoção no primeiro dia
Ser forte para lidar com a situação não retira a empatia de quem está lá para ajudar. Já no primeiro dia de atuação, a equipe colocou o sentimento em prática ao encontrar um pai procurando pelo filho.
Um rapaz chamado Santiago estava havia três dias embaixo de destroços. O pai permaneceu ao lado, esperando socorro, enquanto escutava o filho bater nos escombros para ser retirado. A equipe trabalhou por um dia inteiro, mas não foi possível salvá-lo.
“A gente chamava e ele batia, mas o prédio tinha virado, estava difícil encontrar onde ele estava porque o som provavelmente passava por algum caminho. Ele começou a filmar, acreditando que o filho ia ser salvo e pensando em mostrar para ele. Aí me coloco no lugar de pai, tenho uma menina de 16 anos e um rapaz de 11”, explicou o lider da equipe brasileira.
Apesar dos esforços, em certo momento a equipe começou a não escutar mais Santiago. Depois de horas sem sinal de vida, eles precisaram deixar as buscas pelo rapaz.
Segundo Braun, uma das maiores dificuldades para conseguir tirar pessoas a tempo são as próprias estruturas. Ele detalhou que os prédios são grandes e com ferragens grossas.
“É muito difícil romper. Teve uma em que ficamos 50 horas em ciclo de operação, mas as equipes não conseguiram chegar. Estavam identificando as vítimas, só que também perdemos os sensores de sinal de vida vindos da pessoa”, explicou.
Vidas embaixo dos destroços
Andar pelos destroços não se torna mais fácil para Braun, mesmo sendo a terceira vez liderando uma missão após terremoto. Os resgates que já chegaram a 90 horas de duração, às vezes sem conseguir retirar a pessoa com vida, além de visualizar toda uma cidade debaixo de escombros, mexem com o bombeiro.
Todo desastre é muito ruim, mas o terremoto expõe muito, é como se fossem as feridas abertas durante muito tempo
Armin Braun, líder da equipe humanitária na Venezuela
Durante a entrevista para o telejornal, é possível ver ao fundo um prédio ainda de pé, mas com marcas deixadas pelo abalo sísmico.
“Nesse prédio, atrás de mim, vemos camas penduradas, a vida das pessoas interrompida, pessoas que precisaram sair correndo. A vida delas se foi, a vida de algumas pessoas do prédio que estão de pé também. Conseguiram sair, mas perderam sua história, fotografias de infância ou algo que faz parte da história. Tiveram que deixar tudo para trás”, pontuou.
Base em campo de futebol
Mesmo 13 dias após o desastre em terras venezuelanas, ainda há risco de réplicas, que são tremores de menor magnitude após um terremoto. Por isso, Braun explicou que a base humanitária está montada em um campo de futebol, uma área aberta.
O bairro é o mesmo que aparece em uma imagem que viralizou nas redes sociais mostrando o começo do terremoto (veja abaixo).
“É sempre uma experiência que a gente traz de outras emergências, de estar em uma área que seja aberta. É feita toda uma análise de segurança física, de terremoto e outras questões para ter a melhor capacidade e segurança para atuar em segurança.Temos bastante risco de desabamento”, detalhou.
Ele também detalhou que há perigo para a saúde, pois há falta de água na região, mas a equipe faz profilaxia (conjunto de procedimentos para impedir a propagação de doenças) no posto da base.
O coordenador da missão detalhou que o perigo aumenta pela geografia da região.
"Atrás de mim você vê uma região de montanha, e na minha frente está a faixa do mar. É uma faixa longa, mas estreita entre morros muito íngremes e o mar. As pessoas ficam concentradas aqui. Quando a gente olha no entorno, vê muitos prédios em pé e precisa interditar. É um cenário de muita devastação", detalhou.
A missão ainda segue por tempo indeterminado. "Depois vou para a casa da minha mãe em Domingos Martins para descansar", finalizou.
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