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3 razões para tantos prédios desabarem nos terremotos da Venezuela

O terremoto duplo foi devastador. Mas por que tantos edifícios desabaram? Especialistas apontam os principais fatores

Publicado em 03 de Julho de 2026 às 16:35

BBC News Brasil

Publicado em 

03 jul 2026 às 16:35
Imagem BBC Brasil
Especialistas questionam se houve negligência ou corrupção na construção de alguns prédios em La Guaira Crédito: Getty Images
Famílias inteiras ficaram soterradas sob escombros.
A devastação provocada pelos dois terremotos, de magnitude 7,2 e 7,5, que atingiram a Venezuela em 24/6 foi tão grande que muitos passaram a se perguntar por que tantos prédios desabaram, deixando milhares de mortos e feridos.
O deslocamento da placa tectônica Sul-Americana em relação à placa do Caribe provocou uma enorme liberação de energia nas profundezas da Terra que foi mais intensa em frente ao litoral norte da Venezuela, na região que passou a ser chamada de "marco zero" da tragédia: o estado de La Guaira.
Embora os epicentros dos dois terremotos tenham sido registrados no estado de Yaracuy, o primeiro perto de San Felipe e o segundo nas proximidades de Yumare, a ruptura na crosta terrestre foi tão extensa que as ondas sísmicas se propagaram até o litoral de La Guaira, onde passa a falha de San Sebastián, localizada no ponto de atrito entre as duas placas tectônicas.
Quantos prédios desabaram em La Guaira e por quê? A resposta ainda está sendo estudada, mas os cientistas já têm algumas pistas.
"Pode haver mais de 50 razões para um prédio desabar", afirma Feliciano de Santis, presidente da Sociedade Venezuelana de Geólogos, em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
Entre elas estão o impacto das ondas sísmicas dos dois terremotos, um terremoto duplo registrado no país apenas uma vez antes, em 1812, e a proximidade de La Guaira da área onde houve uma enorme liberação de energia sísmica.
Também contribuíram o tipo de solo, a ressonância nos prédios e irregularidades nas construções, afirma De Santis.
O governo, que declarou La Guaira zona de desastre, informou nesta semana que mais de 800 prédios sofreram danos em todo o país, a maioria deles em La Guaira. Já estimativas independentes, como a do Instituto de Pesquisa de Sistemas Ambientais (ESRI), apontam cerca de 900 construções danificadas.
A Nasa (agência espacial americana), por sua vez, fez uma estimativa preliminar indicando que cerca de 59 mil edificações em toda a Venezuela podem ter sofrido algum tipo de dano. Mas a projeção é apenas indicativa e não inclui verificações em campo.
O que pode ter provocado o desabamento de tantas construções no litoral norte da Venezuela?
Imagem BBC Brasil
As estimativas indicam que milhares de pessoas podem estar soterradas sob os escombros Crédito: AFP via Getty Images

1. O impacto direto das ondas sísmicas em La Guaira

O litoral do estado de La Guaira recebeu o impacto direto das ondas sísmicas por estar localizado exatamente em frente à falha de San Sebastián, onde se encontram as placas tectônicas do Caribe e Sul-Americana, que se deslocam lentamente em direções opostas.
A falha se estende pelo fundo do mar, de oeste a leste, quase paralelamente ao litoral.
Foi justamente nessa região, muito próxima da costa, que a ruptura do sistema de falhas provocada pelo terremoto duplo causou os maiores danos."O terremoto duplo reuniu todas as características para provocar uma grande tragédia em qualquer parte do mundo", afirma Rafael Abreu, geofísico do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês), em entrevista à BBC News Mundo.
Imagem BBC Brasil
Crédito: BBC
Imagem BBC Brasil
Catia La Mar e Caraballeda estão entre as cidades litorâneas mais atingidas pelo terremoto duplo Crédito: AFP via Getty Images
Segundo Abreu, o terremoto teve alta magnitude, longa duração, pouca profundidade e uma ruptura, ou deslizamento horizontal, com características que tornaram o terremoto ainda mais destrutivo.
José María de Viana, engenheiro civil e professor da Universidade Católica Andrés Bello, na Venezuela, explica que o maior impacto do segundo terremoto ocorreu em frente ao litoral de La Guaira, segundo estudos técnicos do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia da Itália e do USGS. "Isso nos ajuda a entender por que a devastação foi tão excepcional ali", afirma. "O impacto foi direto e certeiro."
Segundo Viana, o estudo italiano concluiu que o deslizamento da falha atingiu um deslocamento máximo de 3,6 metros no leito marinho, imediatamente ao norte da cidade de Catia La Mar, em La Guaira, uma das localidades mais afetadas pela tragédia.
Em outras áreas, o deslocamento da falha foi de apenas alguns centímetros, explica Sergio Barrientos, diretor do Centro Sismológico Nacional da Universidade do Chile. "A falha não se desloca da mesma forma em toda a sua extensão", afirma, se referindo ao fenômeno que explica por que os efeitos do terremoto variam de uma região para outra.
Nas áreas onde a ruptura é maior, diz Barrientos, "as ondas sísmicas são mais intensas e têm maior amplitude, mesmo que o epicentro tenha sido em outro lugar".
Imagem BBC Brasil
O último registro de um terremoto duplo na Venezuela é de 1812 Crédito: Getty Images

2. Características do solo

Além do poder destrutivo do terremoto duplo, os prédios desabaram por causa do tipo de solo ou por falhas na construção? Essa é a principal pergunta feita por muitos especialistas e, como costuma acontecer, não há uma única resposta.
"Nem todos os solos de La Guaira são iguais", afirma Michael Schmitz, professor de geofísica da Universidade Simón Bolívar e da Universidade Central da Venezuela.
Segundo Schmitz, há áreas específicas do estado, como a cidade de Caraballeda, onde existe uma bacia sedimentar com cerca de 400 metros de profundidade e onde o solo mais macio contribuiu para os desabamentos.
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Centenas de prédios sofreram danos graves ou desabaram completamente, segundo informações oficiais Crédito: AFP via Getty Images
Em outras áreas, como Catia La Mar, cidade turística que hoje lembra uma zona de guerra, o solo é predominantemente formado por rochas de dureza intermediária.
Há regiões de La Guaira assentadas sobre leques aluviais que acumularam camadas pouco espessas de sedimentos mais macios, afirma Viana. Segundo ele, esses solos sedimentares "funcionaram como um filtro que amplificou de forma brutal o movimento do terreno".
Ruth Quereguán, pesquisadora da Escola de Geologia, Minas e Geofísica da Universidade Central da Venezuela, percorreu Catia La Mar e a região no entorno do Aeroporto Internacional de Maiquetía, em La Guaira.
"Vi tanta ou mais devastação do que nos deslizamentos", afirma Quereguán, referindo-se à tragédia provocada pelos deslizamentos de terra na serra de El Ávila, em dezembro de 1999.
Esses deslizamentos atingiram diretamente La Guaira, que na época se chamava estado de Vargas. Quase três décadas depois, a mesma região voltou a ser palco de um terremoto duplo. Segundo a pesquisadora, "são dois fenômenos que se sobrepõem".
Em La Guaira há muitos terrenos parcialmente consolidados em consequência dos deslizamentos, ou seja, áreas formadas por sedimentos de resistência intermediária. Segundo Quereguán, esses solos sedimentares podem ter contribuído para o colapso dos prédios. "Muitas respostas só virão quando tivermos mais dados disponíveis."
Os pesquisadores também investigam a possibilidade de que o terremoto duplo tenha sido, na verdade, um terremoto triplo.
Imagem BBC Brasil
Famílias inteiras ficaram soterradas sob os escombros Crédito: AFP via Getty Images

3. A qualidade das construções

Sobre a qualidade das edificações, Quereguán afirma que, após os deslizamentos de terra de 1999 em El Ávila, parte dos imóveis que havia sido parcialmente danificada foi reconstruída. O problema, segundo ela, é que os especialistas não sabem se foram verificadas as autorizações de ocupação, as licenças de construção ou os materiais utilizados nas obras. "Em alguns casos, certamente houve negligência", afirma.
Também há dúvidas sobre os prédios construídos depois dos deslizamentos. Segundo a pesquisadora, não há certeza de que tenham sido realizados, por exemplo, os estudos de solo exigidos para as novas construções. "Não sabemos se a norma adotada depois do terremoto de 1967 foi cumprida", acrescenta Quereguán. A norma que regulamenta as construções resistentes a terremotos, atualizada diversas vezes ao longo dos anos, entrou em vigor no início da década de 1970.
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Há quase três décadas, a Venezuela sofreu um deslizamento de terra que também atingiu La Guaira e teve efeitos devastadores Crédito: AFP via Getty Images
É provável que parte das construções em La Guaira não tenha seguido essas normas, afirma a pesquisadora. "É aí que entram a negligência e a corrupção. E, nesse sentido, não dá para esconder o problema." Ainda assim, ela ressalta que é preciso esperar as conclusões dos especialistas.
Por enquanto, integrantes de equipes de emergência que viajaram de outros países para ajudar nos trabalhos de resgate e remoção de escombros afirmam ter se surpreendido com o uso de materiais de construção que consideram "inadequados".
Um deles, que pediu para não ser identificado, relatou que encontrou, em um prédio de La Guaira, vigas feitas de um material leve que pode ser quebrado com as mãos (tecnicamente, poliestireno expandido) recobertas por uma camada de concreto de apenas alguns centímetros. Ele também encontrou pilares sem barras de aço em seu interior.
Os estudos técnicos que vierem a ser publicados após a tragédia em La Guaira provavelmente trarão evidências que ajudarão a esclarecer, com maior precisão, o que aconteceu com o solo e as edificações.
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Estimativas preliminares indicam que a ruptura da falha que provocou o terremoto duplo se estendeu por até 200 quilômetros Crédito: AFP via Getty Images

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