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Famílias da ocupação Chico Prego, que foram expulsas da antiga Escola Irmã Jacinta, no Romão, estão acampadas há 30 dias na frente da Prefeitura de Vitória Fernando Madeira
Falta de moradia

Calçada da Prefeitura de Vitória vira lar de crianças e mães sem casa

Há mais de 60 dias, famílias sem moradia se dividem em barracas na frente da sede da administração municipal, ocupando parte da entrada do prédio

Aline Nunes

Repórter

Publicado em 08 de Julho de 2026 às 18:37

Publicado em

08 jul 2026 às 18:37
Famílias da ocupação Chico Prego, que foram expulsas da antiga Escola Irmã Jacinta, no Romão, estão acampadas há 30 dias na frente da Prefeitura de Vitória
Famílias estão acampadas há mais de 40 dias na frente da Prefeitura de Vitória Crédito: Fernando Madeira
Final de tarde de maio e o vento sopra forte e frio. Em um grupo de crianças, adultos e idosos, nem todos têm roupas apropriadas para vestir diante da mudança de temperatura. Comida e água somente na quantidade que chega por doação. Eles também não têm casa: estão acampados diante da Prefeitura de Vitória há mais de um mês, esperando que dali apareça alguma solução para a falta de moradia. Mas ela não vem. 
O grupo, que reúne 35 pessoas em barracas montadas no acesso ao prédio da administração municipal, se denomina Ocupação Chico Prego e saiu em abril da Escola Irmã Maria Jacinta Soares de Souza Lima, no Romão, onde havia permanecido por cerca de sete meses. As famílias foram obrigadas a deixar o espaço por ordem judicial, após ação da prefeitura, que afirma ter previsão de investimentos na unidade de ensino, inativa desde 2013.
O movimento não tem lideranças, mas algumas pessoas se dispõem a dar o nome e a mostrar o rosto na expectativa de conseguir atenção para a causa. É com esse propósito que se apresenta Rafaela Regina Caldeira, mãe de dois adolescentes, que está há cinco anos andando de ocupação em ocupação. A cada reintegração, o desânimo toma conta diante da falta de perspectiva de conseguir finalmente uma moradia.
"A gente se sente humilhado de estar aqui, de ter que ficar pedindo, expondo a família. Só queremos o que é direito de todos: ter um lugar digno para morar"
Rafaela Regina Caldeira - Moradora da Ocupação Chico Prego
Ela conta que ficou desempregada e, sem recursos para pagar as contas, se viu obrigada a deixar a casa onde vivia. A primeira ocupação foi na Fazendinha, mas já passou também pela Casa do Cidadão, no prédio do IAPI e por Santa Cecília. Ainda teve um período em que recebia aluguel social por determinação da Justiça. O benefício foi suspenso no ano passado, quando, então, ocupou a escola junto a outras famílias.
Nessa rotina, muitos ficaram pelo caminho. De alguns, Rafaela não tem notícias. Sobre outros, guarda lembranças como a de sua tia que morreu neste ano durante o processo de desocupação da escola. Por ser acamada, tinha conseguido abrigamento, mas já chegou ao local com um princípio de pneumonia e não resistiu, segundo a sobrinha.
Mesmo com todas as dificuldades aparentes, Rafaela lamenta que o poder público não ofereça condições para que consigam moradia. Além da prefeitura, ela faz críticas à Câmara Municipal e a vereadores que, em sua avaliação, deveriam fiscalizar o Executivo.
Ela diz que foi a uma sessão do Legislativo no dia 9 de maio e os comentários sobre a ocupação eram depreciativos, com queixas sobre o protesto do grupo diante da prefeitura. Embora não tenha citado Karla Coser e Camila Valadão nominalmente, Rafaela afirma que apenas duas vereadoras se mostraram preocupadas com a situação das famílias.
"Fiquei um pouco horrorizada porque a fala dos vereadores é que nós estamos estragando a imagem da prefeitura. Esqueceram que o objetivo aqui é a vida. Estavam preocupados com calcinha no varal, com o jardim, mas não se preocuparam com o inverno, com crianças e idosos que estão debaixo de chuva e sem ter como se alimentar"
Rafaela Regina Caldeira - Moradora da Ocupação Chico Prego
Sem moradia que estão acampados em frente a Prefeitura de Vitória, em Vitória
Sem moradia, crianças também vivem as restrições da ocupação Crédito: Ricardo Medeiros
Rafaela rebate ainda àqueles que consideram o movimento ilegítimo e ressalta que nenhum dos integrantes da ocupação está no local por conveniência, mas por necessidade.
Na luta por moradia também há cinco anos, Mirian Santos é mãe solo de quatro filhos — duas crianças e dois adolescentes. Ela destaca o apoio que recebe com as doações porque só assim pode sustentar os filhos, porém mal consegue falar, e começa a chorar, ao ser questionada sobre as dificuldades do dia a dia. "Agora somos moradores de rua", constata. 

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