Final de tarde de maio e o vento sopra forte e frio. Em um grupo de crianças, adultos e idosos, nem todos têm roupas apropriadas para vestir diante da mudança de temperatura. Comida e água somente na quantidade que chega por doação. Eles também não têm casa: estão acampados diante da Prefeitura de Vitória há mais de um mês, esperando que dali apareça alguma solução para a falta de moradia. Mas ela não vem.
O grupo, que reúne 35 pessoas em barracas montadas no acesso ao prédio da administração municipal, se denomina Ocupação Chico Prego e saiu em abril da Escola Irmã Maria Jacinta Soares de Souza Lima, no Romão, onde havia permanecido por cerca de sete meses. As famílias foram obrigadas a deixar o espaço por ordem judicial, após ação da prefeitura, que afirma ter previsão de investimentos na unidade de ensino, inativa desde 2013.
O movimento não tem lideranças, mas algumas pessoas se dispõem a dar o nome e a mostrar o rosto na expectativa de conseguir atenção para a causa. É com esse propósito que se apresenta Rafaela Regina Caldeira, mãe de dois adolescentes, que está há cinco anos andando de ocupação em ocupação. A cada reintegração, o desânimo toma conta diante da falta de perspectiva de conseguir finalmente uma moradia.
"A gente se sente humilhado de estar aqui, de ter que ficar pedindo, expondo a família. Só queremos o que é direito de todos: ter um lugar digno para morar"
Ela conta que ficou desempregada e, sem recursos para pagar as contas, se viu obrigada a deixar a casa onde vivia. A primeira ocupação foi na Fazendinha, mas já passou também pela Casa do Cidadão, no prédio do IAPI e por Santa Cecília. Ainda teve um período em que recebia aluguel social por determinação da Justiça. O benefício foi suspenso no ano passado, quando, então, ocupou a escola junto a outras famílias.
Nessa rotina, muitos ficaram pelo caminho. De alguns, Rafaela não tem notícias. Sobre outros, guarda lembranças como a de sua tia que morreu neste ano durante o processo de desocupação da escola. Por ser acamada, tinha conseguido abrigamento, mas já chegou ao local com um princípio de pneumonia e não resistiu, segundo a sobrinha.
Mesmo com todas as dificuldades aparentes, Rafaela lamenta que o poder público não ofereça condições para que consigam moradia. Além da prefeitura, ela faz críticas à Câmara Municipal e a vereadores que, em sua avaliação, deveriam fiscalizar o Executivo.
Ela diz que foi a uma sessão do Legislativo no dia 9 de maio e os comentários sobre a ocupação eram depreciativos, com queixas sobre o protesto do grupo diante da prefeitura. Embora não tenha citado Karla Coser e Camila Valadão nominalmente, Rafaela afirma que apenas duas vereadoras se mostraram preocupadas com a situação das famílias.
"Fiquei um pouco horrorizada porque a fala dos vereadores é que nós estamos estragando a imagem da prefeitura. Esqueceram que o objetivo aqui é a vida. Estavam preocupados com calcinha no varal, com o jardim, mas não se preocuparam com o inverno, com crianças e idosos que estão debaixo de chuva e sem ter como se alimentar"
Rafaela rebate ainda àqueles que consideram o movimento ilegítimo e ressalta que nenhum dos integrantes da ocupação está no local por conveniência, mas por necessidade.
Na luta por moradia também há cinco anos, Mirian Santos é mãe solo de quatro filhos — duas crianças e dois adolescentes. Ela destaca o apoio que recebe com as doações porque só assim pode sustentar os filhos, porém mal consegue falar, e começa a chorar, ao ser questionada sobre as dificuldades do dia a dia. "Agora somos moradores de rua", constata.