Apenas três pessoas vão ser julgadas, nesta quarta-feira (5), pelo assassinato de dois irmãos no bairro Piedade, Damião Marcos Reis, 22, e Ruan Reis, 19, mortos em Vitória em 2018. Um dia antes de o Tribunal do Júri ser realizado, a advogada de um dos quatro réus apresentou um atestado, informando que, por problemas de saúde, não poderia participar da sessão, o que levou o Juízo da Primeira Vara Criminal de Vitória a adiar o julgamento de Flávio Sampaio.
Com a decisão, estão sendo julgados os seguintes réus:
- Alan Rosário do Nascimento, vulgo “Gordinho”
- Rafael Batista Lemos, vulgo “Boladão”
- Gean Gaia de Oliveira, vulgo “Chocolate”
Vai ser julgado em uma data ainda a ser agendada:
- Flávio Sampaio, vulgo “Coroa” ou “Flavinho”
Outros dois foram pronunciados — decisão judicial que os encaminha para o Tribunal do Júri —, mas não vão ser julgados com os demais, porque recorreram contra a sentença e aguardam resposta da Justiça. São eles:
- Leandro Correia Ramos Barcelos, vulgo Leandro Bomba
- Renato Correia Ramos
Após a primeira denúncia relacionada ao caso, o Ministério Público do Espírito Santo (MPES) denunciou também outros dois réus por participação nos homicídios. Eles seriam lideranças da região de São Benedito que teriam dado apoio aos acusados. O processo deles está em tramitação e ainda não há previsão de quando serão julgados. São eles:
- Geovani de Andrade Bento, vulgo “Vaninho”, liderança de facção criminosa que está detida em presídio federal em Rondônia
- Tiago da Silva
O julgamento teve início por volta das 9 horas. Logo após o sorteio dos jurados, foi iniciado o depoimento de um policial civil, a única testemunha do Ministério Público do Espírito Santo (MPES). E, com a redução do número de testemunhas, a expectativa é de que o júri se encerre ainda nesta quarta.
Três promotores de Justiça estão à frente do caso: Rodrigo Monteiro, Bruno de Oliveira e Gustavo Michelsem. Eles esperam que os réus sejam condenados a uma pena máxima de 60 anos, cada um deles.
Monteiro explicou que outras testemunhas não foram relacionadas para garantir a segurança e não expor as pessoas, pois o caso envolve facção criminosa.
Crime
Os irmãos Ruan Reis, 19, e Damião Marcos Reis, 22, foram mortos com mais de 20 tiros, cada um deles. Após a execução, outros crimes ocorreram na região, todos resultado das disputas do tráfico de drogas nos bairros Piedade e Fonte Grande, em Vitória. O assassinato aconteceu no dia 25 de março de 2018, por volta de 1 hora, na Rampa Odilio Ferreira, próximo à Escadaria 25 de Abril, no bairro Piedade, em Vitória.
De acordo com a denúncia do MPES, Ruan estava em casa, na companhia de sua cunhada, quando foi abordado pelos grupo denunciado pelo crime. “Além de estarem portando armas de fogo, trajavam toucas ninja, coletes e coturnos”, informa o texto.
Na sequência, eles ordenaram que a cunhada fosse para dentro da casa e, quando ela atendeu o pedido, o grupo indagou Ruan sobre a localização dos chefes do tráfico do bairro.
“Depreende-se que, como Ruan não soube informar a localização pretendida pelos denunciados, seus algozes o conduziram pelas ruas do bairro sob a mira de armas de fogo, chegando ao alto do Morro da Piedade”, é relatado na denúncia.
A cunhada, ao perceber que Ruan foi levado pelo grupo, comunicou o fato aos seus familiares. Foi quando Damião saiu de casa correndo à procura do irmão. Ele o encontrou já sob o poder do grupo e, ao questionar a motivação, os dois irmãos foram atingidos por vários disparos de armas de fogo.
À época do crime, a polícia informou que foram mais de 60 disparos. A perícia encontrou 22 perfurações no corpo de Ruan e 20 no corpo de Damião. No local, foram encontradas mais de 60 cápsulas de calibre 380, Ponto 40 e 9mm.
O que diz a defesa
Por nota, a advogada Paloma Gasiglia, que faz a defesa de Flávio Sampaio, informou que teve um problema de saúde. “O que me impediu de estar no plenário, mas continuo acreditando plenamente que será feita justiça quanto a Flávio Sampaio, com a absolvição, uma vez que ele não tem nenhuma ligação com os fatos julgados”, disse.
Assinalou ainda que buscará a absolvição do seu cliente em julgamento futuro. Destaca que o processo se embasa em provas testemunhais que não reconheceram Flávio como partícipe e que vão provar, em plenário, que ele não tem nenhuma ligação com o crime.
Os advogados dos outros três réus que estão sendo julgados nesta quarta-feira (5) não foram localizados. quando isso ocorrer, este texto será atualizado.
Grupo queria o controle do tráfico local
Os crimes foram praticados, segundo o MPES, “por motivo torpe”. “No contexto da guerra do narcotráfico, visto que os denunciados estavam à procura dos endereços dos chefes do tráfico local, pois planejavam retomar o controle do crime nos morros da Piedade e da Fonte Grande, assim, como as vítimas não lhes forneceram os endereços almejados, os denunciados as mataram”, relata a denúncia.
Destaca ainda que os executores, que se encontravam em superioridade numérica, efetuaram disparos de arma de fogo em desfavor das vítimas, que estavam desarmadas.
O ano de 2018 no Morro da Piedade foi marcado por noites sangrentas, com crimes brutais, seguidos de ataques e ameaças a moradores que foram expulsos do bairro, localizado em Vitória. Era o resultado da guerra do tráfico de drogas pela disputa de territórios. Foram pelo menos oito assassinatos, além de duas tentativas de homicídio.
A comunidade chegou a realizar protestos pedindo por mais segurança. Dezenas de moradores acabaram deixando o bairro em decorrência do avanço da criminalidade e do medo de novos confrontos.
As investigações sobre os crimes ocorridos em 2018 apontaram que, desde o final do ano de 2017, cerca de 20 pessoas portando armas de fogo e trajando toucas ninjas, coletes e coturnos se revezavam na procura pelos chefes do tráfico de drogas local, com o objetivo de eliminá-los e tomar o controle da região da Piedade, Fonte Grande e Moscoso.
Esse grupo e suas famílias haviam sido expulsos destas localidades pelos que estavam chefiando o tráfico na região. Naquela ocasião, o comando do tráfico estava nas mãos dos integrantes da família Ferreira Dias, e era em busca deles que o grupo estava. Contavam com o apoio do PCV/Trem Bala. Na busca pelas lideranças do tráfico, ocorreram os seguintes crimes:
- 25 de março de 2018 - o grupo armado matou os irmãos Damião Marcos Reis, 22, e Ruan Reis, 19, que não sabiam a localização do chefe do morro. Nas semanas que se seguiram, os ataques ao bairro em busca dos traficantes que comandavam a região continuaram.
- 27 de maio de 2018 - foi morto a tiros Aladir de Oliveira Filho, apontado pela polícia como um dos homens que colaboraram no assassinato dos irmãos Reis. Ele era pai de um dos acusados pelo crime dos irmãos, Alan Rosário. Segundo a polícia, ele foi morto por Walace de Jesus Santana, que era uma das lideranças do tráfico na Piedade.
- 28 de maio de 2018 - foi assassinado Lucas Teixeira Verli, de 19 anos, segundo a polícia, com mais de 15 tiros durante outro ataque ao Morro da Piedade. Um bando formado por cerca de 20 pessoas encapuzadas entrou no local atirando em quem estivesse pela frente. No total, mais de 60 cápsulas de munição foram recolhidas pela polícia. Segundo as investigações, o ataque foi vingança de Alan pela morte do pai, e deixou outros moradores feridos.
- 10 de junho de 2018 - Os criminosos invadiram a comunidade mais uma vez, e mataram Walace de Jesus Santana, apontado como braço direito do "dono" do morro, João Paulo Ferreira Dias, o JP. Após o homicídio, a família dele foi expulsa da Piedade e teve a casa incendiada. Segundo a investigação policial, após a execução de Walace, o grupo fez ameaças aos moradores, gritando pelo morro e exigindo a saída de todos os familiares das pessoas que comandavam o tráfico local, e deram um prazo de 30 dias. Nos meses que se seguiram, dezenas de moradores decidiram abandonar suas casas na Piedade.
- 14 de janeiro de 2019 - Mais uma noite sangrenta, desta vez na divisa entre os Morros da Piedade e Moscoso, em uma área conhecida como "Poeirão", três jovens foram assassinados. Outros dois conseguiram sobreviver. A perícia criminal da Polícia Civil, na época, informou que foram encontradas aproximadamente 40 cápsulas de calibres .380 e 9mm. As vítimas que morreram foram atingidas por cerca de 10 a 15 perfurações, cada uma. Naquele dia morreram: Luiz Fernando da Conceição Gomes, 18 anos; Patrick Oliveira de Souza, 26; e Wemerson da Silva Lima, 23. Sobreviveram um coletor de lixo de 28 anos, e uma adolescente, de 15 anos.
Expulsão dos moradores
Segundo as investigações, por trás das mortes e dos ataques à Piedade, com reflexos nos bairros Fonte Grande e Moscoso, estão expulsões de traficantes e vinganças. O grupo que promoveu os ataques em 2018, junto com suas famílias, havia sido expulso dessas localidades pelos que estavam chefiando o tráfico na região, entre os anos 2012 e 2013.
O comando do tráfico da Piedade passou para as mãos dos integrantes da família Ferreira Dias (formada pelos irmãos João Paulo, Felipe, e ainda por Walace). Em 2018, os que haviam sido expulsos decidiram retomar o controle da região e, para isso, viabilizaram a criação de uma espécie de um consórcio entre ex-traficantes da Fonte Grande e Moscoco (Rafael, Gustavo, Alan, Gaia, Leandro e Renato) com traficantes de São Benedito (Vaninho e Janderson Mala-velha) e com outro de Cobi de Baixo (Flavio Sampaio).
Participaram ainda familiares desses traficantes que ainda moravam na Piedade ou próximo ao bairro. Foram eles que auxiliaram com informações sobre os que estavam comandando o bairro e sua localização. Contaram com o apoio do PCV/Trem Bala