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Vitor Vogas

Era Trump e fake news: um desastre para a democracia

Publicado em 03 de Fevereiro de 2018 às 20:52

Públicado em 

03 fev 2018 às 20:52
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Coluna Vitor Vogas do dia 04/02/2018 Crédito: Ilustração | Arabson
A chegada de Donald Trump à Casa Branca, bem como seu governo até aqui, são um desastre para a democracia no mundo inteiro, inclusive no Brasil.
Historicamente, os presidentes dos EUA se proclamam os “líderes do mundo livre”. Adoram encher o peito para se declarar defensores, mundo afora, da “liberdade” e da “democracia”, valores máximos sobre os quais está fundada a nação estadunidense. Assim, entendem ser o seu dever garantir a prosperidade desses valores no mundo sob sua influência.
Contrariando a tradição, Trump não demonstra o menor apreço pela democracia. Pior ainda: não demonstra a menor compreensão do que seja a democracia. A mesma que, era de esperar, ele deveria defender. Já não o demonstrava como candidato a ocupante do Salão Oval. Como presidente, menos ainda.
Como uma spoiled kid (criança mimada), Trump não aceita ser contrariado. Não sabe lidar com críticas, nem com o contraditório. Não admite que apontem os seus defeitos, erros, possíveis falhas de conduta e problemas de sua administração. Consequentemente, não entende o papel da imprensa, essa instituição tão vital (mas será que ele tem ideia?) para a prosperidade de qualquer nação verdadeiramente democrática.
Ora, o papel da imprensa é precisamente aquele com que Trump não consegue nem pretende lidar: o de criticar, promover o contraditório, apontar erros, falhas e problemas, a fim de cobrar soluções e ajudar a encontrá-las.
Trump não quer saber de nada disso. Não com ele no poder. O que ele faz então? O que faz qualquer menino malcriado que é o dono da bola do jogo. Como se estivesse na sala de reuniões de seu reality show, manda repórteres se calarem em plena coletiva de imprensa (dentro da Casa Branca!). Para encobrir suas próprias (e óbvias) deficiências, declara e sustenta diariamente uma guerra pessoal contra toda a imprensa.
E então, sistematicamente, Trump inventa a resposta-padrão, com a qual carimba qualquer notícia que não lhe agrade e que seja negativa para sua imagem e sua administração: “fake news”. Não importa o quão verídica, acurada e milimetricamente precisa seja a notícia. Não importa o quão perfeito, profundo e exaustivo tenha sido o trabalho de investigação jornalística. Trump não gostou? Fake news, tacha ele. E acha que com isso apaga o fato. O presidente dos EUA tem muito poder. Mas ainda não lhe foi dado o poder mágico de transformar uma informação correta em “notícia falsa" só porque essa notícia o incomoda.
E por que o incomoda tanto? Porque a imprensa yankee, no exercício de seu ofício e no cumprimento do seu dever, tem semanalmente desmascarado as mentiras em que se baseia a farsa Trump desde a candidatura. Sim, porque a verdadeira farsa é Trump. Já o era como candidato, o que por si só é bastante grave. Como presidente, mil vezes pior: Trump instituiu a mentira como política de governo.
E aí nos vemos diante do paradoxo maior, o absurdo do absurdo, o deboche em cima do deboche. Como candidato, Trump se beneficiou sumamente de “autênticas notícias falsas”. Ou seja, daquilo que pode verdadeiramente, sem margem de dúvida ou erro, ser classificado como fake news: cascatas; mentiras torpes, puras e simples; informações completamente inventadas, em muitos casos absurdas (Hillary Clinton pedófila?), produzidas e divulgadas por má-fé (quem as produz e as planta na internet tem plena consciência da sua inveracidade), com o objetivo deliberado de ludibriar as pessoas, reforçar suas predisposições e interferir em sua tomada de decisões.
É evidente (mas não para todos) que essas pretensas notícias não são apuradas nem escritas por jornalistas profissionais, mas simulam elementos jornalísticos (inclusive na apresentação visual e no jargão utilizado no texto), justamente de modo a serem tomadas como conteúdo jornalístico real pelo público-alvo.
Pois bem, Trump, enquanto candidato, valeu-se até lamber os beiços desse tipo de trapaça. Foi o Mr. Fake News. Agora que está no poder, no cúmulo da cara de pau, declara sua guerra às fake news. Mas não às “verdadeiras fake news”. Seu alvo são as notícias verdadeiras, publicadas por veículos seriíssimos e que nada têm de fake, mas que ele, por conveniência, prefere assim chamar a fim de desqualificá-las. E por que procura desqualificá-las? Porque elas, basicamente, revelam ao público seus podres. Notícias, portanto, que ele preferiria mil vezes que permanecessem engavetadas, bem longe do conhecimento público.
Não é a esse tipo de propósito que serve a imprensa. Ela está aí para jogar luz sobre fatos, como interessa ao grande público, não para mantê-los nas sombras, como pode convir aos interesses de certos homens poderosos.
Mas Trump não compreende nada disso. Talvez seja demais para ele.
Fake principles
Sobre a defesa da “liberdade” e da “democracia”, historicamente sustentada por presidentes dos EUA, ressalve-se, é claro, o emprego banalizado e meramente retórico desses conceitos, não raro utilizados para justificar a promoção de guerras motivadas na verdade por interesses econômicos camuflados. Os Bush, pai e filho, que o digam! A pretexto de defender a democracia, lançaram suas incursões bélicas em busca de petróleo no Oriente Médio.
Truque velho...
Já sobre a estratégia de Trump de declarar outra guerra – contra a imprensa em geral –, o truque cheira a mofo: para desviar a atenção do público do que realmente importa, o demagogo precisa eleger um “inimigo público” facilmente assimilável pela massa dócil que o segue: na campanha, foram os imigrantes; no poder, passou a ser a “grande mídia”.
O que é notícia
“Notícia é o que alguém, em algum lugar, não quer publicada: todo o resto é propaganda.” A reflexão é do jornalista e magnata da imprensa estadunidense William Randolph Hearst (1863-1951), que inspirou o protagonista do filme “Cidadão Kane”, obra-prima do diretor Orson Welles, lançada em 1941.
Fake quote
A frase costuma ser atribuída, erroneamente, ao escritor e também jornalista inglês George Orwell, que escreveu suas obras mais célebres – “A revolução dos bichos” e “1984” – na mesma década.
Contemporâneos
Um ano antes, em maio de 1940, outro ícone da defesa da democracia e das liberdades individuais chegava ao cargo de primeiro-ministro do país de George Orwell. Winston Churchill recusou-se a admitir a rendição do Reino Unido à Alemanha nazista de Adolf Hitler (tradução histórica mais precisa do autoritarismo e da supressão das liberdades).
E o que é a democracia?
Foi Churchill quem cunhou a frase: “A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”. Essa é dele mesmo. Foi dita em discurso no Parlamento, em 1947.
Vá ao cinema!
Está em cartaz no Estado a cinebiografia de Churchill, “O Destino de Uma Nação”, concentrada nos dias que sucederam a chegada dele ao poder, em um dos momentos mais críticos da Segunda Guerra Mundial. Também em cartaz o filme “The Post”, de Steven Spielberg, sobre a luta jurídica do jornal The Washington Post contra o governo de Richard Nixon, em 1971, para ter assegurado o direito de publicar documentos ultrassecretos vazados para o diário, que revelavam ao público mentiras do governo sobre a Guerra do Vietnã – os chamados “papéis do Pentágono”.
Lições contemporâneas
Os dois filmes dialogam muito com a atualidade e com a “Era Trump”. Lição de Churchill: não capitular diante da tirania. Lição do Post: uma democracia de verdade só se sustenta sobre os alicerces da imprensa livre. O resto é igualmente tirania, só que disfarçada de democracia.
To be continued
Este debate continua amanhã em A GAZETA, com cores nacionais, na coluna e em reportagem da editoria de Política.
Vai dar liga?
Combinando não só na camisa, o veterano ex-governador Max Mauro e o deputado federal Marcus Vicente (PP) iniciaram tratativas sobre as eleições, que vão envolver o prefeito Max Filho e Luiz Paulo Vellozo Lucas (ambos do PSDB). Um dos articuladores do grupo é o ex-dirigente Idivarci Martins, colaborador histórico de Luiz Paulo, atualmente lotado no gabinete parlamentar de Vicente.
 

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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